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Automóveis
A
favor do pedestre
União
Européia exige carros
que causem
ferimentos
menores em
atropelamentos

Marcos
Buarque de Gusmão
Fotos Mario de Bari/divulgação
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gação
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| Atropelamento
em laboratório: um boneco reproduz o peso e a resistência
do corpo humano |
A
40 quilômetros por hora, ocorrem lesões graves nas pernas, nos
quadris e na cabeça |
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Com
o veículo a 80 quilômetros por hora, a maioria dos atropelamentos
é fatal |
De
um lado, um homem adulto com peso médio de 70 quilos atravessa
a rua. De outro, se aproximando em velocidade, um carro de quase
2 toneladas. Dá para perceber que as conseqüências
desse encontro são trágicas, e o pedestre sempre leva
a pior. Se o veículo estiver a 80 quilômetros por hora,
há poucas chances de a pessoa sobreviver ao atropelamento.
O quadro é dramático porque tradicionalmente a indústria
automobilística se preocupou em proteger quem está
dentro e nunca quem está fora do carro. Cintos de segurança,
airbags e freios ABS são invenções recentes
que aos poucos se espalharam pelo mundo. Agora, aperta-se o cerco
aos fabricantes para que encontrem maneiras de tornar os veículos
menos agressivos para quem vai a pé. Na União Européia,
os países do bloco vão exigir que a partir do próximo
ano os carros já tenham mudanças para reduzir os ferimentos
causados em atropelamentos.
Basicamente,
significará mudanças na dianteira dos carros, como
pára-choques feitos de material flexível e capôs
que, em caso de choque frontal, se deformam como uma sanfona, o
que ajuda a reduzir o impacto no corpo humano. Para poder circular,
os novos modelos serão submetidos a testes de laboratório
e ganharão entre uma e quatro estrelas, dependendo do grau
de segurança que oferecerem ao pedestre. Os resultados serão
tornados públicos, o que é um incentivo para que os
fabricantes tomem providências reais. Nos últimos cinco
anos, a União Européia testou os carros de passeio
em condições que simulavam as circunstâncias
mais comuns de atropelamento uma pessoa atingida por um carro
a até 40 quilômetros por hora, que é a velocidade
média nas grandes cidades. A conclusão foi que, devido
ao modo como são feitos os carros, o atropelamento provoca
fraturas graves nas pernas, nos quadris e na cabeça. Uma
parte do dano é causada pelo choque da pessoa contra o chão.
Isso não tem jeito. O que dá para fazer é minimizar
o impacto do veículo com o pedestre.
Muitos
fabricantes já adotaram soluções relativamente
simples, mas eficientes. A Jaguar retirou do capô o felino,
símbolo da marca, assim como a Rolls-Royce aboliu a estatuazinha
que decorava o bico de seus veículos. Esses objetos funcionam
como pontas de faca numa batida de frente. No Brasil, a Fiat abandonou,
neste ano, o quebra-mato, que dava uma imagem robusta aos modelos
Palio Weekend e Doblò Adventure. O equipamento representava
uma ameaça ainda maior numa colisão frontal. O Classe
A da Mercedes foi desenhado para que, numa batida de frente, o motor
seja empurrado em direção ao solo, evitando que a
vítima se choque com partes mais duras do veículo.
A japonesa Mazda desenvolveu um novo tipo de capô para o esportivo
RX-8, lançado no ano passado. A tampa, em vez de ter travessas
de metal em sua estrutura, vem com pequenas bolhas em forma de cone
que dão firmeza à carroceria ao mesmo tempo que amortecem
o impacto de uma pessoa ao ser atropelada, funcionando como uma
espécie de mola. "Estamos no começo de um processo
que já avançou bastante em relação à
segurança dos ocupantes. Desta vez, a evolução
é para proteger os pedestres", diz Marco Saltini, gerente
do serviço técnico e de legislação da
Fiat.
Na
área de engenharia e design há muito que ser testado
nos próximos anos, como airbags para as partes externas,
pára-brisas de plástico em lugar do vidro e componentes
da carroceria forrados com espuma. Essa corrida dos fabricantes
de carros para desenvolver frentes mais amigáveis tem como
desafio reduzir as estatísticas de morte nas ruas. Na Europa
e nos Estados Unidos, morrem atropeladas duas pessoas em cada grupo
de 100 000 habitantes. No Brasil, são nove. Enquanto por
aqui existem poucas ações concretas das autoridades
para diminuir o índice de atropelamentos, experiências
nesse sentido se multiplicam no Primeiro Mundo. Na Alemanha, foram
criadas, na década passada, as chamadas Zonas 30, ou seja,
vias onde a velocidade máxima permitida é 30 quilômetros
horários. A medida vale para as áreas residenciais,
mesmo para aquelas localizadas em regiões centrais onde o
tráfego é intenso. Na Holanda, adotou-se o sistema
conhecido como wonert, que elimina as guias, substitui o asfalto
pelo piso de um calçadão e nivela a pista com a calçada.
A idéia é fazer com que o motorista trafegue mais
devagar e o espaço urbano seja tomado por pedestres.
Não
é suficiente a indústria se preocupar com quem está
fora do carro se quem está ao volante dirige desatento ou
desrespeita as leis de trânsito. "No Brasil, quem se considera
dono do espaço urbano são os motoristas, e não
os pedestres, como ocorre em alguns países da Europa e nos
Estados Unidos", diz Cândido Malta Campos Filho, professor
da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São
Paulo. "Isso acontece porque o poder público sempre priorizou
obras viárias, como túneis e elevados, em vez de calçadões
e transporte público de qualidade." Some-se a isso a impunidade
dos motoristas que param sobre a faixa de pedestres ou avançam
um sinal vermelho.
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