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Estupro na Igreja

Jornal católico denuncia que padres
violaram freiras. O Vaticano admite
o problema

Casos de padres que violam o voto de castidade não são novidade na Igreja Católica. Não é incomum surgirem acusações de pedofilia, homossexualismo ou de assédio por parte de religiosos. Mas uma série de cinco documentos divulgados na semana passada pelo National Catholic Reporter, um jornal semanal independente de Kansas City, nos Estados Unidos, surpreendeu pelos detalhes sórdidos e lançou luz sobre um drama ignorado pela imensa maioria do 1 bilhão de católicos no mundo: os abusos sexuais de padres contra freiras, que incluem estupros e abortos forçados.

As denúncias foram feitas no decorrer dos últimos sete anos por superioras de ordens diferentes durante congressos oficiais do Vaticano. Isso indica que a Santa Sé sempre soube das acusações. Os documentos não trazem estatísticas, mas indicam que as práticas abusivas ocorreram em 23 países, incluindo o Brasil. O porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls, admitiu o problema – segundo ele, "confinado a uma área geográfica limitada". A maioria dos casos aconteceu na África. Naquele continente, há regiões em que o sexo é um tabu sobre o qual ninguém fala – freiras muito menos – e outras em que a cultura permissiva, o machismo e a poligamia fazem do celibato um pesadelo para os padres.

Na África, as freiras teriam se tornado alvo fácil e conveniente para religiosos com poder para subjugá-las e, ao mesmo tempo, temerosos diante da disseminação da Aids. Todas as narrativas, porém, independentemente do país em que foram colhidas, tratam de abordagens e intimidações parecidas. Em alguns casos, os padres valeram-se da autoridade religiosa para obter sexo. Em outros, utilizaram "argumentos teológicos" para convencê-las. Freiras normalmente têm grau de instrução inferior ao dos padres. Num caso típico, padres partiram para a sedução com a argumentação de que importante mesmo para um religioso é apenas a proibição de se casar. Em regiões remotas e pobres, muitas freiras dependem financeiramente de líderes de dioceses. Favores sexuais, nessas circunstâncias, podem significar a sobrevivência. Inúmeras religiosas foram estupradas e houve as que engravidaram e contam ter sido obrigadas a abortar. As que se recusaram foram expulsas de sua ordem, enquanto os padres nem sempre foram advertidos.

Não se especificam os casos que podem ter ocorrido no Brasil, onde a denúncia leva à retomada de uma discussão antiga. "A Igreja precisa rever a questão do celibato, que deveria tornar-se uma opção pessoal do religioso", diz dom Waldyr Calheiros, bispo emérito de Volta Redonda. Há quem interprete que o celibato persiste por motivos econômicos. "É mais barato manter um padre solteiro que uma família", afirma o advogado e jornalista José Vicente de Andrade, que deixou o sacerdócio em 1972. Como outros 4.000 religiosos no país, Andrade casou-se e tem filhos.

 

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