Edição 1 655 -28/6/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Punir e matar

"O apoio à pena de morte nos Estados Unidos
tornou-se inversamente proporcional ao aumento
das execuções. Os fatores que levaram a isso
devem ser meditados por aqueles que querem
introduzir esse tipo de punição em nossas plagas"

Ilustração Ale Setti


Exposto ao vivo nos vídeos do país, o trágico desfecho do seqüestro do ônibus no Rio de Janeiro provocou estupor e inquietude nos quatro cantos do Brasil. Sinal de que um limite foi ultrapassado na questão da segurança pública, o presidente da República, numa atitude inédita nesse tipo de situação, reagiu imediatamente ao drama, criticando na televisão a calamitosa intervenção da Polícia Militar. A declaração deixou claro que a violência atual é intolerável e, mais grave ainda, que o Estado reconhece a incapacidade da força pública para lidar com o problema.

Confirmando a virada na política oficial, na semana passada, o Plano Nacional de Segurança Pública explicitou medidas de emergência que o governo pretende tomar para combater a criminalidade.

No meio da discussão surge, de maneira mais ou menos assumida, o remédio que uma parte da opinião pública considera infalível para arrostar a criminalidade: a pena de morte. É compreensível que a proposta venha à baila. Além da ineficiência policial, a atual legislação penal parece inadaptada para conter a violência. Ademais, não há motivo para que o Brasil exclua a pena capital, praticada nos Estados Unidos, a mais antiga e mais sólida democracia republicana do mundo.

Sucede que os magistrados e a opinião americana não estão mais tão seguros sobre a eficácia da pena de morte para os criminosos e os que são julgados criminosos. Esta última nuance é importante porque ela explica as dúvidas: desde 1976, quando a pena de morte foi reintroduzida nos Estados Unidos, 640 pessoas foram executadas e 87 tiveram sua pena modificada ou foram inocentadas após ter sido condenadas "sem nenhuma dúvida" ("beyond reasonable doubt", conforme a exigência da lei americana). Assim, a falha média nos julgamentos é de um erro jurídico patenteado para cada sete executados. Observe-se que a maioria dos erros decorreu da ausência do uso de novos métodos investigativos, como o exame de DNA, mas também, e sobretudo, da falha de advogados incompetentes assegurando a defesa de acusados sem recursos para contratar defensores experimentados.

Como nota o semanário londrino The Economist num dossiê sobre o assunto: "Qualquer tipo de avião caindo uma em cada sete vezes que levantasse vôo seria imediatamente tirado de atividade". Foi esse o raciocínio do governador de Illinois, George Ryan. Constatando que seu Estado detinha o "vergonhoso recorde de condenação de pessoas inocentes", o governador decretou a suspensão das execuções em Illinois. De todo modo, os americanos continuam a ser confrontados com fatos constrangedores. De 1973 a 1993, uma média anual de 2,5 condenados à espera da execução foi em seguida declarada inocente. De 1994 a 1999 essa média subiu para 4,6 e, somente nos três primeiros meses de 2000, três condenados à pena capital já foram exonerados dessa punição e soltos. Junto com a Índia e o Japão, os Estados Unidos são a única grande democracia que legaliza a pena de morte. Na União Européia, onde a pena de morte foi abolida, os novos aderentes, como a Turquia atualmente, devem modificar sua Constituição para eliminar a punição capital.

No cômputo geral das execuções no mundo, os americanos só ficam atrás de quatro países reconhecidamente avessos às práticas democráticas: China, Irã, Arábia Saudita e Congo.

Diante dessas circunstâncias não é de estranhar que uma sondagem recente tenha mostrado uma mudança da opinião americana: o apoio à pena de morte tornou-se inversamente proporcional ao aumento de execuções. De fato, esse apoio começou a cair em 1995, ano em que se aceleraram as mortes por enforcamento, eletrocussão, injeção de veneno, fuzilamento e asfixia por gás nas prisões americanas. Todos esses fatores devem ser meditados por aqueles que invocam o exemplo dos Estados Unidos para introduzir a pena de morte em nossas plagas.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador
(lfa@workmail.com)