Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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Estados Unidos
Bush decidiu sozinho

Presidente não consultou seus
ministros sobre ir à guerra,
diz um novo livro


Diogo Schelp

Perguntas e Respostas: eleições no EUA

Um dos mistérios a respeito da invasão do Iraque é por que, exatamente, o presidente George W. Bush decidiu ir à guerra. Ele estava obcecado por Saddam Hussein? Acreditava realmente no perigo das armas de destruição em massa que, no fim das contas, os iraquianos não tinham? Algumas questões ficam mais claras com a leitura do novo livro do jornalista americano Bob Woodward, Plan of Attack (Plano de Ataque), lançado na semana passada nos Estados Unidos. Um dos mais conceituados jornalistas dos Estados Unidos, ele revela os bastidores da Casa Branca nos dezesseis meses que antecederam a guerra. O que conta é que Bush mandou preparar os planos de invasão do Iraque pouco depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, mas só tomou a decisão final dois meses antes do início do ataque. Em nenhum momento, dizem as fontes do jornalista, o presidente pareceu se preocupar com o que poderia dar errado no Iraque depois da queda de Saddam Hussein.

A única pessoa a quem ele perguntou sobre se deveria ou não fazer a guerra foi a conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice. Ela disse sim. Bush não precisou ampliar as consultas, diz Woodward, pois já sabia o que pensavam outros membros do governo como o vice-presidente Dick Cheney, o maior defensor da guerra, ou o secretário de Estado, Colin Powell, que era contra. O presidente preferia decidir com seus botões, sem muita discussão, na maioria das vezes com base em informações sofríveis. Foi o caso do relato que George Tenet, diretor da CIA, fez a Bush dizendo que não havia dúvida sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque. Segundo Woodward, inicialmente Bush achou fracas as provas apresentadas por Tenet. Depois se convenceu. O suposto arsenal de Saddam, até hoje não encontrado, foi o principal argumento a favor da guerra. Já o secretário de Estado, Colin Powell, era ignorado sumariamente por Bush. O momento mais humilhante para Powell, relatado por Woodward, foi quando Bush lhe contou, em uma reunião de apenas doze minutos, que decidira invadir o Iraque quanto antes. Ou seja, o chefe da diplomacia americana foi o último a saber. Até o embaixador da Arábia Saudita, o príncipe Bandar bin Sultan, havia sido avisado dois dias antes.

 
Reuters
De volta para casa: cenas do transporte de soldados mortos foram divulgadas pela primeira vez

Woodward é um dos jornalistas de maior credibilidade nos Estados Unidos. Em 1972, fez com o repórter Carl Bernstein a série de reportagens para o jornal Washington Post que derrubou o presidente Richard Nixon, no caso conhecido como Watergate. Para escrever o livro Plano de Ataque, Woodward entrevistou todos os homens do presidente, desde o secretário de Defesa Donald Rumsfeld até o vice-presidente Cheney. O jornal Washington Post revelou, na semana passada, que o próprio Bush, que também concedeu entrevista a Woodward, insistiu para que os membros do seu gabinete colaborassem com o autor do livro. O fato é que as revelações não prejudicaram em nada sua imagem pública. Bush aparece no livro como um líder decidido, ainda que mais instintivo do que racional. Seu índice de aprovação até aumentou. "Há uma espécie de admiração por ele ter se comportado de maneira tão firme nas decisões da guerra", disse a VEJA o cientista político Paul Bracken, professor da Universidade Yale, nos Estados Unidos. É difícil dizer se isso vai continuar assim. Na semana passada, pela primeira vez, a imprensa americana divulgou imagens de dezenas de caixões com soldados mortos no Iraque sendo enfileirados dentro de aviões. Foram imagens como essas, de soldados mortos, que viraram a opinião pública contra a Guerra do Vietnã.

 
 
 
 
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