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Brasil Choque
de realidade Os programas sociais hoje
alavancam Lula nas pesquisas, mas quase todos nasceram tortos e tiveram
de ser modificados  Julia
Duailibi
Celso
Junior/AE
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litoral de São Paulo, um bar à espera do Luz para Todos: o único
programa fiel à sua concepção |
O Bolsa Família, que distribui até 95 reais mensais aos pobres,
já atinge 9,2 milhões de famílias. O ProUni, que concede
bolsas de estudo universitário a carentes, beneficiou 250.000 jovens em
dois anos. O Luz Para Todos, que pretende universalizar a oferta de energia elétrica,
já atende 3,3 milhões de brasileiros. Os programas sociais do governo
apresentam alguns números sonoros e têm dado uma contribuição
decisiva para turbinar o desempenho eleitoral do presidente Lula. Examinando-se
a trajetória de cada um deles na burocracia do governo, da concepção
à sua forma atual, descobre-se que, por trás dos números,
se esconde uma curiosidade: os petistas, quando passaram a colocar seus planos
sociais em prática, sofreram um tremendo choque de realidade. Entre os
cinco principais programas sociais do governo, apenas um, o Luz Para Todos, é
executado do modo como foi concebido mas, ainda assim, é apenas
uma versão levemente modificada de um programa criado pelo governo anterior,
o Luz no Campo. Os outros programas são hoje uma sombra do que eram no
início. O caso mais emblemático
é o Bolsa Família. Quando ainda tinha o nome de Fome Zero, seria
um programa para distribuir cupons de alimentação, de até
250 reais, com os quais as famílias pobres comprariam comida em lojas conveniadas.
Como se sabe, nada disso aconteceu. O Fome Zero virou Bolsa Família, tornando-se
o guarda-chuva de quatro programas sociais, trocou a distribuição
de cupons pela distribuição de dinheiro e reduziu o valor do benefício
de 250 para 95 reais. O choque de realidade talvez tenha sido mais intenso no
caso do programa Primeiro Emprego, que pretendia contemplar no ano inicial 250.000
jovens. Em sua primeira versão, foi um fracasso completo: atingiu 700 jovens
ou 0,28% da meta. Antes, o Primeiro Emprego partia da premissa de que a
dificuldade dos jovens para conseguir trabalho se devia à inexperiência.
Os gestores descobriram que a tese estava errada. Os jovens ficam desempregados
porque voltam a estudar, desistem do trabalho ou são desqualificados. Hoje,
em sua terceira versão, o foco do Primeiro Emprego é a qualificação
da mão-de-obra. Na avaliação
dos especialistas, os fracassos iniciais do PT com seus programas sociais podem
ser decorrência de falta de planejamento, de restrições orçamentárias
ou de desconhecimento sobre como funciona a máquina pública. Em
alguns casos, falta bom senso mesmo. No programa Farmácia Popular, cuja
proposta é vender remédios a baixo custo à população
carente, o governo achou melhor construir suas próprias farmácias.
Chega a gastar 170.000 reais por ano para manter as unidades que construiu
e até agora conseguiu abrir apenas 151 em todo o país. Há
três meses, os burocratas tiveram a idéia luminosa de, em vez de
ficar construindo farmácias, fazer parceria com as que já existem.
Pronto. De lá para cá, o número de farmácias conveniadas
já passou de 1 700. Ou seja: em três meses, o programa cresceu mais
de 1.000%. Falta agora arranjar dinheiro para distribuir medicamentos baratos
para tantas farmácias. Por enquanto, a rede credenciada recebeu apenas
remédios indicados para combater hipertensão e diabetes.
O dado positivo das sucessivas mutações dos programas sociais é
descobrir que o governo pelo menos não tem insistido no erro. "Na realidade,
a implementação de um programa social é um processo de recriação.
Entre o que você desenha e o que você executa há uma enorme
diferença", diz Pedro Luiz Barros Silva, professor do Instituto de Economia
e coordenador do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas
da Universidade Estadual de Campinas. Em alguns casos, diante da dificuldade de
cumprir uma exigência, o governo simplesmente ignora a exigência.
O ProUni, por exemplo, na proposta original de governo de Lula, distribuiria bolsas
de estudo para "cursos de qualidade". Na lista das entidades credenciadas, no
entanto, são inúmeros os casos de faculdades que, no último
Provão, tiraram a nota mais baixa do exame. |