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DVD

Universal Pictures
Peck, em ação: contra o racismo


O Sol É para Todos
(To Kill a Mockingbird, Estados Unidos, 1962. Em preto-e-branco. Columbia/Universal) – Poucos filmes sobre a questão racial nos Estados Unidos foram tão marcantes quanto esse, produzido no auge do movimento pelos direitos civis. A história se baseia no romance homônimo da escritora Harper Lee e é uma ficcionalização da sua infância, nos anos 30. Harper, aliás, visitou várias vezes o diretor Robert Mulligan e o astro Gregory Peck durante as filmagens. Peck vive um advogado sulista viúvo e pai de dois filhos que, contrariando as expectativas de sua cidadezinha, decide defender um negro acusado de estuprar uma branca. O DVD traz um extra quase tão atraente quanto o filme: um ótimo e extenso documentário do qual participam vários dos contemporâneos de Harper, além de Peck, Mulligan, o produtor Alan J. Pakula e muitos dos atores.

 

LIVROS

Conversação, de Theodore Zeldin (tradução de Sérgio Flaksman; Record; 136 páginas; 35 reais) – Respeitado historiador de Oxford, o inglês Zeldin tem a seriedade de um filósofo moral e o pragmatismo de um autor de auto-ajuda. Ele sustenta nesse livro, reunião de seis palestras feitas para a rede BBC, que a conversação é uma arma para "melhorar o mundo". Brevíssima e ilustrada, a obra propõe maneiras de melhorar o papo em família, no amor e no trabalho. Seria ótimo se toda obra de auto-ajuda tivesse o nível de Conversação.

Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira e Seymour: uma Apresentação, de J.D. Salinger (tradução de Jorio Dauster; Companhia das Letras; 184 páginas; 23 reais) – Publicados em 1963, esses dois contos compõem o último livro de Salinger, que pouco depois parou de escrever e se tornou recluso. Relançados em nova tradução, depois de mais de dez anos esgotados no Brasil, eles têm como protagonistas os irmãos Buddy e Seymour. No primeiro conto, o jovem Buddy narra suas tribulações no dia do casamento de Seymour. No segundo, o mesmo personagem, já com 40 anos, é um escritor tentando definir seu irmão para o leitor. Embora não tenham a importância de O Apanhador no Campo de Centeio, romance de cabeceira de duas ou três gerações, esses textos trazem as marcas registradas do autor: o olhar cáustico e o irremediável espírito de rebeldia.

 

DISCOS

TV Cultura
João Bosco: resumo da carreira

Na Esquina ao Vivo, João Bosco (Sony Music) – Quem não possui nenhum disco de João Bosco na estante vai poder se fartar com esse lançamento. Gravado em dezembro do ano passado na cidade de Juiz de Fora, Na Esquina ao Vivo resume em dois CDs (que podem ser adquiridos separadamente) os mais de trinta anos de carreira do cantor, compositor e violonista mineiro. Da parceria com o letrista Aldir Blanc, que rendeu pérolas da malandragem como Linha-de-Passe e O Ronco da Cuíca, a baladas do quilate de Jade e Desenho de Giz, o disco pode ser ouvido sem pular faixa. Na Esquina ao Vivo ainda tem outra vantagem: João Bosco é aquele tipo de artista que rende muito mais no palco. A diferença pode ser sentida em faixas como Mama Palavra e Na Esquina, que ganharam versões superiores aos seus registros em estúdio.

Dot Com Blues, Jimmy Smith (Universal) – Nas mãos erradas, o órgão Hammond pode soar irritante, mas nas mãos de Jimmy Smith ele é delicioso. Em Dot Com Blues, seu primeiro álbum em cinco anos, o tecladista de 75 anos consegue um feito notável: dá alento ao blues, um gênero que não via inovação fazia muito tempo. Para isso, recheou as canções com solos endiabrados e contou com participações de feras como Etta James e B.B. King. Mas nenhum convidado consegue ofuscar Smith. Admirado pelas suas fusões de jazz com soul music nas décadas de 50 e 60, ele arrasa na releitura de Mood Indigo, gema de Duke Ellington, e em canções de sua própria autoria, como 8 Counts for Rita e Tuition Blues.

 

LITERATURA BRASILEIRA

BR 163
Tony Bellotto
Companhia das Letras; 211 páginas;
5 reais

Quando Tony Bellotto estreou na ficção, em 1995, sua editora teve o pudor e a prudência de incluí-lo em um selo de obras para adolescentes. Seu livro seguinte, contudo, já fazia parte da coleção adulta, assim como este novo BR 163. Daí se poderia concluir que o autor amadureceu. Mas isso não é verdade. Não mesmo. Aliás, nem é correto dizer que o guitarrista da banda Titãs faz literatura juvenil, uma modalidade honesta e honrada de escrita. Ele faz no máximo "literatura pueril", manipulando desajeitadamente idéias e frases como se fossem bloquinhos de armar. "Fazia calor, mas ela gostava de sentir o sol queimando a pele." "Eu ainda não sabia, mas aquela seria a última vez que veria minha mãe com vida." "Ao contrair dívida com um traficante, a própria vida é o que se oferece como garantia." Haja clichê. Às vezes, até o autor parece envergonhar-se e obriga algum personagem a reclamar dos sonoros lugares-comuns proferidos pelos outros personagens.

O mais triste é que o material de BR 163 é rico. Não a marginalidade das metrópoles, mas a vida subterrânea de certas cidades do interior, enriquecidas pela indústria e pela agricultura e, ao mesmo tempo, envenenadas pelo tráfico de drogas, por surtos de violência, pelo tédio e pela corrupção. A miséria e a decadência do ambiente rural são temas clássicos do romance brasileiro. Já os dilemas do interior modernizado são um assunto virgem. Bellotto esbarrou no tesouro, mas não tem fôlego para extraí-lo. Se houvesse explorado cenários e aprofundado personagens como Alan, um garotão sentimental que trafica drogas no oeste paulista, poderia obter bons resultados. Mas, em A Menina Tatuada, primeira das duas histórias interligadas de BR 163, ele se limita a reciclar uma velha fórmula do melodrama (garota abandonada busca os pais desconhecidos). Ao passo que, na segunda história, Oeste, Selene, Bellotto parece ansioso para imitar os filmes de Quentin Tarantino. A essa altura, alguém poderia dizer: "Mas por que reclamar tanto de um livro que talvez queira apenas divertir?" O problema é que a diversão é pouca em BR 163. Pouquíssima, aliás, por 25 reais.

Carlos Graieb

 

Saiba mais
Disco João Bosco e Livro Conversação

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano

 

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