Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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Cinema
A beleza de ser banal

Anti-Herói Americano mistura drama,
desenho e documentário para contar
a incrível trajetória de um zé-ninguém


Isabela Boscov


Imagens divulgação
gação
Giamatti e Hope, como Pekar e Joyce, e o protagonista em sua versão nos quadrinhos: honestidade desconcertante

Harvey Pekar acha que existe complexidade até nas vidas mais medíocres, e ele fala com conhecimento de causa. Recentemente, Pekar se aposentou de seu primeiro e único emprego: arquivista no Hospital dos Veteranos de Cleveland, no Estado de Ohio. Durante cerca de três décadas, ele se sentou a uma mesa no porão do hospital, colocando fichas de pacientes em ordem alfabética, de manhã até a noite. Apesar de Pekar ter curso superior, nunca calhou, digamos assim, de ele seguir uma carreira. Essa foi uma das razões pelas quais a sua primeira mulher o abandonou, ainda na juventude. A outra razão, acredita ele, foi o sumiço de sua voz por causa de um calo nas cordas vocais, resultado dos tons exaltados com que ele costuma ventilar suas contrariedades. Hoje com 64 anos, Pekar permanece rouco e desanimado, e continua levando uma vida que mais parece se repetir do que propriamente seguir adiante – uma vida que ele e sua segunda mulher, Joyce Brabner, expõem com honestidade desconcertante no excepcional Anti-Herói Americano (American Splendor, Estados Unidos, 2003), desde sexta-feira em cartaz no país. Misto de ficção, documentário e história em quadrinhos, o filme do casal de diretores Robert Pulcini e Shari Springer Berman reinventa e expande os formatos convencionais do cinema para acomodar a visão de seu protagonista sobre a banalidade em que transcorre a existência. A trajetória de Pekar e Joyce é reencenada pelos atores Paul Giamatti e Hope Davis – ambos excelentes –, com freqüentes intervenções dos personagens reais e de dramatizações em desenho. Não raro, também, todas essas dimensões se combinam numa mesma cena. O saldo da investida é um filme pioneiro, que causou merecida sensação nos festivais de Sundance e Cannes no ano passado.

Quando tinha cerca de 30 anos, Pekar achou que iria enlouquecer se não encontrasse um escape. Apesar de não saber desenhar mais do que figuras toscas, começou a quadrinizar seu cotidiano – a irritação na fila do supermercado, as conversas com os tipos que o rodeavam no trabalho, o namoro com Joyce ("Sou vasectomizado", foi a primeira coisa que disse ao conhecê-la) e até seus enfrentamentos com um câncer. Robert Crumb, o papa do quadrinho underground – de quem Pekar era amigo havia vários anos –, achou que o trabalho era brilhante e merecia publicação. Desde então, Crumb foi um entre vários desenhistas a ilustrar a série de quadrinhos American Splendor, uma espécie de autobiografia em aberto na qual Pekar destila suas tragicômicas falhas e frustrações. Não há aspecto deletério de si próprio que ele hesite em mostrar, desde o seu mau humor, pessimismo e egoísmo até suas deficiências com a higiene pessoal.

O risco de abordar um personagem como esse é romantizá-lo até o ponto em que aquilo que o torna relevante – sua trivialidade – deixa de fazer sentido. Os diretores de Anti-Herói Americano, contudo, são tão pouco propensos a adornar a figura de Pekar quanto ele próprio. O que o filme deles canta e decanta é a idéia que As Horas, com toda a sua pretensão, mal chegou perto de arranhar: a de que o que nos define não é o resultado de nossas eventuais inspirações, mas sim o acúmulo de nossas banalidades.

 
 
 
 
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