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André
Petry
A
coisificação da
vida humana
"Os
nazistas conseguiram promover a
matança de judeus porque a
sociedade
alemã mergulhou em massa 'no auto-engano,
na
mentira, na estupidez', conforme definiu
a filósofa alemã Hannah Arendt, criadora
do
conceito da 'banalidade do mal'"
No
dia 12 de abril, apareceu um policial carregando um cadáver
num carrinho de mão, na favela da Rocinha. Parecia que transportava
tijolos, sacos de cimento, entulho, qualquer coisa, menos um ser
humano. Cinco dias depois, um cadáver, provavelmente resgatado
do mar, ficou pelo menos três horas jogado nas areias da Praia
de Copacabana. A maioria dos transeuntes dava uma olhada no corpo,
meio de longe, apenas para satisfazer a curiosidade, mas sem sinais
de comoção. Em seguida, veio a rebelião no
presídio de Urso Branco, em Porto Velho, capital de Rondônia,
onde os rebelados não só mataram desafetos aos olhos
da platéia que se concentrava diante da prisão. Num
espetáculo de horror, resolveram decapitá-los, esquartejá-los.
Deceparam pés e pernas e braços e cabeças.
Do alto do telhado do presídio, como que desfraldando a bandeira
da vitória, jogaram os membros no pátio interno da
prisão.
O
que existe de comum entre esses três acontecimentos é
um dado estarrecedor: o processo de desumanização,
de coisificação da vida humana. Em Copacabana, isso
aparece na espantosa indiferença com que se trata a macabra
presença de um cadáver nas areias da praia, sendo
que a vida humana ainda é, ou deveria ser, nosso valor supremo.
Na Rocinha, a ruína moral está no desrespeito a um
cadáver, carregado como se fosse lixo. O respeito aos mortos,
o ritual do enterro, data de 40.000 anos, antes mesmo da escrita
ou da agricultura, e marca a entrada da humanidade na civilização.
Os túmulos, as flores fúnebres, as cerimônias
de adeus são um marco civilizatório, quando o homem
começa a se distinguir dos outros animais. Em Porto Velho,
a ultrajante brutalidade cometida pelos criminosos é a cena
perfeita da redução do homem e sua consciência
ao valor de um objeto, ou ao valor de um porco saído do abatedouro.
Talvez
o único aspecto mais nefasto que tudo isso – mais nefasto
que a indiferença, que o desrespeito, que a brutalidade –
seja a aparente normalidade com que o Brasil assiste a essas cenas.
É quase como fossem um dado inescapável da rotina,
como o ato de respirar. Algo que pertencesse à categoria
das coisas previsíveis, como as chuvas de verão. Nessas
horas, é fundamental revisitar as lições da
história. Na Alemanha hitlerista, os nazistas conseguiram
promover a matança de judeus porque, entre outras razões,
a sociedade alemã da época mergulhou em massa "no
auto-engano, na mentira, na estupidez", conforme definiu a filósofa
alemã Hannah Arendt, criadora do famoso conceito da "banalidade
do mal". Com um povo assim, que, com sinceridade ou hipocrisia,
dizia acreditar nas lorotas nazistas sobre os judeus, a guerra e
o destino alemão, produziu-se o holocausto com frieza burocrática,
com metódica normalidade. A barbárie, sempre que logra
passar pela fresta da normalidade, arromba a porta para a entrada
do caos. Esse é o grande perigo.
André Petry é chefe da sucursal de Brasília
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