|
|
Cinema
A
beleza de ser banal
Anti-Herói
Americano
mistura drama,
desenho e documentário para contar
a incrível trajetória de um zé-ninguém

Isabela
Boscov
Imagens divulgação
 |
gação
 |
| Giamatti
e Hope, como Pekar e Joyce, e o protagonista em sua versão
nos quadrinhos: honestidade desconcertante |
Harvey
Pekar acha que existe complexidade até nas vidas mais medíocres,
e ele fala com conhecimento de causa. Recentemente, Pekar se aposentou
de seu primeiro e único emprego: arquivista no Hospital dos
Veteranos de Cleveland, no Estado de Ohio. Durante cerca de três
décadas, ele se sentou a uma mesa no porão do hospital,
colocando fichas de pacientes em ordem alfabética, de manhã
até a noite. Apesar de Pekar ter curso superior, nunca calhou,
digamos assim, de ele seguir uma carreira. Essa foi uma das razões
pelas quais a sua primeira mulher o abandonou, ainda na juventude.
A outra razão, acredita ele, foi o sumiço de sua voz
por causa de um calo nas cordas vocais, resultado dos tons exaltados
com que ele costuma ventilar suas contrariedades. Hoje com 64 anos,
Pekar permanece rouco e desanimado, e continua levando uma vida
que mais parece se repetir do que propriamente seguir adiante
uma vida que ele e sua segunda mulher, Joyce Brabner, expõem
com honestidade desconcertante no excepcional Anti-Herói
Americano (American Splendor, Estados Unidos, 2003),
desde sexta-feira em cartaz no país. Misto de ficção,
documentário e história em quadrinhos, o filme do
casal de diretores Robert Pulcini e Shari Springer Berman reinventa
e expande os formatos convencionais do cinema para acomodar a visão
de seu protagonista sobre a banalidade em que transcorre a existência.
A trajetória de Pekar e Joyce é reencenada pelos atores
Paul Giamatti e Hope Davis ambos excelentes , com freqüentes
intervenções dos personagens reais e de dramatizações
em desenho. Não raro, também, todas essas dimensões
se combinam numa mesma cena. O saldo da investida é um filme
pioneiro, que causou merecida sensação nos festivais
de Sundance e Cannes no ano passado.
Quando
tinha cerca de 30 anos, Pekar achou que iria enlouquecer se não
encontrasse um escape. Apesar de não saber desenhar mais
do que figuras toscas, começou a quadrinizar seu cotidiano
a irritação na fila do supermercado, as conversas
com os tipos que o rodeavam no trabalho, o namoro com Joyce ("Sou
vasectomizado", foi a primeira coisa que disse ao conhecê-la)
e até seus enfrentamentos com um câncer. Robert Crumb,
o papa do quadrinho underground de quem Pekar era amigo havia
vários anos , achou que o trabalho era brilhante e
merecia publicação. Desde então, Crumb foi
um entre vários desenhistas a ilustrar a série de
quadrinhos American Splendor, uma espécie de autobiografia
em aberto na qual Pekar destila suas tragicômicas falhas e
frustrações. Não há aspecto deletério
de si próprio que ele hesite em mostrar, desde o seu mau
humor, pessimismo e egoísmo até suas deficiências
com a higiene pessoal.
O
risco de abordar um personagem como esse é romantizá-lo
até o ponto em que aquilo que o torna relevante sua
trivialidade deixa de fazer sentido. Os diretores de Anti-Herói
Americano, contudo, são tão pouco propensos a
adornar a figura de Pekar quanto ele próprio. O que o filme
deles canta e decanta é a idéia que As Horas,
com toda a sua pretensão, mal chegou perto de arranhar: a
de que o que nos define não é o resultado de nossas
eventuais inspirações, mas sim o acúmulo de
nossas banalidades.
|