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Conjuntura
O "El Niño" das
finanças
Como
o famoso fenômeno
climático,
Greenspan regula a temperatura
da
economia mundial

Carlos
Rydlewski
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AFP

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| Greenspan,
presidente do banco central americano: efeito direto sobre economias
vulneráveis |
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Os depoimentos de Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve
(Fed), o banco central americano, ao Congresso atraem a atenção
de autoridades da área econômica de todo o mundo. Os
Estados Unidos são a grande locomotiva global. Sozinhos,
respondem por um terço da economia mundial. Como compram
cerca de 20% do total das exportações, afetam as contas
da maioria dos países. Além disso, Greenspan construiu
uma imagem de maestro quase infalível da economia depois
de calibrar com precisão cirúrgica as ações
do Fed durante a década de 90, o período de maior
expansão da história dos EUA. Na semana passada, o
oráculo do Fed disse aos congressistas americanos que por
ora as pressões inflacionárias não crescem
de forma disseminada nos Estados Unidos, mas deixou claro, nas entrelinhas
como sempre, que, se há um caminho para os juros americanos
nos próximos meses, é para cima. Foi o suficiente
para que o índice Dow Jones da Bolsa de Nova York caísse
1,18%. Na Nasdaq, a bolsa que lida com ações de empresas
de alta tecnologia, o tombo foi de 2,07%. No Brasil, a Bolsa de
São Paulo teve queda, e o risco-país e o dólar
subiram.
A
alta dos juros americanos é motivo de preocupação
para o Brasil porque tem o poder de diminuir os investimentos que
cruzam a linha do Equador em busca de oportunidades. No ano passado,
com os juros americanos próximos de zero, os investidores
se sentiram encorajados a correr mais riscos e a aplicar com mais
ímpeto em países emergentes onde as taxas de retorno
são mais elevadas. O fluxo total de capitais cresceu 20%
e chegou a 228 bilhões de dólares, o maior valor desde
1999. Quando o aumento dos juros nos EUA de fato acontecer, seja
antes ou depois das eleições presidenciais de novembro,
a tendência é que o fluxo de capitais diminua.
Para
o Fundo Monetário Internacional (FMI), a América Latina
é uma das regiões mais expostas aos riscos de uma
alta de juros por causa da necessidade de financiamento no médio
prazo. Entre os latino-americanos, a posição do Brasil
é considerada pelo mercado uma das mais sensíveis.
Nas três medidas mais usadas para aferir o grau de vulnerabilidade,
o Brasil faz feio. No quesito relação dívida/PIB,
os 57% do Brasil são mais que o dobro do porcentual do México.
A economia brasileira precisaria acumular três anos de exportações
para pagar a dívida externa. O Chile faria isso em menos
de dois anos. Somente com a ajuda dos empréstimos do FMI,
as reservas internacionais cobrem um ano de importações.
Apesar
disso, não há motivo iminente para alarme. O Brasil
se preparou para enfrentar mudanças no ambiente externo.
"O aumento dos juros só vai nos atrapalhar se não
tivermos uma boa história para contar. Se o Brasil mostrar
ao mundo o compromisso com a austeridade fiscal, mantiver a redução
da relação dívida/PIB e sustentar os superávits,
os efeitos tendem a ser menores", diz Octavio de Barros, economista-chefe
do Bradesco. A economia brasileira conta com dois reforços
no dique contra os choques externos. A proporção da
dívida externa e da interna atrelada ao dólar caiu
de 56% do total em 2002 para 35% neste ano. Isso quer dizer que
um eventual aumento da cotação do dólar causado
pela redução da entrada de capitais teria um impacto
menor no montante da dívida. A outra boa notícia é
que hoje o Brasil precisa de menos variação cambial
para se ajustar em comparação ao começo da
década porque há mais fartura de dólares. O
balanço de pagamentos em conta corrente o resultado
das exportações de bens e serviços menos o
que se paga pelas importações e os juros da dívida
externa registrou um superávit de cerca de 4 bilhões
de dólares no ano passado.
Esse
resultado foi embalado pelo aumento das exportações,
que cresceram 21%. O desempenho das vendas externas nos últimos
anos tem mais a ver com o salto das quantidades embarcadas do que
com o aumento dos preços dos produtos vendidos pelo Brasil.
É mais suor do que sorte. No ano passado, o saldo da balança
comercial exportações menos importações
foi de 24,8 bilhões de dólares. Mesmo que os
preços das commodities não tivessem subido, o Brasil
teria apresentado um saldo positivo de cerca de 21 bilhões.
Apesar do enorme esforço, o Brasil ainda está entre
os países que menos exportam e importam, um sinal evidente
de fraqueza na economia globalizada. A má vontade do Itamaraty
nas reuniões para a criação da Área
de Livre Comércio das Américas (Alca) com certeza
não ajudou o Brasil a ter mais acesso ao sonhado mercado
americano. Pelo contrário, foi uma das causas do resfriamento
das negociações. Mesmo que o acordo seja um dia assinado,
o formato light já acertado limita o poder de alcance das
exportações brasileiras.
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