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Brasil Morre
o petismo, nasce o lulismo Recorrendo
a seu carisma, e à máquina do Estado, Lula se descola do PT,
cria corrente e conquista apoio até de adversários
 Marcelo
Carneiro e José Edward Fotos
Celso Jr/AE, Fgv/CPDOC/Arq. Família Vargas/Rep. Oscar Cabral, Ag. JB, Leonid
Streliaev e Fernando Llano/AP
 | CAUDILHOS
DE ONTEM E DE HOJE Da esquerda para a direita,
Hugo Chávez, Juan Domingo Perón, Jânio Quadros e Getúlio
Vargas. Ao fundo, o presidente Lula |
Na crônica da América
Latina, de tempos em tempos surge um tipo peculiar de governante. É aquele
que, por força das circunstâncias e de um conjunto de características
pessoais, acaba por criar uma corrente política que invariavelmente
batizada a partir de seu próprio nome tem o poder de aglutinar em
torno de si forças das mais diversas, independentemente de interesses partidários
ou ideológicos. No Brasil, desde a morte de Getúlio Vargas, em 1954,
a praga dos caudilhos parecia pertencer ao passado. Foi necessário que
uma crise política eclodisse para mostrar que as coisas não eram
bem assim. Ao soterrar o petismo, desmoralizar parte do Legislativo e expor a
fragilidade das oposições, o escândalo do mensalão
ajudou a abrir espaço para o surgimento de um novo fenômeno no cenário
político brasileiro: o lulismo.
A alta popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mantida mesmo
após o lamaçal de corrupção que manchou seu governo,
soterrou seus principais ministros e revelou o estado de agonia ética de
seu partido, por si só já evidenciaria o fenômeno. O cenário
eleitoral, no entanto, vem mostrar quão gritante ele já se tornou.
Embora Lula parta para a corrida presidencial contando com o apoio oficial apenas
do minúsculo PRB (veja reportagem),
extra-oficialmente sua candidatura vem angariando apoio mesmo entre representantes
da oposição. Um exemplo: na segunda-feira passada, em mais uma de
suas inúmeras viagens com vistas à inauguração de
obras inacabadas, Lula visitou a cidade de Santo Estevão, na Bahia. Lá,
foi calorosamente recebido pelo prefeito Orlando Santiago, que, não bastasse
o fato de ser do PFL, é um dos nomes sob a esfera de influência do
senador Antonio Carlos Magalhães, hoje um dos principais críticos
de Lula. O inusitado entusiasmo do prefeito pefelista diante da visita do presidente
petista foi assim justificado por Santiago: "Não adianta se colocar contra
essa vertente. Eu me rendo", disse. A "rendição", obviamente, não
se deu em relação ao petismo. O prefeito, como muitos candidatos
posicionados em trincheira oposta à do PT, rendeu-se ao lulismo.
LULÉCIO, LUCÁSSIO, LULÔNIO
O dado baiano está longe de ser isolado.
O lulismo há muito ultrapassou as fronteiras do PT e da "esquerda". Tanto
assim que, hoje, a pedra no sapato do candidato tucano à Presidência,
Geraldo Alckmin, não atende apenas pelo nome de Lula. Para ganhar as eleições,
Alckmin terá de superar adversários como Lulécio, Lual, Lucássio
e Lulônio. Esses são os apelidos de alguns dos diversos comitês
suprapartidários que defenderão ao mesmo tempo as candidaturas do
petista para presidente e de correligionários ou aliados do tucano para
governador. "Lulécio" é a mistura de Lula com o governador tucano
e candidato à reeleição Aécio Neves, de Minas Gerais.
"Lucássio" mescla o nome do presidente ao do governador Cássio Cunha
Lima, da Paraíba, também do PSDB e igualmente candidato a um segundo
mandato. "Lulônio" significa Lula para presidente e o senador do PSDB Teotonio
Vilela Filho para governador de Alagoas. Já "Lual" é a mistura do
candidato do PT com o pepista Alcides Rodrigues, que concorre ao governo de Goiás
apoiado pelo tucano-mor do estado, Marconi Perillo. Curiosamente, todos esses
tucanos que agora surfam na onda do lulismo foram soldados de Alckmin na guerra
interna em que o ex-governador de São Paulo derrotou o prefeito José
Serra no processo de escolha do candidato do PSDB à Presidência.
O abandono a que parece fadada hoje
a candidatura Alckmin tem diversos precedentes históricos. O mais famoso
deles ocorreu na campanha presidencial de 1950. Na ocasião, o poderoso
PSD escolheu o oligarca mineiro Cristiano Machado para concorrer com o brigadeiro
udenista Eduardo Gomes. Na última hora, porém, o PTB decidiu lançar
a candidatura do ex-presidente Getúlio Vargas que terminou por vencer
as eleições com o mal disfarçado apoio dos correligionários
do peessedista Cristiano. O episódio deu origem ao termo "cristianizar"
que, em política, passou a significar "jogar alguém às
traças". No caso de Alckmin, é em Minas que sua cristianização
pode lhe causar mais problemas. Entre analistas políticos, é unânime
a opinião de que, sem uma votação expressiva no estado que
representa o segundo maior colégio eleitoral do país, o tucano dificilmente
reverterá a larga vantagem que Lula tem sobre ele nas pesquisas. Até
o momento, nada indica que o governador Aécio esteja disposto a entrar
firme na campanha federal. Embora venha insistindo em que está "absolutamente
engajado" na candidatura de Alckmin, o governador tem tomado o cuidado de, ele
próprio, relativizar os resultados desse "engajamento absoluto". "É
óbvio que todos aqueles que acompanham a política de perto sabem
que a transferência de votos é uma coisa limitada. Por maior que
seja o esforço, não é fácil você fazer essa
transferência absoluta", diz Aécio, cuja intenção de
voto é, segundo as pesquisas, de estratosféricos 70 pontos porcentuais.
Ricardo
Stuckert/PR
 | ELE
RI, O PT CHORA A alegre dupla Lulécio
(acima) e o choro dos petistas diante das denúncias do mensalão
| Ailton Freitas/Ag. O Globo
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COMO NASCE UM CAUDILHO A existência
de uma liderança carismática com forte influência nas camadas
mais pobres da população e pendor para comunicar-se diretamente
com elas é o requisito básico do caudilhismo. Foi assim com Getúlio,
no Brasil, e Perón, na Argentina. Tem sido assim com Hugo Chávez,
da Venezuela, e com Lula, agora. No caso do petista, um fator adicional ajudou
a fermentar a corrente que ele inspirou. A maior parte dos políticos latinos
de linhagem populista era, na verdade, representante das oligarquias ou da classe
média. À exceção do presidente da Bolívia,
Evo Morales (de quem não se pode dizer que tenha inspirado uma corrente,
ao menos por enquanto), nenhum deles tem uma biografia como a de Lula para exibir.
"O fato de Lula ser um pobre que virou líder dos pobres lhe dá uma
aura de predestinado, e ele faz questão de ressaltar isso", diz o sociólogo
Francisco Weffort. A força
da imagem pessoal, sozinha, não faz um caudilho. É necessário
que as circunstâncias colaborem. Fenômenos como o getulismo e o peronismo
são resultado de um caldo em que têm de estar presentes ao menos
três ingredientes: alto índice de desigualdade social, baixo grau
de escolaridade da população e descrédito das instituições.
No Brasil, o esfacelamento dos partidos foi decisivo na formação
do lulismo. Em 2002, na esteira da eleição de Lula, o PT elegeu
91 deputados federais, a maior bancada do Congresso. Hoje, reduzida a linha auxiliar
do projeto de reeleição, a legenda deve fazer, no máximo,
75 parlamentares. Na oposição, o cenário não é
mais alvissareiro. O PSDB, que nunca conseguiu se firmar como um partido nacional,
caminha a passos largos para a peemedebização ou seja, a
regionalização da sigla, cujos líderes se mostram muito mais
preocupados com seus próprios e, muitas vezes, conflitantes interesses
do que com um projeto nacional. O PFL navega a reboque do PSDB, ao qual ofereceu
o candidato a vice na chapa com Alckmin. "É esse cenário que abre
espaço para políticos que preferem a interlocução
direta com as massas", explica a cientista política Lúcia Hipólito.
Ainda no terreno das circunstâncias,
dois outros fatores tiveram papel fundamental na construção do lulismo:
em primeiro lugar, o esforço deliberado dos dirigentes petistas (e do próprio
Lula, é claro) em livrar o presidente de envolvimento no escândalo
do mensalão o que fez com que Lula conseguisse descolar sua imagem
da do seu naufragado e corrompido partido (que a filósofa petista Marilena
Chauí, em mais um de seus recorrentes ataques de ingenuidade, acredita
que vá dar o tom de um eventual segundo mandato de Lula pobre filosofia
brasileira...). Em segundo, o uso desvairado da máquina pública
como forma de reforçar a imagem getulista de "pai dos pobres". De programas
como o Bolsa Família a empréstimos para aposentados, o governo tem
inflado os gastos em projetos assistenciais a ponto de fazer crescer em 20% ao
ano o volume de gastos no setor, enquanto a economia registrou um aumento médio
de apenas 2,5%. Além de agradar aos pobres com um assistencialismo que
se auto-alimenta, Lula também não tem descuidado da tarefa de produzir,
ao mesmo tempo, apoio político e de mídia com base na manjadíssima
estratégia de distribuir concessões de rádio e televisão
a políticos aliados. Desde 2003, segundo levantamento do jornal Folha
de S.Paulo, o governo aprovou a concessão de 110 emissoras educativas
(não comerciais). Desse total, sete TVs e 27 rádios foram parar
nas mãos de políticos.  | "CRISTIANIZADO"?
Alckmin, candidato do PSDB: apoio em Minas é fundamental para o tucano |
"TERCEIRO MANDATO"
A seu favor, há que lembrar que Lula não é um populista clássico
ao menos no que diz respeito ao gerenciamento da economia. Até agora,
ao contrário do seu colega Hugo Chávez, que torra milhões
de petrodólares com suas megalomanias, produzindo inflação
e descontrole fiscal, Lula tem preservado os fundamentos da economia. "Seu discurso
de identificação com os pobres se manifesta mais como tática
eleitoral do que como projeto de governo", diz o cientista político Walder
de Góes. "Lula é um populista funcional", define o analista político
Gaudêncio Torquato. Para o ex-petista Cristovam Buarque, isso não
é garantia de que um segundo mandato de Lula estará blindado contra
aventuras populistas ou de caráter autoritário. Na semana passada,
ao lançar sua candidatura à Presidência, o senador declarou
temer a reeleição do presidente, especialmente se ela viesse acompanhada
de uma consagradora votação em primeiro turno. "Meu medo é
que ele queira um terceiro mandato", disse Cristovam, sugerindo que Lula poderia
até mesmo tentar reformar a Constituição para perpetuar-se
no cargo. Tamanho disparate certamente encontraria a resistência do Congresso,
da Justiça e da opinião pública. Além disso, a trajetória
política de Lula não permite, ao menos até o momento, supor
que ele considere uma iniciativa dessa natureza. O surgimento do lulismo, no entanto,
é um sinal de alerta. Como lembra o filósofo Roberto Romano, da
Unicamp: "Quanto mais um país depende de pessoas, e não de instituições,
menos republicano ele é". Qualquer que seja o resultado das eleições,
aos brasileiros interessa que nenhuma anormalidade institucional sacuda a vida
do país. Mesmo porque o último ano do governo Lula foi suficiente
para que o Brasil esgotasse sua cota de suportar perplexidades.
À moda da casa
O que o lulismo herdou de outras correntes que surgiram
no Brasil e na América Latina
Reprodução/Ricardo
Chaves
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GETULISMO:
o "protetor dos excluídos"
Assim como o ex-presidente Getúlio Vargas (1882-1954) era conhecido como
"pai dos pobres", Lula tem no paternalismo e no assistencialismo seus principais
canais de comunicação com a faixa mais pobre da população
PERONISMO: a
proximidade com os sindicatos Juan Domingo
Perón, que governou a Argentina de 1946 a 1955, fez dos sindicatos a base
de sustentação do seu poder. Lula, fruto do movimento sindical,
usa o seu berço político como instrumento de pressão contra
a oposição
Irmo
Celso
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JANISMO:
discursos sob encomenda Lula
adota a mesma estratégia do ex-presidente Jânio Quadros ao adequar
seus discursos de forma a agradar ora ao mercado financeiro ora às bases
do PT. Na eleição de 1960, Jânio prometia aos banqueiros o
respeito à propriedade, aos pobres o "fim da carestia" e aos intelectuais
a reaproximação com o bloco soviético
Fernando
Llano/AP
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CHAVISMO:
contra "as elites"
O discurso da perseguição pelas elites, um clássico da oratória
do presidente venezuelano Hugo Chávez, tornou-se o mote preferido de Lula
no auge da crise do mensalão
Fontes: Boris Fausto (USP) e José Luciano de Mattos Dias (Instituto
Brasileiro de Estudos Políticos) | | Com
reportagem de Camila Pereira |