O gosto
do canibalismo
Jovem do Caribe conta como náufragos
tentaram
sobreviver em momento de
desespero extremo
Cristiano Dias
AP
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| Pinales,
em um hospital no Haiti: três semanas à deriva comendo
cadáveres |
O
relato de um náufrago da República Dominicana
tocou, semana passada, naquele que é considerado o
mais forte tabu da civilização: o canibalismo.
O jovem Carlos Pinales, de 19 anos, sobreviveu a uma viagem
sinistra que começou em seu país e terminou
no Haiti. Ele havia embarcado com outras sessenta pessoas
em um acanhado barco de madeira para atravessar 200 quilômetros
de mar em busca de asilo em Porto Rico, um enclave americano
no Caribe. Um dia depois da partida, já na costa porto-riquenha,
o motor parou e a correnteza levou o barco de volta. Entre
25 de fevereiro e 15 de março, ficou à deriva
até encalhar e afundar na costa haitiana. Durante o
período não havia o que comer e beber. Praticamente
sobrou só Pinales para contar a história
há ainda um outro sobrevivente em estado de choque
que não consegue dizer nem o próprio nome. De
acordo com a descrição, as pessoas foram morrendo
de inanição e o desespero fez com que os remanescentes
comessem os cadáveres. Com uma aparência bem
nutrida, Pinales afirma que não participou da barbárie
e sobreviveu apenas bebendo água do mar. Os médicos
que o examinaram, no entanto, afirmam que seria impossível
ficar tanto tempo sem comer.
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| Moby-Dick
e o Essex: tragédia em alto-mar |
Em
momentos extremos como aqueles vividos pelos dominicanos,
o homem é capaz de retomar esse comportamento assustador,
associado ao primitivismo e à selvageria de seus antepassados.
A História guarda narrativas impressionantes, como
no caso do naufrágio do Essex, navio americano
que foi a pique após duros golpes de uma baleia cachalote,
em 1820. O episódio aguçou a imaginação
do marinheiro Herman Melville, que escreveu o romance Moby-Dick,
trinta anos depois. Entretanto, em Moby-Dick Melville
deixa de contar o destino dos vinte sobreviventes do Essex
que se espremeram pelos três meses seguintes em
pequenos botes. Sem água e sem comida, o único
meio de sobreviver à imensidão do Pacífico
foi o canibalismo. Quando acabaram os cadáveres, os
náufragos passaram a sortear quem iria morrer para
alimentar o resto do grupo. No final, apenas oito marinheiros
escaparam. Mas a fome e o desespero já fizeram vítimas
também em terra firme. Em 1941, no auge da investida
nazista contra a União Soviética, os alemães
cercaram Leningrado, deixando-a sem alimentos. O cerco que
isolou a cidade durou dois anos e meio e matou 1,5 milhão
de pessoas. No inverno rigoroso, os corpos eram empilhados
nas ruas e acabaram servindo de provisão para cerca
de 1.500 pessoas.
Quem deu nome à prática foi o navegador genovês
Cristóvão Colombo. Ao desembarcar nas ilhas
caribenhas, ele se espantou com o hábito dos índios
de comer carne humana e passou a se referir a eles como canibais
(corruptela de caribales). Mesmo tendo se mantido como
tabu, o comportamento sempre desperta uma questão que
provoca engulhos: afinal, qual é o gosto da carne humana?
O enigma foi desfeito pelos uruguaios integrantes de uma equipe
de rúgbi que sobreviveram a um acidente aéreo
nos Andes, em 1972. Eles relataram a Piers Paul Read, autor
do best-seller Alive, sobre o acidente, que depois
de assada ela tinha um "gosto parecido com o da carne bovina,
mas era bem mais macia que um filé". Os dezesseis uruguaios
resistiram a temperaturas baixíssimas alimentando-se
dos outros 29 mortos, por um período que durou 71 dias.
Uma experiência tão macabra que é capaz
de fazer o filme Hannibal, em cartaz nos cinemas, parecer
um conto da carochinha.
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