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A soja fantasma

Às escondidas, gaúchos aderem aos
transgênicos. Mas não espalhe

Diogo Schelp

 
Liane Neves

1- Esta é a soja normal - Cultivo na cidade de Tupanciretã: ervas daninhas no meio da lavoura
2- Esta é a transgênica - Resistente ao herbicida, ela cresce sem pragas e aumenta o lucro do produtor

É proibido plantar soja transgênica no Brasil. Quem cultiva maconha está sujeito a no mínimo três anos de cadeia. A pena para quem mantém uma lavoura de soja geneticamente modificada em laboratório é de até três anos. Apesar da proibição, agricultores gaúchos aderem cada vez mais ao cultivo da soja que, por manipulação genética, pode resistir a um tipo de herbicida muito eficaz. Assim, eles controlam as ervas daninhas a um custo mais baixo e aumentam seu lucro. A opção pela planta de laboratório também tem sido feita por produtores de outras regiões, mas o que chama a atenção no Rio Grande do Sul é que lá esse cultivo é vigiado muito mais de perto. Primeiro porque o Movimento dos Sem-Terra, o MST, forte no Estado, acha que a soja transgênica vai colocar os produtores nas mãos das multinacionais que pesquisam as sementes. Depois porque o governo do petista Olívio Dutra, muito amigo do MST, dá força total à agricultura orgânica. "Eu diria que a produção de transgênicos no Rio Grande do Sul é nula", afirma José Hermeto Hoffmann, secretário de Agricultura do Estado.

No município de Tupanciretã, a 380 quilômetros de onde despacha o secretário, um agricultor que se identifica apenas como Renato mostra sua lavoura e conta que compra e produz sementes de soja modificada há vários anos. Escoar a produção é o que menos dá trabalho. "Compro a soja que me oferecem e não sou obrigado a fazer análise", diz Marcos de Bortoli, proprietário de um armazém de grãos em Fortaleza dos Valos, na região noroeste do Estado. Uma simples operação matemática também mostra o avanço da soja transgênica. Na safra atual, os produtores gaúchos mantêm a mesma área plantada do ano anterior, de 3 milhões de hectares, estão colhendo 1 milhão de toneladas a mais e compraram quase 40.000 toneladas a menos de sementes dos fornecedores oficiais. Só que cada pé de soja continua produzindo o mesmo de sempre. Ou seja, uma quantidade de sementes suficiente para lotar 2.500 caminhões foi adquirida no mercado paralelo, principalmente de contrabandistas que as trazem da Argentina, onde não há restrições à soja geneticamente modificada. Junto com as sementes cultivadas por produtores que aderiram à novidade em anos anteriores, esse volume leva entidades de agricultores a calcular que pelo menos 30% da área plantada no Estado estejam cobertos pela chamada soja transgênica. "Hoje, de cada dez agricultores, oito querem cultivar a planta transgênica", diz Efraim Fishmann, presidente da entidade estadual dos produtores e comerciantes de sementes.

Tecnicamente, os transgênicos são uma revolução que pode reduzir a fome no mundo. Nos Estados Unidos, dois terços dos cultivos vegetais já são feitos com variedades manipuladas geneticamente. Não há notícia de que plantações vizinhas tenham entrado em mutação por se cruzarem com as alteradas nem de que uma dessas plantas tenha feito mal a alguém. Mesmo assim, na Europa, o receio dos efeitos colaterais das plantas modificadas levou até à valorização de produtos não-transgênicos. Como proíbe, mas não consegue fiscalizar, o Brasil não tira proveito disso nas exportações nem tem controle do que está produzindo.

 

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