"Engravidei
do trenzinho"
Com
suas letras desbocadas e denúncias de
relações sexuais anônimas nos bailes,
o
funk incomoda até mentalidades liberais
Marcelo Camacho e Marcelo Carneiro
Montagem sobre fotos Oscar Cabral
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| Meninas
de top e cintura baixa se esbaldam em barracões da periferia,
aonde chegam preparadas para "dar beijo na boca": funk
por toda parte |
Invenção
de carioca, pobre, da periferia, o funk permaneceu confinado
nessas três dimensões por vários anos.
Ocasionalmente se falava nas brigas de gangues, no ritmo alucinado,
na música ensurdecedora e nas multidões de jovens
que, a cada fim de semana, lotavam bailes em barracões
indigentes. Do Carnaval para cá, o funk transbordou
seus limites sociais e geográficos. A reboque veio
a disseminação da lascívia exacerbada,
que é sua marca registrada: músicas com letras
descaradamente chulas, coreografias indecentes, roupas agarradas
e decotadas, suor e pegação. Às massas
rebolativas dos bailes do Castelo das Pedras, em plena favela,
ou da quadra do Salgueiro, juntaram-se garotos e garotas bem
tratados, vestidos com roupas de grife, loucos para aderir
ao funk. Até socialites, muitas já entradas
em anos e operações plásticas, subiram
no bonde. Em boates da Zona Sul, as noites funkeiras são
as mais animadas, e um esforço concentrado de "empresários
do funk" faz de tudo para levar o ritmo a São Paulo
e outras praças. O vocabulário vulgar (popozuda,
cachorra) incorporou-se ao cotidiano. Tardes inteiras na televisão
são dedicadas ao funk, com as câmaras pegando
ângulos já chamados comumente de ginecológicos.
Até em festinha de criança ecoam suas músicas
e só quem passou os últimos três
meses no espaço sideral ainda não ouviu alguma
dessas baixarias.
Na mais famosa de todas, em altos brados, o célebre
Tigrão avisa que vai jogar a menina na cama e "dar
muita pressão", o que na gíria funkeira significa
fazer sexo. Em outra, a MC Beth (nada a ver com o quase homônimo
shakespeariano) garante que "só um tapinha não
dói" aplicado no bumbum, como mostra a coreografia
da música. Mais um funk de sucesso, este de Vanessinha
Pikachu, manifesta o desejo de pegar seu par e "ir para o
hotel, pra brincar com o pikachu", que nesse caso definitivamente
não se trata do Pokémon amarelinho. Fora as
letras de cunho sexual, a música funkeira trata a mulher
como, bem, como cachorro. "Me chama de cachorra que eu faço
au au", canta Tati Quebra-Barraco no funk Cachorra Chapa
Quente (para quem não sabe, "chapa quente" quer
dizer pronta para transar).
Dança
da cadeira A associação entre danças
de alto conteúdo erótico (a rigor, todas, desde
o mais sublime pas de deux do balé clássico)
e respostas escandalizadas tem um longo histórico.
No Brasil, já envolveu praticamente de tudo
gafieira, samba, forró, xote, umbigada, lambada, modalidades
que posteriormente avançaram para o terreno mais explícito
ainda da dança da garrafa, do tchan e congêneres.
As reações a elas costumam dividir o mundo em
dois grupos. Os jovens, liberais, modernos ou simplesmente
tolerantes geralmente adoram. Os mais velhos, conservadores,
antigos ou abertamente reacionários detestam. O furor
funkeiro está embaralhando um pouco esse quadro. No
começo do mês, ultrapassou o terreno da discussão
habitual ("Onde é que isso vai parar? Será que
tem limite?") e entrou no campo da saúde pública
em razão de um abuso inusitado: duas menores, no Rio,
afirmaram ter engravidado ao fazer sexo com vários
parceiros, em pleno baile, em pleno salão, em pleno
anonimato.
Marcus Mendonça
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| A
vereadora Verônica, "mãe loira do funk",
acompanhada do filho Jonathan: aos 7 anos, ele canta que
quer um "filé com popozão" |
A informação foi divulgada pelo secretário
municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Sérgio
Arouca, com base nos depoimentos de garotas atendidas em dois
hospitais. "É comum, em casos de gravidez de adolescentes,
perguntarmos quem é o pai da criança. As duas
meninas disseram que não sabiam quem era o pai porque
haviam mantido relações com vários meninos
durante um baile funk", disse Arouca. A modalidade deu até
origem a uma expressão: "engravidei do trenzinho",
referência aos movimentos de dança coletiva que
dispensam explicações. Uma das jovens grávidas
também é portadora do vírus da Aids,
motivo de alarme muito maior. "A história é
gravíssima e nos preocupa. Se for uma prática
constante, a possibilidade de gravidez indesejada e de contaminação
por doenças sexualmente transmissíveis, além
da Aids, é uma coisa fantástica", alertou o
secretário de Saúde. Detalhe: Arouca é
um médico e pesquisador respeitado, com impecáveis
credenciais de esquerda (pertenceu ao Partido Comunista até
1991, quando saiu para seu substituto pós-Muro, o PPS)
e não um ferrabrás direitista disposto a caluniar
uma diversão popular.
Filé com popozão O caso da "gravidez
do trenzinho" deu alento a uma vaga e, até agora,
inócua reação antifunk. Também
abriu uma série de perguntas de difícil resposta.
Afinal, jovens fazem sexo durante um baile funk? As meninas
sentam-se, sem calcinha, no colo dos rapazes numa versão
explícita da dança das cadeiras e daí
as ocorrências de paternidade anônima? Pior ainda,
são constrangidas a aderir ao sexo coletivo por pressão
social, para serem aceitas nas turmas, chamadas de "bondes"?
Sexo praticado abertamente não se vê nos bailes,
pelo menos aos olhos de testemunhas de fora do ambiente. O
trenzinho é parecido com o iniciado na cultura clubber:
ao som da música ensurdecedora, rapazes e moças
se esfregam no meio do salão. Na versão mais
ostensiva da dança das cadeiras, as meninas "apenas"
simulam o ato sexual diante dos tigrões sentados, quando
pára a música (os rapazes também fazem
coreografias lascivas, inclusive imitando sexo oral).
"Essas
acusações são um absurdo", diz Verônica
Costa, 25 anos, eleita vereadora no ano passado com 37.000
votos, com base no prestígio angariado em bailes que
promove com o marido e principal empresário funkeiro,
Rômulo Costa, dono da equipe de som Furacão 2000.
A polêmica funk reina no próprio seio da família
Costa. Rômulo com passagem na cadeia por suspeita
de envolvimento com tráfico de drogas e prostituição
e Verônica são pais do menino Jonathan,
de 7 anos, o precoce intérprete da canção
em que se diz na idade de pegar "um filé com popozão".
O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro
entrou com uma representação no Juizado de Menores
e conseguiu uma decisão judicial proibindo Jonathan
de se apresentar publicamente cantando seu funk e de acompanhar
os pais nos bailes. "Meu filho não vai mais falar em
potranca, filé ou popozão só porque o
juiz não quer", indigna-se Verônica, que acha
o vocabulário normalíssimo para a idade dele.
Será que é? Muitos pais, diante da força
dos apelos de teor erotizante, ficam na dúvida. Os
especialistas, em geral, tendem para uma posição
mais conservadora. A professora Leila Cury Tardivo, do Instituto
de Psicologia da USP, afirma que propalar atos de natureza
sexual não é comportamento a ser incentivado
na faixa etária de Jonathan ou mesmo acima dela. "A
pré-adolescência é uma fase de preparação
para a sexualidade, não para a execução
dela", diz Leila. "Saltá-la é como tirar uma
fruta verde do pé", compara.
Ricardo Fasanello/Strana
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| MC
Beth: sucesso apregoando que "só um tapinha não dói" |
A sensualidade é um dos traços mais ricos e
constantes da cultura brasileira. Gilberto Freyre, autor de
Casa-Grande & Senzala, escreveu que os colonizadores
portugueses chegaram aqui prontos para liberar sua sexualidade
e prontamente partiram da intenção aos
fatos. Na Bahia do período colonial, chegou-se a pedir
ao rei de Portugal que proibisse que as negras andassem pelas
ruas, por excesso de decotes e requebros. Quer dizer, no vai-e-vem
das calçadas, a vida pública já registrava
um tipo de apelo sexual considerado explícito demais.
Hoje, com televisão e internet, sexo é praticamente
uma constante, uma marca nacional. "Nos Estados Unidos, você
liga a televisão e o que se vê é violência.
No Brasil, é sensualidade", compara o antropólogo
Roberto DaMatta.
O resultado são crianças, titias e vovós
fazendo trenzinho ao som do Tigrão em festinha de aniversário
de 3 anos. De um lado, a transformação de danças
eróticas em atividade em família ameniza seu
impacto, dando-lhes um caráter de brincadeira. De outro,
a enxurrada de apelos explicitamente sensuais produz modelos
de comportamento de arrepiar os cabelos nas cabeças
mais liberais. O problema, argumentam os especialistas, não
é que meninas em formação queiram usar
calças de cintura bem baixa (modismo irresistível)
e chacoalhar o corpinho pré-pubescente é
que percebam isso como modo de ascensão social, em
detrimento do estudo e do esforço profissionalizante.
"Nos últimos anos, dei muitas palestras para estudantes
de 1º grau. Quando perguntava às meninas o que
elas queriam ser quando crescessem, a resposta era sempre
dançarina de axé, modelo ou apresentadora de
televisão. Isso é uma distorção
terrível", espanta-se a sexóloga Marta Suplicy,
prefeita de São Paulo. A preocupação
é tanta que outra cabeça liberal, a psicóloga
paulista Rosely Sayão, aconselha os pais a simplesmente
não permitir que os filhos adolescentes freqüentem
bailes funk. "O adolescente é inconseqüente, não
entende o lado lúdico da dança e acha que já
é capaz sim de transar, fazer o que quiser", afirma.
"Há muita leniência por parte dos pais. Eles
têm de deixar de ser coniventes com o que os filhos
fazem", emenda Marta Suplicy.
Adianta? "Os jovens já estão transando há
muito tempo", responde o cantor Mr. Catra, autor de Me
Ter É Bom, constatando o óbvio. Moradora
do subúrbio carioca de Inhaúma, Patrícia
Orestes, 19 anos, freqüenta o baile de uma favela na
Zona Oeste à revelia da família. "Meu pai não
sabe que venho aqui. Digo que vou a outro lugar", conta ela,
que tem um namorado "que não quer nada sério".
Fabiano Gonçalves, 23 anos, cantor de funk, também
namora, mas admite que sai com outras meninas e que às
vezes rola uma transa, nem sempre de camisinha. "Venho para
o baile preparada para dar beijo na boca", avisa Aline Quintes
da Silva, 19 anos, moradora da favela de Rio das Pedras. "Mas
não gosto de namoro sério." Os rapazes contam
que ficam com uma, duas, três meninas em uma mesma noite.
"A gente pega todas as garotas que se interessam pelo nosso
jeito de dançar", fazem coro os estudantes Eduardo
de Souza e Marcelo Santiago, ambos de 19 anos. O próprio
Leandro Dionísio dos Santos, 20 anos, estrela do Bonde
do Tigrão (Vou passar cerol na mão etc.),
administra duas futuras e concomitantes paternidades, com
uma garota grávida de seis e outra de sete meses. Nenhuma,
ressalva, da dança das cadeiras.
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Rebolar
é preciso
Casal
agarrado ou mulher seminua em
rebolado sensual ao som de um ritmo forte
e letra com duplo sentido. Quem ainda
não viu este filme no Brasil, a
terra do sexo-música? As danças vão
e vêm
ao sabor dos quadris sacolejantes, chovem
reclamações e, no fim, tudo passa
Ricardo Chvaicer
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Armando Gonçalves
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| CARNAVAL
O apelo erótico do samba desembocou em nudez
no Sambódromo nos anos 90, com TV e tudo.
Idéia de Joãosinho Trinta: "Foi uma
forma de mudar, uma ousadia" |
LAMBADA
Esta gafieira moderna adquiriu um caráter família:
marido e mulher se agarravam sem pudores na pista.
Em 1990, boa parte do planeta imitava a Bahia e
lambava lascado |
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| DANÇA
DA GARRAFA A dançarina de perna
aberta sobre a garrafa matou o duplo sentido. "Hoje
há um sentido único, que é
pura grosseria", definiu o crítico José
Ramos Tinhorão |
SEGURA
O TCHAN O retrato da melodia-serviço:
"Bota a mão no joelho, dá uma abaixadinha,
vai mexendo gostoso..." Crianças disputavam
na TV quem fazia melhor
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As
cachorras de lá
O
funk é, ninguém nega, uma expressão
genuína dos subúrbios do Rio de Janeiro.
Mas seu processo de fabricação tem menos
a ver com o de outros gêneros populares brasileiros,
como o axé, e mais em comum com a dance music
e o rap americanos. O parentesco com o bate-estaca dance
salta aos ouvidos: o funk carioca é cria direta
do Miami bass, ritmo surgido na Flórida nos anos
80, distante do funk clássico de um James Brown
e caracterizado pela batida forte. Já com o rap
a semelhança é mais, por assim dizer,
conceitual. Ambos têm letras carregadas de obscenidades
e machismo (mais raivosas e explícitas lá,
mais malandras aqui), cantadas por personagens controvertidos
e saídos de bairros pobres embora, nesse
ponto, um oceano de diamantes e casacos de visom separe
os bem-sucedidos rappers americanos dos funkeiros cariocas.
Os "versos" da desbocada Tati Quebra-Barraco são
tão impublicáveis quanto os das "cachorras"
do hip hop americano, como Eve, Foxy Brown ("Use sua
língua para achar meu ponto G", diz ela, num
momento mais leve) e a mais escandalosa de todas, Lil'
Kim. A bronca contra mulheres e homossexuais é
tema caro ao rapper americano de maior sucesso no momento,
o "tigrão" branquelo Eminem.
Os
grupos de funk não tocam nenhum instrumento.
As bases sonoras são feitas em estúdio,
usando o sampler, aparelho que permite copiar trechos
de músicas e reciclá-los numa canção
nova. "Às vezes o refrão é bom,
mas o resto nem tanto, e a parte ruim é jogada
fora", explica o DJ Marlboro, um dos produtores mais
requisitados do funk carioca. Assim como na dance music,
fabricar sucessos isolados vale mais que investir na
carreira de cada artista, e raríssimos se destacam,
como o Bonde do Tigrão, cujo CD, segundo a gravadora
Sony, acaba de atingir a marca das 100 000 cópias
vendidas. No auge da febre funk atual, o campeão
de vendas é uma coletânea da equipe de
som Furacão 2000, Tornado Muito Nervoso 2,
que já dobrou a marca das 350 000 cópias.
Em vez de fotos dos artistas, o que se encontra no encarte
são mensagens da vereadora popozuda Verônica
e de seu marido, Rômulo, dono da Furacão.
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