Edição 1851 . 28 de abril de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Conjuntura
O "El Niño" das finanças

Como o famoso fenômeno climático,
Greenspan regula a temperatura
da economia mundial


Carlos Rydlewski

AFP

Greenspan, presidente do banco central americano: efeito direto sobre economias vulneráveis
Notícias diárias sobre economia


Os depoimentos de Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, ao Congresso atraem a atenção de autoridades da área econômica de todo o mundo. Os Estados Unidos são a grande locomotiva global. Sozinhos, respondem por um terço da economia mundial. Como compram cerca de 20% do total das exportações, afetam as contas da maioria dos países. Além disso, Greenspan construiu uma imagem de maestro quase infalível da economia depois de calibrar com precisão cirúrgica as ações do Fed durante a década de 90, o período de maior expansão da história dos EUA. Na semana passada, o oráculo do Fed disse aos congressistas americanos que por ora as pressões inflacionárias não crescem de forma disseminada nos Estados Unidos, mas deixou claro, nas entrelinhas como sempre, que, se há um caminho para os juros americanos nos próximos meses, é para cima. Foi o suficiente para que o índice Dow Jones da Bolsa de Nova York caísse 1,18%. Na Nasdaq, a bolsa que lida com ações de empresas de alta tecnologia, o tombo foi de 2,07%. No Brasil, a Bolsa de São Paulo teve queda, e o risco-país e o dólar subiram.

A alta dos juros americanos é motivo de preocupação para o Brasil porque tem o poder de diminuir os investimentos que cruzam a linha do Equador em busca de oportunidades. No ano passado, com os juros americanos próximos de zero, os investidores se sentiram encorajados a correr mais riscos e a aplicar com mais ímpeto em países emergentes onde as taxas de retorno são mais elevadas. O fluxo total de capitais cresceu 20% e chegou a 228 bilhões de dólares, o maior valor desde 1999. Quando o aumento dos juros nos EUA de fato acontecer, seja antes ou depois das eleições presidenciais de novembro, a tendência é que o fluxo de capitais diminua.

Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), a América Latina é uma das regiões mais expostas aos riscos de uma alta de juros por causa da necessidade de financiamento no médio prazo. Entre os latino-americanos, a posição do Brasil é considerada pelo mercado uma das mais sensíveis. Nas três medidas mais usadas para aferir o grau de vulnerabilidade, o Brasil faz feio. No quesito relação dívida/PIB, os 57% do Brasil são mais que o dobro do porcentual do México. A economia brasileira precisaria acumular três anos de exportações para pagar a dívida externa. O Chile faria isso em menos de dois anos. Somente com a ajuda dos empréstimos do FMI, as reservas internacionais cobrem um ano de importações.

Apesar disso, não há motivo iminente para alarme. O Brasil se preparou para enfrentar mudanças no ambiente externo. "O aumento dos juros só vai nos atrapalhar se não tivermos uma boa história para contar. Se o Brasil mostrar ao mundo o compromisso com a austeridade fiscal, mantiver a redução da relação dívida/PIB e sustentar os superávits, os efeitos tendem a ser menores", diz Octavio de Barros, economista-chefe do Bradesco. A economia brasileira conta com dois reforços no dique contra os choques externos. A proporção da dívida externa e da interna atrelada ao dólar caiu de 56% do total em 2002 para 35% neste ano. Isso quer dizer que um eventual aumento da cotação do dólar causado pela redução da entrada de capitais teria um impacto menor no montante da dívida. A outra boa notícia é que hoje o Brasil precisa de menos variação cambial para se ajustar em comparação ao começo da década porque há mais fartura de dólares. O balanço de pagamentos em conta corrente – o resultado das exportações de bens e serviços menos o que se paga pelas importações e os juros da dívida externa – registrou um superávit de cerca de 4 bilhões de dólares no ano passado.

Esse resultado foi embalado pelo aumento das exportações, que cresceram 21%. O desempenho das vendas externas nos últimos anos tem mais a ver com o salto das quantidades embarcadas do que com o aumento dos preços dos produtos vendidos pelo Brasil. É mais suor do que sorte. No ano passado, o saldo da balança comercial – exportações menos importações – foi de 24,8 bilhões de dólares. Mesmo que os preços das commodities não tivessem subido, o Brasil teria apresentado um saldo positivo de cerca de 21 bilhões. Apesar do enorme esforço, o Brasil ainda está entre os países que menos exportam e importam, um sinal evidente de fraqueza na economia globalizada. A má vontade do Itamaraty nas reuniões para a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) com certeza não ajudou o Brasil a ter mais acesso ao sonhado mercado americano. Pelo contrário, foi uma das causas do resfriamento das negociações. Mesmo que o acordo seja um dia assinado, o formato light já acertado limita o poder de alcance das exportações brasileiras.

 
 
 
 
topo voltar