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REAL POR MÊS
O preço da vida de uma criança
Com
pouco dinheiro, a cruzada da
doutora Zilda Arns salva a vida de
milhares de bebês pobres no Brasil

Silvio
Ferraz
Antonio Milena
 |
| A
doutora Zilda Arns entre duas crianças atendidas
pela pastoral em São Paulo |
Nascida
sob fogo cruzado tanto da esquerda quanto da própria
Igreja, a Pastoral da Criança firmou-se como obra suprapartidária
e ecumênica. "A esquerda criticava por não lutarmos
por saneamento. A Igreja, porque pesávamos crianças
em vez de evangelizar", lembra a médica pediatra catarinense
Zilda Arns Neumann, corpo e alma da pastoral. Sua obra já
cruzou as fronteiras brasileiras. Está sendo desenvolvida
em outros dez países, dos quais três africanos
e sete latino-americanos. Neste ano, 22 delegações
internacionais chegam ao Brasil para observar o trabalho e
adaptá-lo a seus países. Em Angola, no porto
de Lobito, de onde vieram os escravos para o Brasil, a própria
doutora Zilda treinou duas dezenas de voluntários.
No ano passado, ao voltar, encontrou 400 deles espalhados
por todo o território angolano.
Irmã de dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito
de São Paulo, a doutora Zilda concorreu com uma lenda
viva, o líder sul-africano Nelson Mandela, e ganhou
o prêmio Direitos Humanos Internacional. Foram 200.000
dólares injetados na obra, que ela doou integralmente.
"Isso não é mais que um dever", conta. Viúva,
cinco filhos criados, a doutora Zilda só se permite
descansar quando tem os sete netos a sua volta, deitados em
sua cama ou passeando pela praia, contando e ouvindo histórias.
"É a hora em que ouço a vida." Neste ano sua
obra foi oficialmente indicada pelo governo brasileiro para
concorrer ao Prêmio Nobel da Paz.
Irmã
Elizabeth Alves desembarcou em Piraí sabendo que enfrentaria
um desafio africano: ali morriam 47 crianças em cada
grupo de 1.000. O município
era um dos trinta com maior incidência de mortalidade
infantil no país. A religiosa reuniu algumas moradoras
da periferia mais pobre da cidade e convocou-as a participar
de um combate. Era 1993. Ensinou técnicas de pré-natal
e de alimentação de recém-nascidos. Passado
um ano, o índice já despencava. Em dois, a mortalidade
foi à lona. E lá se mantém. Desde então,
nas áreas atendidas pela irmã Elizabeth e por
sua equipe da Pastoral da Criança no Vale do Paraíba,
o índice de mortalidade infantil é igual ao
das áreas mais elegantes de Manhattan, de Berlim ou
de Paris: zero. Esse número mágico não
leva em conta as mortes acidentais de bebês nem aquelas
provocadas por defeitos congênitos inabordáveis
cirurgicamente. O zero se refere àquele tipo de morte
tão freqüente no interior pobre do Brasil, a provocada
pela fome, pelas infecções comuns e pela desidratação.
Há dezoito anos a doutora Zilda tem dedicado a vida
a acabar com a morte precoce de bebês pobres no Brasil.
Graças a ela, o trabalho da irmã Elizabeth Alves
irradiou-se. Nas cidades vizinhas, como Volta Redonda e Barra
do Piraí, o índice de mortalidade é zero.
Também é zero em 2.000
outros municípios brasileiros onde antes a miséria
e os maus hábitos de higiene ceifavam a vida de centenas
de milhares de crianças. Embrenhados nos rincões
ou nas periferias pobres das capitais, 145.000
voluntários da cruzada da doutora Zilda Arns, 90% dos
quais favelados, conseguiram que o índice trágico,
em suas áreas de atuação, ficasse abaixo
de doze crianças a cada 1.000
nascidas vivas. Na Alemanha, o índice é de cinco
por 1.000. Nos Estados Unidos,
sete, e em Cuba, nove. Enquanto isso, o índice oficial
brasileiro alcança 35. Por ano, o trabalho da pastoral
impede que 5 000 crianças morram. A façanha
sem precedentes levou o governo brasileiro a patrocinar com
entusiasmo a candidatura da pastoral ao Prêmio Nobel
da Paz. Seu mais poderoso cabo eleitoral, presume-se, é
o papa, que recebeu a doutora Zilda numa audiência privada
no mês passado.
Oscar Cabral
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| Pesagem
de bebês: soluções simples que funcionam |
Trabalha-se com muito pouco, quase nada, na campanha contra
a morte infantil. Não se constroem sedes nem ambulatórios.
Algumas poucas pessoas recebem ajuda de custo quando se dedicam
totalmente à pastoral. Até o ano passado a doutora
Zilda coordenava tudo de sua própria casa, em Curitiba.
Só assim consegue o milagre de gastar apenas 1 real
por mês para cada uma do 1,6 milhão de crianças
assistidas. "Se a obra que elas fazem fosse feita pelo governo,
não sairia por menos de 140 milhões de reais",
estima o ministro José Serra, da Saúde. A pastoral
faz o serviço por 17 milhões de reais por ano.
Só 2 em cada 10 reais vêm de doações.
O governo banca o resto.
Os
meios para combater a mortalidade são rudimentares.
Mas são eficazes exatamente porque as causas da mortalidade
são simples. Todo mês os bebês são
pesados numa balança igual à dos pescadores.
"Projetamos uma balança que até pendurada num
galho de árvore é confiável", conta a
médica. No dia do "ver-o-peso", o trabalho das voluntárias
mostra múltiplas atividades. Umas pesam os bebês,
outras verificam a situação de nutrição
da criança por meio de uma fita-medida passada no antebraço,
outras espalham conselhos e vacinas. Tudo é motivo
para agregar mães e repassar os ensinamentos básicos
da luta contra a mortalidade.
Em
Piraí, nesse dia, a "Brincalhona", um ônibus
de segunda mão doado pelos empresários da cidade
e recondicionado pela prefeitura, traz uma equipe de psicólogos
voluntários que apresentam um show de circo e divertem
a criançada. Aproveitam para observar clinicamente
seu comportamento. "Crianças tímidas ou agressivas
podem estar apanhando em casa", conta a voluntária
Nominanda Estevão Citeli, mãe de três
filhos, casada com um metalúrgico aposentado. Há
três anos, ela e o marido adotaram Daniel, um bebê
que foi abandonado subnutrido em Eucaliptol, bairro pobre
de Volta Redonda. A jovem mãe Glacy Aparecida de Souza
Farias, 19 anos, é uma de suas lideradas. Com amplo
sorriso exibe a filha Ana Carolina, com 6 meses e 10 quilos
bem distribuídos. Nas reuniões dos Vigilantes
do Peso, nas quais a meta é emagrecer, cada grama perdido
é saudado com palmas. Na pastoral, cada grama conquistado
faz vibrar a torcida de mães. A nutrição
é garantida pela "multimistura", alimento já
chamado de "milagroso" no interior, desenvolvido pela médica
Clara Takaki há vinte anos, em Santarém. Sua
observação sobre o teor nutritivo de certas
raízes, frutos e vegetais levou-a a combiná-los
sob a forma de farinha e administrá-la em crianças
subnutridas. Deu certo. Elas começaram a ganhar peso
e seu estado nutricional estabilizou-se. Simples. Barato.
Mas nunca havia sido tentado antes. Mesmo que não ganhe
o Nobel, a doutora Zilda terá seu lugar assegurado
na História recente do Brasil.
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