Edição 1851 . 28 de abril de 2004

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André Petry
A coisificação da
vida humana

"Os nazistas conseguiram promover a
matança de judeus porque
a sociedade
alemã mergulhou em massa 'no auto-engano,
na mentira, na estupidez', conforme definiu
a filósofa alemã Hannah Arendt, criadora
do conceito da 'banalidade do mal'"

No dia 12 de abril, apareceu um policial carregando um cadáver num carrinho de mão, na favela da Rocinha. Parecia que transportava tijolos, sacos de cimento, entulho, qualquer coisa, menos um ser humano. Cinco dias depois, um cadáver, provavelmente resgatado do mar, ficou pelo menos três horas jogado nas areias da Praia de Copacabana. A maioria dos transeuntes dava uma olhada no corpo, meio de longe, apenas para satisfazer a curiosidade, mas sem sinais de comoção. Em seguida, veio a rebelião no presídio de Urso Branco, em Porto Velho, capital de Rondônia, onde os rebelados não só mataram desafetos aos olhos da platéia que se concentrava diante da prisão. Num espetáculo de horror, resolveram decapitá-los, esquartejá-los. Deceparam pés e pernas e braços e cabeças. Do alto do telhado do presídio, como que desfraldando a bandeira da vitória, jogaram os membros no pátio interno da prisão.

O que existe de comum entre esses três acontecimentos é um dado estarrecedor: o processo de desumanização, de coisificação da vida humana. Em Copacabana, isso aparece na espantosa indiferença com que se trata a macabra presença de um cadáver nas areias da praia, sendo que a vida humana ainda é, ou deveria ser, nosso valor supremo. Na Rocinha, a ruína moral está no desrespeito a um cadáver, carregado como se fosse lixo. O respeito aos mortos, o ritual do enterro, data de 40.000 anos, antes mesmo da escrita ou da agricultura, e marca a entrada da humanidade na civilização. Os túmulos, as flores fúnebres, as cerimônias de adeus são um marco civilizatório, quando o homem começa a se distinguir dos outros animais. Em Porto Velho, a ultrajante brutalidade cometida pelos criminosos é a cena perfeita da redução do homem e sua consciência ao valor de um objeto, ou ao valor de um porco saído do abatedouro.

Talvez o único aspecto mais nefasto que tudo isso – mais nefasto que a indiferença, que o desrespeito, que a brutalidade – seja a aparente normalidade com que o Brasil assiste a essas cenas. É quase como fossem um dado inescapável da rotina, como o ato de respirar. Algo que pertencesse à categoria das coisas previsíveis, como as chuvas de verão. Nessas horas, é fundamental revisitar as lições da história. Na Alemanha hitlerista, os nazistas conseguiram promover a matança de judeus porque, entre outras razões, a sociedade alemã da época mergulhou em massa "no auto-engano, na mentira, na estupidez", conforme definiu a filósofa alemã Hannah Arendt, criadora do famoso conceito da "banalidade do mal". Com um povo assim, que, com sinceridade ou hipocrisia, dizia acreditar nas lorotas nazistas sobre os judeus, a guerra e o destino alemão, produziu-se o holocausto com frieza burocrática, com metódica normalidade. A barbárie, sempre que logra passar pela fresta da normalidade, arromba a porta para a entrada do caos. Esse é o grande perigo.


André Petry é chefe da sucursal de Brasília

 
 
 
 
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