Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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Riqueza
O bilionário russo que
conquistou a Inglaterra

Roman Abramovich, dono de time
de
futebol inglês, está saindo de
fininho da Rússia


Diogo Schelp


AP
O magnata na província de Chukotka, onde é governador: a atividade mais importante lá é a criação de renas


Os torcedores do Chelsea costumavam ser dos mais violentos e nacionalistas da Inglaterra, verdadeiros hooligans. O comportamento mudou nos últimos meses. As tradicionais canções xenófobas foram substituídas, durante as partidas, por uma música popular russa, a Kalinka, cantada com a embromação natural de quem não sabe nada da língua. Em seguida, os fãs gritam em uníssono: "Estamos cheios da grana!" O responsável por essa transformação é o bilionário russo Roman Abramovich, de 37 anos, o homem mais rico da Inglaterra, segundo o ranking divulgado na semana passada pelo jornal Sunday Times. Abramovich, um oligarca do setor petrolífero com patrimônio pessoal de 13,5 bilhões de dólares, desbancou o duque de Westminster, nobre que liderava a lista havia três anos. Apesar de não ser inglês, ele entrou no ranking porque, desde que comprou o Chelsea por 250 milhões de dólares, em julho de 2003, passou a viver a maior parte do tempo na Inglaterra. No início, os torcedores desconfiaram daquele estrangeiro jovem, podre de rico e com a barba sempre por fazer. Depois que ele gastou 200 milhões de dólares para montar uma boa equipe e conseguiu colocar o Chelsea no topo do campeonato inglês, a desconfiança virou admiração.

O time de futebol é uma parcela minúscula dos negócios de Abramovich. Dono de empresas de petróleo, alumínio e automóveis, seu patrimônio cresce a uma taxa de 785 milhões de dólares por ano, ou 89.000 dólares por hora. É um dos poucos bilionários da Rússia – os oligarcas, como são chamados pelos russos – poupados da ira do presidente Vladimir Putin, que vem promovendo uma verdadeira campanha contra os super-ricos do país. No ano passado, o empresário do petróleo Mikhail Khodorkovsky, o homem mais rico da Rússia, foi preso por fraude e evasão fiscal. A prisão foi uma represália política a Khodorkovsky, que financiou a oposição a Putin. Em 2000, o magnata Boris Berezovsky já havia sido obrigado a fugir para a Inglaterra depois de ter sua prisão decretada sob a acusação de crimes fiscais. Com o controle que possuía sobre os principais meios de comunicação da Rússia, ele ameaçava o poder de Putin. Outros dois oligarcas russos vivem no exílio pelo mesmo motivo. Diferentemente deles, Abramovich adotou a tática sensata de não contrariar o todo-poderoso presidente russo. Mas ele sabe que um dia o vento pode deixar de soprar a seu favor. Por isso, está tratando de colocar a salvo seu patrimônio investindo no exterior.

AFP
Beckham com a camisa do Real Madrid: 30 milhões de dólares por ano


No ano passado, Abramovich vendeu parte de suas empresas na Rússia e transferiu o dinheiro para a Inglaterra. A jornalistas ingleses, ele admitiu que se preocupa com as incertezas políticas na terra natal. "O problema é que nós não vivemos em um país livre. Aqui não se permite às pessoas gastar seu dinheiro do jeito que elas querem", disse Abramovich. O magnata encontrou na Inglaterra um bom país para usufruir sua fortuna. Comprou um Boeing para uso particular, um iate de 128 milhões de dólares, um apartamento no bairro mais luxuoso de Londres e uma propriedade no campo com um haras de 100 cavalos, onde passa os momentos de descanso com a esposa, Irina, e os cinco filhos. Inspirados em seu exemplo, outros ricaços russos estão se mudando para Londres. No ano passado, de cada quinze imóveis de mais de 700.000 dólares vendidos na capital inglesa, um teve como comprador um cidadão russo.

Abramovich tem não só dinheiro, mas também tempo de sobra. Além de assistir pessoalmente à grande maioria das partidas do Chelsea e de cuidar de seu enorme patrimônio, exerce o cargo de governador da depauperada província Chukotka, nos confins orientais da Sibéria. Lá vivem apenas 75.000 pessoas, na maioria criadores de rena ou caçadores de morsa. Foi eleito com 92% dos votos. O oligarca tirou 200 milhões de dólares do próprio bolso para construir escolas e centros culturais para a população e conseguiu facilidades fiscais para as empresas que se instalassem ali. O consórcio petrolífero do qual é acionista, o Sibneft, é um dos favorecidos pelas isenções de impostos. Foi com malandragens como essa que Abramovich enriqueceu.

Filho de ucranianos, ficou órfão aos 4 anos e foi criado por um tio. Começou a carreira aos 21 com uma empresa que produzia bolas e patinhos de plástico. Em seguida, passou a negociar com derivados de petróleo na recém-aberta bolsa de valores russa. Nessa época, foi interrogado sobre o roubo de 55 vagões de trem repletos de petróleo. Os investigadores não conseguiram estabelecer uma ligação dele com o crime. Em 1995, com a ajuda do oligarca Berezovsky, ficou amigo do presidente Boris Ieltsin e fez parte do grupo de empresários que comprou a preço de banana as principais empresas estatais da ex-União Soviética. A maior parte da população russa odeia seus oligarcas justamente pela maneira como enriqueceram. Por isso, Abramovich está preparando seu refúgio no Ocidente, caso a caça aos super-ricos se intensifique. "Ele é o único bilionário na Rússia que vendeu mais propriedades do que comprou, nos últimos tempos", diz o economista russo Yakov Pappe, especialista em oligarquia pós-soviética. Enquanto estiver usando seu dinheiro para investir no futebol, os torcedores do Chelsea estarão felizes.

 

No ranking dos clubes de futebol mais valiosos do mundo, preparado pela revista americana Forbes, só dá Europa. A lista foi elaborada com base no patrimônio do clube somado a sua capacidade de gerar renda. Não leva em conta as dívidas existentes. As ligas e os clubes europeus faturam não só com a venda de jogadores e de ingressos, mas principalmente com a venda dos direitos para transmissão de jogos pela televisão e com o licenciamento de produtos, a fonte de renda que mais cresce. Com torcedores até na China, times como o inglês Manchester United – o número 1 entre os clubes milionários – ganham para colocar sua marca em garrafas de uísque, cuecas, motocicletas, perfumes e centenas de outros produtos. O espanhol Real Madrid já vendeu mais de 1 milhão de camisas com o nome de David Beckham, o meia inglês contratado no ano passado. Beckham, que fatura 30 milhões de dólares ao ano em salários e patrocínios, é o jogador mais bem pago da atualidade. "Desde que o futebol se transformou em indústria do entretenimento, o desafio dos times passou a ser conseguir um equilíbrio entre o bom desempenho financeiro e o sucesso dentro de campo", disse a VEJA o americano Franklin Foer, autor do livro Como o Futebol Explica o Mundo: uma Improvável Teoria da Globalização, que será lançado em julho nos Estados Unidos.

Os clubes brasileiros ainda não conseguiram transformar o torcedor em consumidor, por isso não aparecem na lista dos mais valiosos. Existe no Brasil a crença de que futebol é um bem público. O torcedor resiste em pagar mais pelos ingressos ou pelos produtos oficiais. O futebol nacional sofre com a má gestão dos clubes e gasta mais do que arrecada. Esse problema se repete mesmo nos times mais ricos do mundo. Na Itália, os gastos com jogadores ultrapassam em 25% o total arrecadado em uma temporada. Resultado: o futebol italiano, que movimenta por ano o equivalente a 3,5 bilhões de reais, tem uma dívida total de 7 bilhões de reais. O Roma, 14º da lista dos mais valiosos da Forbes, por exemplo, está afundado numa dívida de 300 milhões de dólares.

 
 
 
 
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