Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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Ciência
Este rato não precisou
de um pai para nascer

Cientistas japoneses e coreanos
criam o primeiro mamífero gerado
por duas mães


Paula Neiva


Kaguya: os casais de lésbicas já podem sonhar

Na semana passada, a ciência tratou de realimentar um sonho das feministas mais radicais. Pesquisadores japoneses e coreanos apresentaram Kaguya, uma fêmea de camundongo, filha de duas mães e nenhum pai. A experiência, feita na Universidade de Agricultura de Tóquio, está relatada na última edição da revista científica Nature. Kaguya é o primeiro mamífero a ser gerado pelo processo de partenogênese – por meio dele, é possível que um ser vivo nasça a partir de um óvulo, sem que haja fecundação. O nome dado ao bichinho é uma referência a uma personagem da lenda japonesa. A Kaguya da ficção é uma menina que, encontrada num tronco de bambu, é considerada filha da Lua. A partenogênese existe na natureza: abelhas e formigas, por exemplo, podem procriar por esse método solitário. Acreditava-se, no entanto, que entre mamíferos isso fosse impossível de ocorrer. Alguns cientistas já consideram que o nascimento de Kaguya é, depois da clonagem da ovelha Dolly, o fato mais revolucionário da biologia reprodutiva.

A partenogênese é possível porque, originalmente, todos os óvulos, não importa a espécie animal, possuem dois conjuntos de cromossomos. Se o óvulo é devidamente estimulado, essas estruturas se fundem, simulando uma fecundação. Nos mamíferos, porém, existem mecanismos que ativam apenas determinados genes nos óvulos. Dessa forma, a fecundação só acontece na presença de material genético masculino. Para burlar essas barreiras naturais, os cientistas japoneses e coreanos selecionaram óvulos de fêmeas mutantes, que simulavam o perfil genético de um espermatozóide. Neles, não existia o gene H19, associado ao desenvolvimento fetal e caracteristicamente feminino. Ao mesmo tempo, possuíam um outro gene, o IGF-2, ativo – o que normalmente só acontece nas células sexuais masculinas. Os cientistas, então, fundiram os núcleos celulares dos óvulos mutantes e núcleos de óvulos absolutamente normais. Dessa junção, foram criados novos óvulos. Após serem estimulados quimicamente, os óvulos originaram centenas de embriões. Desses, 371 foram implantados em fêmeas. Duas gestações chegaram ao final, mas apenas Kaguya atingiu a idade adulta, o que equivale a uma taxa de sucesso menor do que 1%.

O nascimento de Kaguya permite que se pense na possibilidade de que casais de lésbicas venham a ter filhos sem pais e com características das duas mães. "Acredito que esse dia ainda esteja muito longe", diz a geneticista Mayana Zatz, professora da Universidade de São Paulo. No curto prazo, a experiência de japoneses e coreanos pode trazer benefícios ao campo da engenharia genética. "Esse estudo deve fornecer informações preciosas para a criação de exames e tratamentos de doenças causadas por falhas genéticas durante a concepção", acrescenta Mayana.

 
 
 
 
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