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Minas
Gerais
O
trem no trilho
Com
equipe de alto nível e técnicas
da
iniciativa privada, Aécio Neves
recupera
o caixa e o prestígio de Minas

José
Edward
Nélio Rodrigues
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ECONOMIA
O governador Aécio Neves: "Cortar o meu salário foi um gesto
simbólico, mas importante" |
Técnicos competentes e métodos de gerência assimilados
da iniciativa privada deram jeito no que parecia impossível:
reorganizar a economia do governo mineiro depois da gestão
politicamente turbulenta e economicamente caótica do ex-governador
Itamar Franco. Em pouco mais de um ano, um choque de gestão
recolocou o Estado no mapa financeiro do país e das instituições
de crédito internacionais. Minas Gerais não tinha
crédito internacional desde a moratória de 1999. O
Estado perdeu também investimentos privados e, com eles,
os postos de segunda economia da Federação, para o
Rio de Janeiro, e segundo maior exportador, para o Rio Grande do
Sul. Ao assumir o governo, em janeiro do ano passado, o tucano Aécio
Neves tinha no caixa um rombo de 5 bilhões de reais em dívidas
com fornecedores e no orçamento um déficit de 2,3
bilhões. Seguindo o exemplo dado, duas décadas antes,
pelo avô Tancredo Neves, o novo governador, primeiro, proibiu
gastos e, depois, num passo além, implementou a estratégia
para sair do prejuízo.
Na
contramão do governo federal, que multiplicou ministérios
para alojar aliados, o governo mineiro reduziu de 21 para 15 o total
de secretarias de Estado, extinguindo 447 divisões e pulverizando
1 326 cargos de confiança. Demitiu funcionários não
efetivos, reduziu serviços terceirizados, cortou gratificações
e controlou até as despesas de energia elétrica. Para
dar o exemplo, a nova equipe diminuiu também o salário
do governador, de 19 000 reais para 10 500 reais, bem como o do
vice e dos secretários. "Foi um gesto simbólico, mas
importante quando todo o Estado passava pelo corte de despesas",
diz Aécio, tachado de populista pela oposição
por adotar uma medida com efeito mais político que financeiro.
Para
evitar que o monstro devorador de recursos crescesse de novo, foram
propostas e aprovadas também alterações na
Constituição estadual. Os adicionais por tempo de
serviço, que fazem a folha do funcionalismo aumentar por
inércia, foram trocados por gratificações de
desempenho. O regime vale para os novos funcionários, que
também passam a ser avaliados, para receber o devido prêmio
ou a merecida cobrança. Três resultados negativos consecutivos
podem gerar demissão. Com a supervisão do Instituto
de Desenvolvimento Gerencial, INDG, implantaram-se metas em setores
da administração, como ocorre em empresas como Gerdau,
Sadia e Votorantim, clientes da mesma consultoria. Os agentes do
ICMS têm cotas de fiscalização a cumprir e gratificação
conforme o incremento de receita que venham a obter. No ano passado,
o modelo rendeu um aumento de 14,4% na arrecadação
total do Estado. "Ocorre em Minas o maior processo de aperfeiçoamento
institucional feito pela nova leva de governadores", observa o cientista
político Fernando Abrúcio, professor da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, em um estudo elaborado
para o Ministério do Planejamento.
A
mesma ótica levou à definição de trinta
projetos prioritários para a ação social e
a recuperação econômica. No início do
governo, apresentaram 400 programas ao governador. Vendo que a tentação
de atacar todos ao mesmo tempo significava não resolver nenhum,
Aécio mandou cortar a lista para os trinta prioritários.
Agora, todos estão indo para a frente. Cada um tem seu gerente,
responsável pelo cronograma, pelas metas e pela prestação
de contas. Para atuar nesses programas, 4 000 funcionários
recebem treinamento da Escola de Governo da Fundação
João Pinheiro e da Fundação Dom Cabral, dois
centros de excelência em administração pública.
"A idéia é criar um corpo de comando que dê
continuidade às ações administrativas", explica
o secretário de Planejamento e Gestão, Antonio Augusto
Anastasia, mestre em direito administrativo, secretário-executivo
dos ministérios da Justiça e do Trabalho nos governos
de Fernando Henrique Cardoso.
Ferramentas
de que o funcionalismo nunca ouviu falar antes estão gerando
economia em Minas Gerais. Uma delas é o chamado gerenciamento
matricial de despesas, que permite identificar, comparar e cortar
gastos por meio de indicadores estatísticos. Vistas por essa
lupa, as despesas que o governo fazia revelaram aberrações.
Medicamentos idênticos eram comprados, no mesmo mês,
por departamentos diferentes, a preços que variavam em até
100%. Com essa matriz, acharam-se oportunidades para a economia
de meio bilhão de reais. "Pequenos desvios, somados, fazem
muita diferença", diz o consultor Vicente Falconi, diretor-técnico
do INDG.
Auditorias
zelam agora para que projetos e ações administrativas
nem sequer comecem sem que os recursos estejam assegurados. Para
tirar vantagem do poder financeiro do Estado, realizam-se dois tipos
de leilão. Pelo primeiro modelo, vence a concorrência
para fornecimento de materiais corriqueiros quem pedir menos pelo
produto especificado. Pelo segundo, determina-se quais credores
receberão primeiro as dívidas antigas do governo.
"Recebem primeiro os credores que oferecem maiores descontos", explica
o secretário estadual da Fazenda de Minas, Fuad Noman Filho,
ex-presidente da BrasilPrev.
A
oposição acha que Aécio Neves está indo
longe demais. "Se dependesse só dele, a atuação
do Estado seria reduzida ao mínimo e os direitos dos servidores
seriam suprimidos", reclama o deputado estadual Rogério Correia,
líder do bloco PT-PC do B. Na mira dos oposicionistas estava
na semana passada uma taxa de incêndio que o governador quer
cobrar nas cidades onde há Corpo de Bombeiros para comprar
viaturas e equipamentos. O comércio e a indústria
vão pagá-la a partir de maio. Aécio também
tentou criar uma taxa sobre o seguro obrigatório de veículos,
a ser paga pelas seguradoras, mas a idéia foi desarticulada
por ação do ex-deputado tucano Pimenta da Veiga, advogado
da federação nacional das empresas do ramo.
Resultados
já apareceram. Pela primeira vez nos últimos catorze
anos, em 2003 o Estado pagou o décimo terceiro integral do
funcionalismo dentro do prazo previsto em lei. Até o fim
deste ano, o déficit orçamentário será
zerado e o índice de comprometimento da folha de pessoal
vai finalmente se enquadrar nos princípios da Lei de Responsabilidade
Fiscal. "Minas está voltando a crescer, recuperando a capacidade
de planejamento e seu prestígio no cenário nacional",
entusiasma-se Robson Andrade, presidente da Federação
das Indústrias do Estado de Minas Gerais.
O
Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento pré-aprovaram
financiamentos da ordem de 370 milhões de dólares,
cuja liberação depende apenas de avais do governo
federal. "Ficamos impressionados com a consistência dos projetos
e com a equipe de governo", diz o diretor do Banco Mundial para
o Brasil, Vinod Thomas, que visitou Minas recentemente. O que mais
despertou a atenção dos técnicos da instituição
foi a ligação entre projetos econômicos e de
inclusão social. Para dar prioridade ao asfaltamento em algumas
cidades do interior, por exemplo, leva-se em conta o índice
de desenvolvimento humano de cada município, o conhecido
IDH. Os piores são os primeiros. "Assim, o investimento do
Estado segue a direção da melhoria das condições
de vida", diz o secretário de Desenvolvimento Econômico,
Wilson Nélio Brumer, executivo que presidiu a Vale do Rio
Doce, a Acesita e a subsidiária brasileira da BHP Billiton
Metais.
A
gestão de Aécio Neves desponta numa safra premiada
de governadores jovens, que fazem planos para o próprio futuro
político e apostam em gestão moderna para chegar lá.
Geraldo Alckmin, de São Paulo, Blairo Maggi, de Mato Grosso,
Paulo Hartung, do Espírito Santo, e Germano Rigotto, do Rio
Grande do Sul, são outros exemplos. Esse comportamento, a
longo prazo, pode inverter a lógica política segundo
a qual um governador sai para outro cargo deixando para trás
uma fatura a ser paga pelo contribuinte. No novo formato, só
o eleitor pode cobrar a conta do candidato, no futuro, se sua gestão
foi marcada pela irresponsabilidade.
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