Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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Israel
A lei da mordaça

Israelense que revelou os segredos
nucleares sai da prisão, mas não
ganha liberdade

 
AP
Vanunu, solto após dezoito anos: sem contato com estrangeiros

O israelense Mordechai Vanunu saiu da cadeia em Israel na semana passada depois de cumprir pena de dezoito anos, doze dos quais numa solitária, por traição. Não se pode dizer, contudo, que seja um homem livre. A Justiça israelense lhe impôs uma série inusitada de limitações: Vanunu não poderá deixar o país pelo período de um ano nem se aproximar de embaixadas, portos, aeroportos e postos de fronteira. Ele também foi proibido de manter contato com estrangeiros nos próximos seis meses – pessoalmente, por telefone, carta, fax ou e-mail. Tudo isso para que não fuja do país ou conte o que sabe a quem não deve. Técnico de baixo escalão na usina nuclear de Dimona, no Deserto do Neguev, Vanunu entregou ao jornal inglês The Sunday Times detalhes sobre o arsenal nuclear secreto de Israel, em 1986. Pouco depois, agentes secretos israelenses o seqüestraram em Roma e o levaram para ser julgado em Israel.

 
AFP
Usina de Dimona, no Deserto de Neguev: estoque secreto de bombas

Por que ele continua a ser perseguido depois de cumprida a sentença? Ele próprio garante que não tem mais nada a revelar, mesmo porque faz vinte anos que não entra em Dimona. Apesar de não ser assumido oficialmente, não é segredo que Israel tem bombas atômicas. Isso não é problema, uma vez que o país não é signatário do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares e, portanto, não está sujeito às inspeções internacionais. Além do mais, visto que possui inimigos ansiosos por riscá-lo do mapa, é compreensível que o Estado judeu disponha de um arsenal nuclear para dissuadi-los. Muitos israelenses acham que o traidor até fez um favor ao país. Tornou pública a existência do arsenal sem que fosse necessário afrontar o mundo com a admissão oficial dessa realidade. Vanunu não quer mais ser judeu nem israelense. Ele se converteu ao cristianismo (e diz que por causa disso foi tratado de forma pior na cadeia) e planeja viver na Escandinávia. Com a perseguição injustificada do governo israelense, Vanunu está trocando a pecha de traidor pela aura de mártir pacifista.

 
 
 
 
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