Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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Livros
Família e mundo

A pretexto de escrever sobre
os antepassados,
Bolívar Lamounier
faz um passeio pela história


Roberto Pompeu de Toledo

Deu a louca no professor? O Bolívar Lamounier que se conhece é um sociólogo e cientista político de carreira acadêmica irrepreensível, doutor pela Universidade da Califórnia, mestre da USP e da PUC de São Paulo e autor de estudos sobre temas como partidos políticos, eleições e parlamentarismo. Pois o Bolívar Lamounier autor do livro que será lançado nesta semana, com o enigmático título de Moinho, Esmola, Moeda, Limão: Conversa de Família (Editora Augurium, 420 páginas, 100,00 reais), sai dos trilhos e põe-se (surpresa!) a explorar o espinhoso território das histórias de família, no caso sua família, os Lamounier do oeste de Minas Gerais – região onde ele próprio nasceu, na cidade que porta o lindo nome de Dores do Indaiá. Não há dúvida: deu a louca no professor. Mas uma loucura benigna, responsável por um livro notável pela ousadia, pela erudição e, sobretudo, pela originalidade.

É uma história de família, sim, mas ao mesmo tempo, advirta-se, não é. Ir atrás dos Lamounier é em princípio seu propósito central, mas para isso o autor não se vale, ou se vale muito pouco, do instrumento que mais seria de esperar – a genealogia. Bolívar mergulha na história dos nomes de família em geral, vai buscar a origem deles nas névoas da Idade Média, especula sobre etimologias possíveis do nome Lamounier, e com base nelas discorre sobre diferentes aspectos e diferentes períodos da história, antes de chegar, com seu primeiro antepassado comprovado, aos ignotos sertões de Minas Gerais, no século XVIII. O resultado é um prato cheio para quem gosta de história. É a história – da Europa e, depois, do Brasil – que pulsa no livro, a pretexto do nome Lamounier e da aventura dos Lamounier pela face da Terra.

Alexandre Tokitaka
O autor: uma "conversa de família" que vai dos moleiros medievais aos sertões de Minas


Sem contar a experiência das famílias patrícias do Império Romano, que esboçaram algo parecido, os nomes de família só despontam no Ocidente no segundo milênio da nossa era. Até então, vigorava o sistema de um nome só. É o que é natural, tanto para as pessoas quanto para os bichos e as coisas. Esse sistema começa a revelar-se insatisfatório ao duplo impacto do crescimento da população e do caráter limitado do estoque de nomes. Acresce, para agravar este segundo fator, que os nomes obedecem à moda. Em determinados períodos há muitos Pedros, muitos Afonsos, muitas Catarinas. No ano de 1300, em Toulouse, na França, segundo pesquisa citada no livro, entre 891 nomes masculinos, 691 repetiam os mesmos sete. A solução, para minimizar as confusões, foi agregar ao primeiro um segundo nome. "De modo geral, na França, na Península Ibérica e em outras partes da Europa a figura do sobrenome de família começa de fato a se fixar por volta de 1300 e só pode ser considerada estabelecida e irreversível em meados do século XVI", escreve o autor.

Onde buscar esse segundo nome? Um dos recursos foi invocar o lugar de nascimento da pessoa. Na França, onde Bolívar mais vai buscar subsídios, dada a possível origem francesa de "Lamounier", isso resultou em fórmulas como Lamglais (o inglês) ou Lombard (o lombardo). Outro recurso foi apontar a localização da casa da pessoa. Assim nasceram Duval (do vale) e Dumont (do monte), sobrenome do nosso Santos Dumont. Outro recurso ainda são os ofícios – e é assim que nascem o francês Sartre (do filósofo Jean-Paul) ou o inglês Taylor (da atriz Elizabeth), ambas as palavras derivadas do ofício do alfaiate. Ou então, para citar sobrenomes da última atualidade, que nem se encontram no livro, o espanhol Zapatero (do novo primeiro-ministro da Espanha) e o alemão Schumacher (do campeão de automobilismo), ambos remetendo ao fabricante de sapatos.

Bolívar encontra quatro etimologias possíveis para Lamounier, uma com base no ofício do moleiro, o proprietário ou operador do moinho (o francês mounier, variante de meunier), outra no de moedeiro (monnoyeur, monnoier, monnayeur), outra na atividade de quem dá esmolas (aumônier) e a última apoiada no cultor de limões, ou de certo cavalo chamado "limoeiro", bom para puxar carroças pesadas (limonier). Isso explica a esquisitice das palavras "moinho", "moeda", "esmola" e "limão" no título do livro. Cada uma dessas etimologias dá ensejo a longos capítulos, em que se discorre sobre moleiros, moinhos, moedas, moedeiros e que tais, e seu papel na história. A esmola, por exemplo, motiva uma exposição sobre como a pobreza, tida por determinada por Deus e passível de ser atenuada apenas pela caridade, demorou para ser percebida não como um destino, nem como só passível de socorro pela benemerência, mas como objeto de políticas públicas.

 
A casa dos Lamounier em Dores do Indaiá, em aquarela sobre foto

O nome Lamounier, segundo as pesquisas do autor, não subsiste senão no Brasil. O primeiro de seus portadores a aqui chegar foi um Antônio Afonso Lamounier, deslocado de Portugal, segundo presume o autor, pelas conseqüências do devastador terremoto de Lisboa de 1755. Antônio Afonso estabelece-se na comarca do Rio das Mortes, que tem São João del Rei como principal centro, e ganha uma sesmaria nos cafundós da Serra da Marcela, além-São Francisco. Para explorar suas terras, integra uma expedição sob o comando de Inácio Corrêa Pamplona, tipo violento de bandeirante tardio, que cumpria seu papel, escreve Bolívar, como "um ator que chegou ao teatro quando a peça já estava encerrada".

Estamos agora no Brasil, e é à saga brasileira, ou, mais especificamente, à saga mineira, que o autor nos conduz, por meio de personagens que vão desse primeiro Antônio Afonso a descendentes como o compositor popular Gastão Lamounier, autor de valsas de sucesso na primeira metade do século XX. A história de Minas Gerais dá motivo a conclusões preciosas: "Se a Inconfidência tivesse saído vitoriosa, sua mescla de intelectuais, servidores públicos, militares e empresários provavelmente seria saudada como fator positivo, sinal de realismo e envolvimento orgânico entre diferentes segmentos sociais. Como fracassou, o diagnóstico habitual afirma que a derrota estava de antemão determinada pelo acanhado horizonte ideológico desses grupos". O compositor Gastão Lamounier é pretexto para considerações sobre o papel da música popular na formação da consciência nacional.

Deu a louca no professor? No limiar dos 60 anos, idade propícia a esse tipo de acometimento, Bolívar ofereceu-se uma trégua e foi investigar a si mesmo. Há neste livro algo de "em busca do tempo perdido", e o autor não o esconde. Em Marcel Proust ele foi buscar uma das epígrafes, e além disso ainda o cita ao longo do texto. Mas é uma curiosa busca do tempo perdido esta. Ao investigar-se, o autor não se debruçou sobre a própria trajetória, nem mesmo, a rigor, sobre a dos antepassados, mas sobre a trajetória do mundo. É na história, na grande história, que, tendo por estrela-guia seu nome de família, procura enquadrar-se. Vale dizer que é nas vizinhanças da sociologia e da ciência política que se move, donde se conclui que, no fundo, não lhe deu tanto a louca assim. Bolívar não produziu uma história de família que tangencialmente aborda a história do mundo e do Brasil, mas, ao contrário, um ensaio sobre certos temas históricos que, tangencialmente, toca na história de sua família. Este é um paradoxal livro em que o autor se volta para as próprias origens mas só fala de si mesmo na última página. É quando lembra da casa em que nasceu, em Dores do Indaiá, "pequena e simples", mas que tinha "um certo encanto". Bolívar escreve, e estas são as palavras que fecham o livro: "Pelas cinco da tarde, quando retornava da cidade após as aulas e via de longe o conjunto, era com muito carinho que o apreciava: à esquerda, uma fileira e cinco ou seis altas mangueiras; bem junto à casa, abrigando-a contra o sol, um pé de 'sabãozinho'; ao fundo, perto do curral, uma bonita moita de bambu gigante".

 
 
 
 
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