Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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Música
Prince está de volta à Terra

O cantor deixa de lado as excentricidades
e retoma a boa forma no CD Musicology


Sérgio Martins

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Boa notícia: aos 45 anos, Prince voltou à Terra. Depois de perder uma década numa espécie de universo paralelo, cheio de excentricidades, o cantor americano dá mostras de querer recuperar o espaço de destaque que ocupou por tanto tempo no mundo pop. A reentrada na atmosfera ocorreu em fevereiro, durante o Grammy, o maior prêmio da indústria fonográfica americana. Prince subiu ao palco com a cantora Beyoncé, grande musa do soul na atualidade, e fez uma apresentação eletrizante. Agora, novamente associado a uma gravadora internacional – algo que não acontecia desde que ele rompeu um contrato de 100 milhões de dólares com a Warner, em 1996 –, Prince lança o CD Musicology (Sony). Com canções bem-acabadas como havia muito tempo ele não gravava, o disco faz lembrar por que Prince já foi campeão de vendagens, e aclamado como um dos músicos mais inventivos da história do pop.

Prince começou a desgarrar-se em meados dos anos 90, em meio a sua briga com a Warner. O ponto central na querela foi o fato de a gravadora rejeitar um projeto megalomaníaco do cantor: lançar simultaneamente 450 músicas. Enquanto tentava rescindir seu contrato, Prince surgia em público com a palavra "slave" (escravo) pintada no rosto. Além disso, ele substituiu o nome por um símbolo, obrigando a imprensa a chamá-lo de "artista anteriormente conhecido como Prince". Na vida íntima, uma tragédia aconteceu. Prince teve um filho que morreu logo após o nascimento. A perda destruiu seu casamento com a dançarina Mayte Garcia-Nelson. Depois disso, Prince abandonou-se a maluquices, como submeter as namoradas a "sessões de telepatia". Enquanto isso, o músico perdia contato com o público. Seus discos já não tinham o mesmo vigor e ele deixou de emplacar sucessos. Houve quem dissesse que competia com Michael Jackson pelo posto de artista mais perturbado dos Estados Unidos. Uma comparação injusta, é claro. Os desatinos de Jackson fizeram com que deformasse o rosto e, na quarta-feira passada, com que fosse indiciado por pedofilia pela Justiça da Califórnia. As loucuras de Prince sempre foram inofensivas e, vê-se agora, mantiveram intacta sua capacidade de criar e entreter.

Na canção Life 'O' the Party, de Musicology, Prince responde àqueles que o compararam a Jackson. "Minha voz está cada vez melhor, e eu nunca fiz plástica no nariz", canta ele. O álbum não está repleto de novas idéias como Purple Rain (1984) ou Sign O' the Times (1987), mas tem sons empolgantes o bastante para explicar por que ídolos jovens como os do duo OutKast reverenciam Prince. Nas letras, uma diferença é sensível: o teor sexual baixou. É que Prince se tornou testemunha-de-jeová, daqueles que pregam de porta em porta – o que ele fez recentemente em sua cidade natal, Minneapolis. Por causa da conversão, ele substituiu as letras que falavam sobre masturbação e sexo casual pelas que falam sobre casamento. É o caso de Reflection, com um dos versos mais singelos da carreira do cantor: "Será que lembramos de aguar as plantas hoje?"

 
 
 
 
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