O golpe
dos milionários
Vigarista
americano usava o computador
para roubar dados e
dinheiro de celebridades
Giancarlo
Lepiani
Durante
seis meses, Abraham Abdallah, ajudante de cozinha de um restaurante,
foi assíduo freqüentador da biblioteca do bairro
do Brooklyn, em Nova York, onde existem doze computadores
públicos com acesso à internet. Ali, munido
de papel, caneta e um exemplar da Forbes, ele entrava
na rede mundial de computadores com o objetivo de bisbilhotar
informações de algumas das 400 pessoas mais
ricas dos Estados Unidos incluídas na lista anual publicada
pela revista americana.
No fim de fevereiro, Abdallah foi preso pela polícia
de Nova York, acusado de ter cometido o maior roubo de identidades
da história da internet. Por decisão da Justiça,
só sai da cadeia se pagar fiança de 1 milhão
de dólares. Na lista de suas possíveis vítimas,
ainda sob investigação policial, estão
217 milionários, incluindo os cineastas George Lucas
e Steven Spielberg, a apresentadora de TV Oprah Winfrey e
os empresários Larry Ellison, dono da Oracle, Paul
Allen, fundador da Microsoft, e Warren Buffett, o quarto homem
mais rico do mundo.
Abdallah usava o computador para invadir bancos de dados de
empresas e instituições em que estão
guardados os dados cadastrais dos milionários, como
endereço, telefone, data de nascimento e, às
vezes, números de documentos de identidade. Com essas
informações, Abdallah telefonava para bancos,
corretoras e operadoras de cartão de crédito,
dizendo-se agente dos multimilionários, e tentava obter
dados mais sigilosos, como extratos de compras e de contas
bancárias ou a movimentação de carteiras
de ações das celebridades. Ao telefone, algumas
operadoras exigiam apenas que ele fornecesse a data de nascimento
e o endereço das pessoas para, em seguida, enviar-lhe
as informações por fax.
De posse dos números que constavam nos extratos de
cartões e contas bancárias, ele completava o
golpe, fazendo transações em nome de suas vítimas
e desviando o dinheiro para sua conta pessoal. Numa dessas
tentativas, Abdallah acabou preso. Ele enviou um e-mail ao
banco de investimentos Merrill Lynch ordenando um saque em
nome do empresário Thomas Siebel, dono de um patrimônio
de 6,4 bilhões de dólares. A mensagem determinava
a retirada de 10 milhões de dólares da conta
do bilionário. A Merrill Lynch desconfiou e chamou
a polícia.
A Justiça ainda não sabe exatamente quanto Abdallah
roubou de cada pessoa, mas estima que os golpes lhe renderam
pelo menos 100.000 dólares, cifra até relativamente
modesta diante do tamanho da soma das fortunas de suas vítimas
cerca de 650 bilhões de dólares. O crime
de Abdallah, segundo a polícia americana, foi uma mistura
de crime eletrônico e simples conto-do-vigário.
Além de invadir bancos de dados e sistemas financeiros
na rede mundial de computadores, ele também falsificava
documentos e clonava cartões de crédito.
Para assombro dos investigadores, que esperavam prender um
jovem e brilhante pirata eletrônico, Abdallah tem 32
anos, trabalhava picando cebola em um pequeno restaurante
árabe, jamais foi especialista em finanças ou
informática e não terminou sequer o ensino médio.
O único ponto luminoso em seu currículo foi
ter participado como ator em um vídeo de treinamento
para empresas ironicamente, no papel de especialista
em investigar fraudes contra cartões de crédito.
Mesmo com um emprego modesto na cozinha de um restaurante,
Abdallah circulava por Nova York a bordo de um automóvel
Volvo zero-quilômetro fazendo compras com um cartão
de crédito clonado de Steven Spielberg e recebendo
encomendas em uma caixa postal registrada para Paul Allen,
sócio de Bill Gates na Microsoft. No dia de sua prisão,
o golpista havia contratado um serviço de encomendas
que lhe entregaria equipamentos no valor de 25.000 dólares
para falsificação de documentos. A polícia
encontrou com ele 800 cartões de crédito forjados,
equipamentos eletrônicos, moedas de ouro e uma cópia
surrada da Forbes com a lista dos 400 mais ricos.
Foto Reuters
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