Fogueira
das vaidades
Fóssil de 3,5 milhões de anos
esquenta rixa entre os caçadores
do elo perdido da evolução
Bia Barbosa
MGM
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Na
paleontologia são comuns as teorias sobre rivalidades
entre populações pré-históricas
que terminaram em completa extinção de espécies
e povos. Originário da África, o Homo sapiens
teria aniquilado até o último homem de Neandertal,
o primo abrutalhado que desapareceu da Europa há 30.000
anos. Coisa parecida ocorre entre os autores dessas teorias,
os paleoantropólogos. Divididos em tribos rivais, cada
uma delas dona do próprio feixe de ossos fossilizados,
os cientistas não medem esforços para impor
suas teses à comunidade científica e esmagar
os rivais. Na semana passada, o anúncio da descoberta
no Quênia do crânio de um hominídeo de
3,5 milhões de anos, pela inglesa Meave Leakey, pôs
mais lenha na fogueira das vaidades acadêmicas. Trata-se
de uma espécie até então desconhecida,
batizada de Kenyanthropus platyops, que pode jogar
para o galho seco da evolução o mais célebre
de todos os fósseis, Lucy, uma fêmea que viveu
no mesmo período. Com seu 1,10 metro de altura, 3,2
milhões de anos e braços mais compridos que
as pernas, Lucy reinou durante um quarto de século
como o mais antigo ancestral do homem moderno. A descoberta
do Kenyanthropus mostra que outra espécie de
hominídeo, como são chamados os ancestrais do
homem, viveu na mesma época. Qual deles deve ser chamado
de vovô?
Rudi Schimidt
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AP
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A
TRIBO DA LUCY
Em 1974, o americano Donald Johanson (à esq.) encontrou
na Etiópia o esqueleto quase completo de um hominídeo.
Até a descoberta da semana passada, esse fóssil, chamado
de Lucy, foi aceito como o ancestral mais antigo do homem.
Johanson fez dupla com Tim White (de chapéu), o
cientista que inspirou o personagem Indiana Jones |
Há
duas correntes rivais no mundo da paleoantropologia. A primeira
é formada pela família Leakey, cujo patriarca,
Louis, foi responsável pelas descobertas que confirmaram
a África como o berço da humanidade. Filho de
missionários, nascido no Quênia em 1903, Louis
deu origem a uma linhagem de grandes paleontólogos
que inclui a mulher, Mary, o filho, Richard, e a nora, Meave.
No Quênia eles são, além de cientistas,
figuras influentes na política e no governo. Ex-administrador
dos parques nacionais quenianos, Richard foi ministro, lidera
um dos partidos mais influentes e já foi cotado para
disputar a Presidência da República. A segunda
corrente é liderada pelos americanos Tim White e Donald
Johanson. Nos últimos trinta anos, Tim White participou
da descoberta de quatro dos mais importantes hominídeos.
Foi nele que o diretor Steven Spielberg se inspirou para criar
o personagem Indiana Jones, vivido nas telas por Harrison
Ford. Johanson, por sua vez, é o descobridor de Lucy,
exemplar de um gênero oficialmente chamado de Australopithecus
afarensis. Os Leakey nunca aceitaram a tese de que Lucy
seria a bisavó dos seres humanos.
National Museum of Kenya
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| Crânio
de 3,5 milhões de anos achado no Quênia:
nova espécie pode ser a base da evolução
do homem |
Com o crânio recém-descoberto, o clã Leakey
pode agora anunciar uma nova árvore genealógica
para a espécie humana, tentando destronar a dupla Johanson-White.
"Esse exemplar é altamente fragmentado. Em breve se
descobrirá que esse fóssil é mais uma
variedade do Australopithecus afarensis que uma nova
espécie ou gênero", desdenhou Tim White, em entrevista
a VEJA. O centro da disputa é o Vale do Grande Rift,
que vai da Tanzânia à Etiópia, passando
pelo Quênia. A região é o eldorado dos
paleontólogos porque ali foram encontrados quase todos
os fósseis mais importantes de hominídeos, inclusive
Lucy. As escavações no Quênia e em parte
da Tanzânia estão nas mãos dos Leakey.
Ali, ninguém entra sem a autorização
deles. Pesquisadores já foram presos porque tentaram
ter acesso aos sítios de escavação sem
passar pelo clã. Martin Pickford, paleontólogo
inglês que em dezembro anunciou ter encontrado um fóssil
de hominídeo de 6 milhões de anos, passou cinco
dias na cadeia no ano passado por fazer escavações
sem autorização no território controlado
pelos Leakey.
National Museum of Kenya
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A
TRIBO DOS LEAKEY
Na década de 30, o casal Louis e Mary Leakey descobriu
na África espécies ancestrais do homem que definiram a
região como berço da civilização. Eles deram origem a
uma família de grandes paleontólogos. A nora do casal,
Meave (foto), é autora da mais recente descoberta.
Ela sustenta que, em vez de Lucy, foi seu Kenyanthropus
platyops quem originou o homem. Seu marido, Richard,
é o pesquisador que mais achou fósseis do gênero Homo.
Ele é inimigo público de Johanson e já chamou Lucy de
"bastarda" |
Não
é à toa que se odeiam. Antes da descoberta de
Lucy, o ancestral mais antigo era um Homo habilis,
de 2,6 milhões de anos, achado por Richard Leakey em
1972. "É apenas uma bastarda aberrante", declarou ele
certa vez referindo-se a Lucy. Em 1981, Leakey e Johanson
brigaram em público e ao vivo em rede nacional de televisão
nos Estados Unidos. Durante um debate, irritado, Leakey pegou
um lápis colorido e rabiscou um enorme X numa árvore
genealógica da humanidade tendo Lucy como ancestral
comum, desenhada por Johanson. Os dois nunca mais se falaram.
Não é só uma guerra de poder no mundo
da paleoantropologia. Os dois grupos lutam pela primazia de
achar o chamado elo perdido, o ancestral comum não
só dos seres humanos atuais mas também dos macacos,
seus primos na linha evolucionária. Ao escolher o nome
Kenyanthropus platyops, os Leakey querem estabelecer
uma nova espécie na raiz do gênero Homo,
relegando os australopitecos, como Lucy, a um ramo extinto
da árvore genealógica. "O problema é
que, com tantas novas descobertas de fósseis, a árvore
humana virou uma moita", pondera o paleoantropólogo
Walter Neves, da Universidade de São Paulo e ex-aluno
de Tim White. Com isso, qualquer pesquisador pode estabelecer
as linhagens e desqualificar as espécies que quiser.
Provavelmente o Kenyanthropus platyops reinará
por algum tempo até que seja descoberto algo mais espetacular.
Saiba
mais |
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