Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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Sociedade
Quanto custa um escândalo

Celebridades em apuros precisam
assumir o erro – e contar com o
perdão; ou a conta fica cara


Roberta Salomone

Bob P./Robinson Estrasulas/Zero Hora/AE

MARCELLO ANTONY
Flagrante de posse de maconha e noite na cadeia em Porto Alegre

A enrascada em que Marcello Antony se meteu na madrugada do último dia 17 não é exatamente uma novidade no mundo dos famosos. Flagrado comprando maconha, o ator de 39 anos passou uma noite na cadeia, em Porto Alegre. Antony desceu à calçada de seu hotel com um cheque de valor suficiente para pagar por 200 gramas, virou-se para trocá-lo quando soube que o pacote continha metade da quantidade presumida e, nesse momento, foi preso pelos policiais que havia horas grampeavam o traficante. O Ministério Público agora vai decidir se denuncia o ator por posse ou por tráfico. Um dos mais belos rostos masculinos da televisão, Antony vivia uma fase de elogios no campo profissional e de felicidade na vida doméstica com a chegada de Francisco, adotado no final do ano passado por ele e pela mulher, a atriz Mônica Torres. Abalado, tentando esconder-se atrás do boné na pose clássica de tantos detidos, ele fechou-se em copas. Na mesma madrugada, em Londres, onde declaradamente "passeava com o cachorro", o ator americano Kevin Spacey, com o rosto machucado, primeiro deu queixa de roubo e agressão numa delegacia, depois recuou com uma história mal contada – disse que caiu no golpe de emprestar o celular a um desconhecido, o sujeito fugiu, ele foi atrás, tropeçou e, pimba, rachou a cabeça. Eternamente empenhado em exercer o direito de não assumir a homossexualidade, Spacey, que atualmente dirige o teatro londrino Old Vic, ainda reclamou: "Levar o cachorro para passear no parque é uma coisa perfeitamente normal, mas agora ficam perguntando 'o que ele estava fazendo lá às 4 da manhã'". A semana das celebridades em apuros com a lei se completou com mais uma etapa da novela Michael Jackson: cinco meses depois de ser preso e fichado numa delegacia da Califórnia, ele foi indiciado por abuso sexual de menor. A acusação contra o cantor – induzir um menino de 12 anos que sofre de câncer terminal a praticar modalidades sexuais – é incomparavelmente mais grave do que as outras encrencas. Em comum, no entanto, os três casos têm o fato de que profissionais experientes, com anos de vida pública, bons assessores e ótimos advogados, se enrolam todos quando pegos em situações complicadas – e, além das contas com a Justiça, podem terminar pagando um preço em prestígio e rendimentos.


AP
KEVIN SPACEY
Incidente de madrugada num parque de Londres


O tamanho do estrago depende muito da atitude imediata do artista. Ao optar pelo silêncio e depois admitir em depoimento à polícia ser usuário de maconha, Antony contrariou um dos mais consagrados mandamentos nessa situação. "Fugir do problema é um erro grave. Uma pessoa pública deve se explicar sobre seus atos", afirma o consultor de imagem Mário Rosa, autor dos livros A Síndrome de Aquiles – Como Lidar com as Crises de Imagem e A Era do Escândalo. Especialista no tema, o consultor americano James Lukaszewski, da Universidade de Nova York, desenvolveu um roteiro de comportamento em casos do gênero. Em primeiro lugar, é vital assumir o erro e dispor-se a reparar algum prejuízo. Explicar-se e pedir desculpas também são atitudes importantes. Ao contrário dos políticos, artistas têm a seu favor uma enorme predisposição do público para desculpá-los. A atriz Vera Fischer teve um casamento conturbadíssimo com Felipe Camargo, brigou publicamente com uma babá, passou por várias internações para tratar de dependência química, perdeu a guarda do filho Gabriel e foi afastada das gravações da novela Pátria Minha por causa dos atrasos. Em cada situação difícil, o público, num primeiro momento, torceu o nariz para tanta encrenca; num segundo, admirou-se de vê-la ressurgir, eternamente bela, e, no seu caso, sem nunca, jamais pedir desculpas. Assumir a escorregada, com uma resignada e britânica dose de humor autodepreciativo, também ajudou a salvar da eterna execração pública o ator Hugh Grant, preso em flagrante em 1995, na Califórnia, por contratar uma prostituta para fazer sexo oral. Na Inglaterra, o episódio foi tratado na galhofa, mais como uma excentricidade da legislação americana do que como prova de perversão do ator. Famosos que se envolvem com bebidas, drogas e sexo não convencional não chegam a surpreender o público. Em determinadas situações socioculturais, podem até reforçar a aura de libertários, como aconteceu com os Beatles e o hoje ministro da Cultura Gilberto Gil, presos por posse de maconha numa época em que isso era visto como desafio ao establishment.

Em quaisquer circunstâncias, silêncio e mentira só prejudicam os envolvidos. "O fã não acredita de imediato na história que ouve, e fica esperando uma satisfação", diz Rosa. "Um tropeço nessa hora pode provocar um estrago irreversível." O cantor Belo, nome artístico de Marcelo Pires, 29 anos, há dois anos teve uma conversa comprometedora com um traficante gravada pela polícia. Apesar do flagrante, tentou negar a história e ficou foragido por mais de um mês. Sua carreira ruiu. Belo está proibido de sair do Rio de Janeiro, foi dispensado pela gravadora e não faz mais de cinco apresentações por mês – no auge do sucesso, eram vinte. Fora do Brasil, Robert Downey Jr., que chegou a ser indicado ao Oscar de melhor ator pela atuação no filme Chaplin, perdeu inúmeros trabalhos depois das três prisões consecutivas por uso e porte de drogas. Winona Ryder, flagrada furtando roupas numa loja de departamentos, tentou negar, alegou perseguição e, mesmo tendo ajustado as contas com a Justiça, não conseguiu ainda outro papel importante. Nada, porém, se compara à alegação apresentada por Dominique Ambiel, assessor do primeiro-ministro francês, Jean-Pierre Raffarin. Preso na segunda-feira passada no Bois de Boulogne, em Paris, com uma prostituta romena de 17 anos, disse que a garota tinha se enfiado à força no carro dele, parado num sinal – e ainda insultou os policiais. Detalhe: Ambiel, que renunciou três dias depois, era assessor de comunicação.

 

Escorregou, pagou

Com maior ou menor intensidade, estes famosos
sentiram na pele as agruras de cair em desgraça



Fotos AP
AP
ROBERT DOWNEY
Cumpriu pena e foi internado por causa de drogas. Está no ostracismo
HUGH GRANT
Flagrado na rua com prostituta, desculpou-se e se recuperou


AP
WINONA RYDER
Roubou uma loja, foi julgada e condenada. Desde então, sumiu


Reprodução Rede Globo
J. Ferreira da Silva
BELO
Grampeado em conversa com traficante, negou. A carreira ruiu
GILBERTO GIL
Em 1976, foi preso por porte de maconha. Recebeu apoio

 
 
 
 
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