Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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Educação
Equações, futebol e forró

Um sergipano de 19 anos é o mais
jovem doutor em matemática do país


Jerônimo Teixeira


Oscar Cabral
Carlos Matheus: entediado, ele pensou em deixar a escola


O matemático francês Henri Poincaré (1854-1912) acreditava no talento congênito. "Matemáticos nascem; eles não são feitos", afirmou. O sergipano Carlos Matheus Silva Santos está aí para confirmar essa tese. Aos 19 anos, ele concluiu neste mês seu doutorado em uma área inaugurada pelo próprio Poincaré – o estudo dos sistemas dinâmicos, ramo da matemática cujas aplicações vão da previsão do tempo às cotações da bolsa de valores. Carlos Matheus é o mais jovem doutor já formado pelo Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), do Rio de Janeiro. O feito é tão mais notável porque o sistema educacional brasileiro não costuma ser ágil para identificar talentos precoces, tampouco facilita seu progresso acadêmico. "Ao contrário do que acontece nas universidades americanas, que têm mais flexibilidade para acolher casos excepcionais, no Brasil as regras são rígidas", diz Marcelo Viana, orientador de Carlos Matheus no Impa. Especialmente na matemática, a valorização dos jovens prodígios é essencial, pois as grandes "sacadas" costumam ocorrer cedo: elas demandam do cérebro um poder de processamento de informações que tende a se esgotar com a idade, como as ciências neurológicas começam a demonstrar. Não à toa, meninos prodígios como Gauss e Galois (veja quadro) são personagens centrais na história da disciplina.

O talento de Carlos Matheus quase foi desperdiçado. Filho de dois professores da rede pública de Aracaju, ele descobriu cedo o prazer dos números. A escola, no entanto, era uma experiência entediante. "Antes do meio do ano eu já sabia todo o conteúdo dos livros de matemática. Não me sentia desafiado", lembra o rapaz. Na 8ª série ele havia atingido o auge do desânimo e quase deixou a escola. Foi então que seus pais recorreram à universidade. O professor Valdenberg Araújo da Silva, então chefe do departamento de matemática da Universidade Federal do Sergipe (UFS), testou o menino e ficou espantado com suas habilidades lógicas. "Comecei a lhe ensinar matemática avançada", diz Valdenberg. Com 14 anos, Matheus mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou no Impa, onde fez mestrado e doutorado. Os pais fizeram sacrifícios para mantê-lo na cidade e se revezavam para visitá-lo. Apesar do título de doutor, Carlos Matheus ainda não concluiu os estudos de graduação. Como a lei brasileira prevê que o título de pós-graduação só vale quando concluído o grau anterior, o doutorado de Carlos Matheus terá validade apenas no ano que vem, quando ele receber seu diploma de matemática pela UFRJ. O rapaz planeja então seguir para um pós-doutorado em Paris, para o qual já está pleiteando uma bolsa. Carlos Matheus tem traços de personalidade que batem com o estereótipo dos prodígios acadêmicos: é tímido e bastante introspectivo. Mas não dispensa o futebol com os amigos. E arrasa no forró.

 

 
 
 
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