Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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Energia
Desleixo nuclear

Fábrica de urânio em Resende vazou,
atingiu quatro operadores, mas ficou
tudo na surdina


Solano Nascimento

 
Oscar Cabral

Unidade de Resende: nem se sabe ao certo qual a substância que vazou

No início de abril, no auge da polêmica sobre inspeções nucleares na fábrica de urânio em Resende, no Rio de Janeiro, o físico Odair Dias Gonçalves, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), deu uma entrevista coletiva. Quando se quis saber sobre um vazamento que teria ocorrido em Resende, ele tranqüilizou a platéia. Disse que houve um escape de pó marrom de urânio, mas nenhum funcionário fora contaminado com radioatividade. Na semana passada, descobriu-se que o físico foi induzido a dar uma entrevista equivocada. Até hoje, passadas cinco semanas do vazamento, não se sabe com exatidão que substância escapou dos equipamentos – se o pó marrom de urânio ou o pó amarelo, de um estágio anterior. Além disso, quatro funcionários de Resende foram, sim, contaminados, ainda que, felizmente, em grau mínimo. Seus níveis de radioatividade chegaram, no máximo, a 11 milisieverts, unidade que mede a contaminação. A situação só começa a se complicar quando chega a 15 milisieverts.

O episódio mostra o grau de amadorismo e fragilidade com que o país trata um assunto tão delicado, que já provocou desastres horrendos em outros países. O vazamento, sabe-se lá de quê, ocorreu no dia 19 de março, só foi descoberto três dias depois e os funcionários foram submetidos aos exames laboratoriais apenas doze dias mais tarde, no Instituto de Radioproteção e Dosimetria, no Rio. "Não havia necessidade nem de fazer o exame", defende-se Samuel Fayad Filho, diretor de produção da unidade de Resende. Pode ser, mas sua opinião está longe de ser unânime. "A demora pode camuflar o resultado", diz Emico Okuno, pesquisadora do Departamento de Física Nuclear da Universidade de São Paulo.

 
Marizilda Cruppe
Dias Gonçalves, presidente da CNEN: induzido a um equívoco

Na quinta-feira passada, ao ser informado das novidades, Dias Gonçalves culpou os auxiliares pelo vazamento – não da radiação, mas da informação. "O fato é que não se sabem ainda a causa nem o local exato do vazamento", admite ele. É um problema, pois a fábrica consertou a tubulação por onde passa o pó marrom de urânio, mas, se o vazamento foi de pó amarelo, então a solução ainda não foi encontrada. Uma das razões para tanta confusão é que os fiscais da CNEN não têm poder de coerção nem podem mandar parar uma instalação mesmo em caso de vazamento. Limitam-se a fazer relatórios e torcer para que a direção da CNEN os respeite – a mesma CNEN que tem sólidos vínculos com a unidade de Resende. Dias Gonçalves é presidente da CNEN e, ao mesmo tempo, presidente do conselho de administração da fábrica de Resende. "Isso torna a segurança nuclear vulnerável e pode levar a CNEN a uma postura de conivência com irregularidades", diz o físico Rogério Gomes, presidente da Associação dos Fiscais da CNEN.

 
 
 
 
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