Punir e matar
"O apoio à pena de morte nos Estados
Unidos
tornou-se inversamente proporcional ao aumento
das execuções. Os fatores que levaram a isso
devem ser meditados por aqueles que querem
introduzir esse tipo de punição em nossas plagas"
Ilustração Ale Setti
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Exposto ao vivo nos vídeos do país, o trágico
desfecho do seqüestro do ônibus no Rio de Janeiro
provocou estupor e inquietude nos quatro cantos do Brasil.
Sinal de que um limite foi ultrapassado na questão
da segurança pública, o presidente da República,
numa atitude inédita nesse tipo de situação,
reagiu imediatamente ao drama, criticando na televisão
a calamitosa intervenção da Polícia
Militar. A declaração deixou claro que a violência
atual é intolerável e, mais grave ainda, que
o Estado reconhece a incapacidade da força pública
para lidar com o problema.
Confirmando a virada na política oficial, na semana
passada, o Plano Nacional de Segurança Pública
explicitou medidas de emergência que o governo pretende
tomar para combater a criminalidade.
No meio da discussão surge, de maneira mais ou
menos assumida, o remédio que uma parte da opinião
pública considera infalível para arrostar
a criminalidade: a pena de morte. É compreensível
que a proposta venha à baila. Além da ineficiência
policial, a atual legislação penal parece
inadaptada para conter a violência. Ademais, não
há motivo para que o Brasil exclua a pena capital,
praticada nos Estados Unidos, a mais antiga e mais sólida
democracia republicana do mundo.
Sucede que os magistrados e a opinião americana
não estão mais tão seguros sobre a
eficácia da pena de morte para os criminosos e os
que são julgados criminosos. Esta última nuance
é importante porque ela explica as dúvidas:
desde 1976, quando a pena de morte foi reintroduzida nos
Estados Unidos, 640 pessoas foram executadas e 87 tiveram
sua pena modificada ou foram inocentadas após ter
sido condenadas "sem nenhuma dúvida" ("beyond reasonable
doubt", conforme a exigência da lei americana). Assim,
a falha média nos julgamentos é de um erro
jurídico patenteado para cada sete executados. Observe-se
que a maioria dos erros decorreu da ausência do uso
de novos métodos investigativos, como o exame de
DNA, mas também, e sobretudo, da falha de advogados
incompetentes assegurando a defesa de acusados sem recursos
para contratar defensores experimentados.
Como nota o semanário londrino The Economist
num dossiê sobre o assunto: "Qualquer tipo de
avião caindo uma em cada sete vezes que levantasse
vôo seria imediatamente tirado de atividade". Foi
esse o raciocínio do governador de Illinois, George
Ryan. Constatando que seu Estado detinha o "vergonhoso recorde
de condenação de pessoas inocentes", o governador
decretou a suspensão das execuções
em Illinois. De todo modo, os americanos continuam a ser
confrontados com fatos constrangedores. De 1973 a 1993,
uma média anual de 2,5 condenados à espera
da execução foi em seguida declarada inocente.
De 1994 a 1999 essa média subiu para 4,6 e, somente
nos três primeiros meses de 2000, três condenados
à pena capital já foram exonerados dessa punição
e soltos. Junto com a Índia e o Japão, os
Estados Unidos são a única grande democracia
que legaliza a pena de morte. Na União Européia,
onde a pena de morte foi abolida, os novos aderentes, como
a Turquia atualmente, devem modificar sua Constituição
para eliminar a punição capital.
No cômputo geral das execuções no
mundo, os americanos só ficam atrás de quatro
países reconhecidamente avessos às práticas
democráticas: China, Irã, Arábia Saudita
e Congo.
Diante dessas circunstâncias não é
de estranhar que uma sondagem recente tenha mostrado uma
mudança da opinião americana: o apoio à
pena de morte tornou-se inversamente proporcional ao aumento
de execuções. De fato, esse apoio começou
a cair em 1995, ano em que se aceleraram as mortes por enforcamento,
eletrocussão, injeção de veneno, fuzilamento
e asfixia por gás nas prisões americanas.
Todos esses fatores devem ser meditados por aqueles que
invocam o exemplo dos Estados Unidos para introduzir a pena
de morte em nossas plagas.
Luiz Felipe de Alencastro
é historiador
(lfa@workmail.com)