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Energia
Desleixo
nuclear
Fábrica
de urânio em Resende vazou,
atingiu quatro operadores, mas ficou
tudo na surdina

Solano
Nascimento
Oscar Cabral
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Unidade
de Resende: nem se sabe ao certo qual a substância que
vazou
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No
início de abril, no auge da polêmica sobre inspeções
nucleares na fábrica de urânio em Resende, no Rio de
Janeiro, o físico Odair Dias Gonçalves, presidente
da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), deu uma entrevista
coletiva. Quando se quis saber sobre um vazamento que teria ocorrido
em Resende, ele tranqüilizou a platéia. Disse que houve
um escape de pó marrom de urânio, mas nenhum funcionário
fora contaminado com radioatividade. Na semana passada, descobriu-se
que o físico foi induzido a dar uma entrevista equivocada.
Até hoje, passadas cinco semanas do vazamento, não
se sabe com exatidão que substância escapou dos equipamentos
– se o pó marrom de urânio ou o pó amarelo,
de um estágio anterior. Além disso, quatro funcionários
de Resende foram, sim, contaminados, ainda que, felizmente, em grau
mínimo. Seus níveis de radioatividade chegaram, no
máximo, a 11 milisieverts, unidade que mede a contaminação.
A situação só começa a se complicar
quando chega a 15 milisieverts.
O
episódio mostra o grau de amadorismo e fragilidade com que
o país trata um assunto tão delicado, que já
provocou desastres horrendos em outros países. O vazamento,
sabe-se lá de quê, ocorreu no dia 19 de março,
só foi descoberto três dias depois e os funcionários
foram submetidos aos exames laboratoriais apenas doze dias mais
tarde, no Instituto de Radioproteção e Dosimetria,
no Rio. "Não havia necessidade nem de fazer o exame", defende-se
Samuel Fayad Filho, diretor de produção da unidade
de Resende. Pode ser, mas sua opinião está longe de
ser unânime. "A demora pode camuflar o resultado", diz Emico
Okuno, pesquisadora do Departamento de Física Nuclear da
Universidade de São Paulo.
Marizilda Cruppe
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| Dias
Gonçalves, presidente da CNEN: induzido a um equívoco |
Na
quinta-feira passada, ao ser informado das novidades, Dias Gonçalves
culpou os auxiliares pelo vazamento – não da radiação,
mas da informação. "O fato é que não
se sabem ainda a causa nem o local exato do vazamento", admite ele.
É um problema, pois a fábrica consertou a tubulação
por onde passa o pó marrom de urânio, mas, se o vazamento
foi de pó amarelo, então a solução ainda
não foi encontrada. Uma das razões para tanta confusão
é que os fiscais da CNEN não têm poder de coerção
nem podem mandar parar uma instalação mesmo em caso
de vazamento. Limitam-se a fazer relatórios e torcer para
que a direção da CNEN os respeite – a mesma CNEN que
tem sólidos vínculos com a unidade de Resende. Dias
Gonçalves é presidente da CNEN e, ao mesmo tempo,
presidente do conselho de administração da fábrica
de Resende. "Isso torna a segurança nuclear vulnerável
e pode levar a CNEN a uma postura de conivência com irregularidades",
diz o físico Rogério Gomes, presidente da Associação
dos Fiscais da CNEN.
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