Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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Televisão
O Big Brother sou eu

O carioca Boninho se firma como
o guru dos reality shows no país


Marcelo Marthe


Oscar Cabral
Divulgação
Boninho e as participantes do último Big Brother: quem não obedece fica de castigo

Se depender do carioca J.B. de Oliveira – o Boninho, diretor do Big Brother Brasil –, uma tarefa aguarda os participantes da próxima edição do programa: eles serão obrigados a ler o livro 1984, do inglês George Orwell, que inspirou o nome da atração. Na obra, há uma entidade conhecida como Grande Irmão, que tudo vê e a todos controla. "Quero deixar claro que há um Grande Irmão no comando do programa", diz Boninho. Como uma de suas atribuições é vigiar, dar ordens e reprimir os concorrentes desde os bastidores, quem desempenha esse papel no pedaço, claro, é o próprio diretor. Hoje, o domínio desse Grande Irmão se estende para além da casa do Big Brother. Boninho tornou-se referência na Rede Globo quando o assunto é reality show. "O segredo é incentivar o tempo todo a participação do público, pois o brasileiro adora isso, e dar um ar de novela às tramas que surgem durante o programa", diz Boninho. Filho de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ex-todo-poderoso da Globo, o novo guru dos reality shows se criou nos corredores da emissora. Mas sua carreira deslanchou mesmo há quatro anos, quando produziu o primeiro sucesso desse gênero no país, No Limite. Boninho amargou, é verdade, um fracasso no ano passado: O Jogo, uma mistura insossa de dramaturgia e reality show. Mas Big Brother eclipsou a derrapada, e manteve seu cacife em alta. Ele acaba de receber uma nova missão: dirigir a terceira edição da gincana musical Fama e implementar várias mudanças no formato da atração, que deve estrear em junho.

Como diretor do Big Brother, Boninho comanda duas etapas cruciais na criação do reality show: a escolha dos concorrentes e a seleção do que vai ao ar. Boninho jura que certos detalhes picantes sobre o elenco da recém-encerrada quarta versão do programa eram ignorados pela produção. Por exemplo, a detenção da participante Juliana na adolescência, por porte de drogas, e o fato de que a argentina Antonela teria em seu currículo uma peça pornô. "Se a participante fosse honesta o suficiente para dizer que é garota de programa ou que foi presa por causa de entorpecentes, é claro que ela não entraria no Big Brother", afirma ele. Em vez de investigar esse tipo de coisa, a seleção se concentra em outros tópicos: os candidatos passam por uma bateria de exames que inclui teste de HIV. Quanto à edição, o diretor não se abala com as acusações dos eliminados que se dizem prejudicados pela forma como são mostrados. "Esse papo de perdedor é clássico. Se as pessoas nas ruas identificam fulano como chato ou sicrana como barraqueira, vamos realçar isso", diz.

O elenco do último Big Brother se destacou pelo pendor para a baixaria. Sabe-se que isso incomodou a cúpula da Globo em pelo menos um momento: foi solicitado a Boninho mais pudor ao mostrar os amassos entre Juliana e o lutador Marcelo. "O nosso Big Brother é fichinha perto da versão alemã, que é pura fornicação", comenta o diretor. O elenco também se destacou pela rebeldia. Em várias ocasiões, Boninho, o Grande Irmão, teve de entrar em cena. Durante uma aparição no programa, a apresentadora Ana Maria Braga propôs aos participantes o desafio de colocar um ovo cozido numa garrafa. "A Ana Maria falou mais do que devia", diz o diretor. Irritado, ele pediu que os participantes esquecessem a história do ovo. Eles não esqueceram. Às 3 e meia da manhã, botavam fogo numa garrafa cheia de álcool. Boninho ordenou que a brincadeira acabasse e anunciou, como castigo, o cancelamento de uma festa. "Os senhores são malucos incendiários", ralhou.

Em sua adolescência, no fim dos anos 70, Boninho já dirigia clipes para o Fantástico. "Ser filho do Boni me permitiu pular etapas", reconhece. No trabalho, colecionou desafetos como o diretor Daniel Filho. É atribuída a este último a frase "O Boni fez muita coisa boa, mas também fez o Boninho". A antipatia é uma via de mão dupla. Quando seu pai se desligou da Globo, em 1997, o diretor passou por sua fase mais difícil na emissora, que incluiu um período na geladeira. Com o sucesso de No Limite, isso começou a mudar. Boninho casou-se pela primeira vez, aos 21 anos, com a socialite Narcisa Tamborindeguy. A união durou pouco e ele não gosta de falar no assunto. "Se Narcisa tem mágoa de mim, que guarde para ela", diz. O diretor tem uma filha de 19 anos com ela e um filho de 8 anos de seu segundo casamento. Aos 42, está casado pela terceira vez, com a atriz Ana Furtado. O stress do Big Brother teve um efeito visível sobre sua silhueta: no último programa, ele engordou 10 quilos – atualmente, pesa 97. Alguém vai encarar o Grande Irmão?

 

De ambulante a superprodutor

Nenhum produtor personifica o sucesso dos reality shows como Mark Burnett. Esse inglês de 43 anos, radicado na Califórnia, conquistou um latifúndio na TV americana. Até quinze dias atrás, duas das três maiores audiências do país tinham sua grife: The Apprentice, estrelado pelo bilionário Donald Trump e cuja final foi ao ar no dia 15, e Survivor: All-Stars. Esse último é o oitavo de uma série que se iniciou em 2000 com Survivor, primeiro grande sucesso do gênero nos Estados Unidos. Matriz do brasileiro No Limite, é uma gincana disputada num lugar selvagem. Burnett – que já ganhou a vida como vendedor ambulante de camisetas numa praia californiana – figura na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo recém-publicada pela revista Time. É tido como uma usina de idéias e conhecido pelo poder de persuasão. Exemplo: abordou Trump pela primeira vez mesmo sem conhecê-lo, aproveitando a deixa de uma gravação numa de suas propriedades. O empresário, que já dissera não a outras propostas de reality shows sobre sua vida, rendeu-se a suas idéias. "Burnett é um visionário", diz Trump.

 
 
 
 
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