|
|
Justiça
O
esquema dos sem-terra
Os
camaradas vendem lotes dados
pelo governo. E o Incra finge que
toma providências

Felipe
Patury
Jonne Roriz/AE
 |
| Lote
às margens do Rio Paranapanema: por que cultivar, se
a área é nobre, tem vista e vale um dinheirinho?
|
Os
líderes iluminados do lumpesinato que compõe a turba
dos sem-terra usam um expediente ilegal, a invasão, para
pressionar o governo a fazer a reforma agrária. Na semana
passada, descobriu-se que boa parte dos camaradas conduzidos pelos
guias geniais continua na ilegalidade mesmo depois de receber lotes.
Eles vendem ou alugam as glebas que se comprometeram a cultivar,
o que é crime. Xico Graziano, ex-presidente do Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra),
calcula que 40% dos lotes distribuídos foram negociados ilegalmente.
O governo reconhece que as fraudes existem, mas até hoje
não fez nenhum levantamento mais detalhado do problema. Só
toma conhecimento das fraudes quando alguém denuncia. O atual
presidente do Incra, Rolf Hackbart, não sabe quantos casos
foram detectados pelo governo nem quantos processos foram abertos
para punir os fraudadores. "Não há esse controle",
diz. É de perguntar o que Hackbart faz durante o expediente,
além de ensinar seus subordinados a pronunciar o seu nome.
Ana Araujo
 |
| Maurício
Corrêa, presidente do STF: "Liberalidade coloca em
risco o estado de direito" |
Os dados mais concretos sobre as fraudes constam de uma pesquisa
feita em 2002, por professores da Universidade de São Paulo.
Segundo o estudo, 11% dos lotes foram vendidos. Outros 13% estão
em outro tipo de condição irregular ou foram
abandonados ou unidos a lotes vizinhos, o que também é
proibido. Somadas as porcentagens, chega-se a um total de 126.000
lotes em situação ilegal. O Incra afirma que só
tem informações sobre 6.000
casos, nos quais as terras foram recuperadas pelo governo. Hackbart
promete apresentar dados atualizados em um mês. O Incra não
encomendará uma nova pesquisa nem investigará os assentamentos.
Hackbart pretende contabilizar os dados com uma campanha publicitária
com cartazes e inserções no rádio, informando
que vender lotes da reforma agrária é crime e conclamando
os assentados a denunciar os infratores. Um expediente semelhante
poderia ser usado na favela da Rocinha espalhar painéis
dizendo que o tráfico de drogas é atividade ilegal
e solicitando aos vizinhos dos criminosos que os dedurem. Como é
que ninguém pensou nisso antes?
O
fato é que os sem-terra se consideram acima da lei
tanto para invadir propriedades como para montar esquemas de venda
de lotes. E a administração Lula não faz nada
para enquadrá-los. O presidente do Supremo Tribunal Federal,
Maurício Corrêa, afirma que o governo é "leniente"
com os sem-terra. "Primeiro, não tomou providências
para evitar o 'abril vermelho' que o Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra (MST) anunciou. Agora, não controla as fraudes
na distribuição de terras", diz ele. Para Corrêa,
"a liberalidade do governo com os sem-terra coloca em risco o estado
de direito". Coloca também em risco, acrescente-se, a chance
de o Brasil vir a ser um país desenvolvido. Não existe
nação que tenha alcançado um alto grau de civilização
sem o respeito absoluto à propriedade privada.
|