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Ciência
Este
rato não precisou
de um pai para nascer
Cientistas
japoneses e coreanos
criam o primeiro mamífero gerado
por duas mães

Paula
Neiva
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| Kaguya:
os casais de lésbicas já podem sonhar
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Na
semana passada, a ciência tratou de realimentar um sonho das
feministas mais radicais. Pesquisadores japoneses e coreanos apresentaram
Kaguya, uma fêmea de camundongo, filha de duas mães
e nenhum pai. A experiência, feita na Universidade de Agricultura
de Tóquio, está relatada na última edição
da revista científica Nature. Kaguya é o primeiro
mamífero a ser gerado pelo processo de partenogênese
por meio dele, é possível que um ser vivo nasça
a partir de um óvulo, sem que haja fecundação.
O nome dado ao bichinho é uma referência a uma personagem
da lenda japonesa. A Kaguya da ficção é uma
menina que, encontrada num tronco de bambu, é considerada
filha da Lua. A partenogênese existe na natureza: abelhas
e formigas, por exemplo, podem procriar por esse método solitário.
Acreditava-se, no entanto, que entre mamíferos isso fosse
impossível de ocorrer. Alguns cientistas já consideram
que o nascimento de Kaguya é, depois da clonagem da ovelha
Dolly, o fato mais revolucionário da biologia reprodutiva.
A
partenogênese é possível porque, originalmente,
todos os óvulos, não importa a espécie animal,
possuem dois conjuntos de cromossomos. Se o óvulo é
devidamente estimulado, essas estruturas se fundem, simulando uma
fecundação. Nos mamíferos, porém, existem
mecanismos que ativam apenas determinados genes nos óvulos.
Dessa forma, a fecundação só acontece na presença
de material genético masculino. Para burlar essas barreiras
naturais, os cientistas japoneses e coreanos selecionaram óvulos
de fêmeas mutantes, que simulavam o perfil genético
de um espermatozóide. Neles, não existia o gene H19,
associado ao desenvolvimento fetal e caracteristicamente feminino.
Ao mesmo tempo, possuíam um outro gene, o IGF-2, ativo
o que normalmente só acontece nas células sexuais
masculinas. Os cientistas, então, fundiram os núcleos
celulares dos óvulos mutantes e núcleos de óvulos
absolutamente normais. Dessa junção, foram criados
novos óvulos. Após serem estimulados quimicamente,
os óvulos originaram centenas de embriões. Desses,
371 foram implantados em fêmeas. Duas gestações
chegaram ao final, mas apenas Kaguya atingiu a idade adulta, o que
equivale a uma taxa de sucesso menor do que 1%.
O
nascimento de Kaguya permite que se pense na possibilidade de que
casais de lésbicas venham a ter filhos sem pais e com características
das duas mães. "Acredito que esse dia ainda esteja muito
longe", diz a geneticista Mayana Zatz, professora da Universidade
de São Paulo. No curto prazo, a experiência de japoneses
e coreanos pode trazer benefícios ao campo da engenharia
genética. "Esse estudo deve fornecer informações
preciosas para a criação de exames e tratamentos de
doenças causadas por falhas genéticas durante a concepção",
acrescenta Mayana.
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