O 1º
zero nunca se esquece
Os
brasileiros compram cada vez mais
carros novos e de melhor qualidade
Cristiana
Baptista
Renato Chaui
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Alguns
dados recentes sobre o desempenho da indústria automobilística
no Brasil são reveladores. Nos últimos dez anos
suas vendas dobraram. O setor cresceu quatro vezes mais do
que a produção brasileira de uma maneira geral.
O número de pessoas que compraram como primeiro carro
um modelo zero quadruplicou. Gente que antes nem ousava sonhar
com um veículo novinho em folha agora consegue financiamento
e sai da concessionária montada num carrão a
ser pago em suaves prestações. E o que é
melhor: comparados aos de alguns anos atrás, os atuais
estão mais baratos e muito mais bem equipados. O salto
da indústria automobilística brasileira, portanto,
foi quantitativo e qualitativo. E foi enorme.
O fenômeno tem duas linhas de explicação.
A primeira diz respeito à economia brasileira como
um todo. Desde que a inflação foi abatida pelo
Plano Real, em 1994, o poder aquisitivo das pessoas aumentou,
as famílias puderam planejar melhor suas despesas e
o crédito ficou mais fácil. A estabilização
econômica provocou aumento no consumo nas mais diversas
áreas, o setor automobilístico entre elas. Na
mesma época, o mercado brasileiro foi aberto a produtos
importados. O choque provocado pela comparação
entre carros nacionais, antiquadíssimos, e ultramodernos
estrangeiros, não só em termos de qualidade
mas também de preço, não deixou alternativa
aos fabricantes instalados no país. Ou eles investiam
pesado para oferecer ao público um produto competitivo
ou perdiam mercado.
Aí entra a segunda linha de análise que permite
entender a atual disparada dos veículos no Brasil.
No início dos anos 90 surgiram os carros populares,
um tipo de automóvel com motor de 1.000
cilindradas, despido de apetrechos supérfluos, cuja
produção foi estimulada pelo governo com uma
redução nos impostos. Desde 1997 oito novas
montadoras instalaram-se no país. Cerca de 20 bilhões
de dólares foram investidos na construção
de fábricas, no aprimoramento tecnológico das
velhas linhas de montagem e no desenvolvimento de novos produtos.
A soma dessas parcelas resultou numa queda média no
preço ao consumidor da ordem de 9%. Para os brasileiros
adeptos das quatro rodas não podia haver situação
mais estimulante. Uma multidão de gente foi às
compras. No ano passado, 270.000
pessoas que tinham carro, mas costumavam trocá-lo de
tempos a tempos por um usado um pouquinho menos velho, passaram
a ser felizes proprietárias de automóveis zero-quilômetro.
Uma pesquisa feita pelas montadoras revela que o consumidor
que ganha até 4.000 reais
por mês responde por 82% do aumento das vendas nos últimos
dez anos. E que a maioria deles faz a compra a prazo.
Até
o advento do carro 1.0, as ruas brasileiras estavam coalhadas
de Fusquinha, Brasília, Corcel e Opala. A frota do
país estava batendo lata. Hoje há mais veículos
em circulação e eles são bastante mais
modernos (veja quadro ao lado). Um passeio pela história
do país, no quesito automóveis, pode ser útil
para se ter uma idéia da revolução. Cinqüenta
anos atrás carros eram equipamentos de milionários.
Eram enormes banheiras importadas que consumiam muito combustível,
andavam pouco e possuíam uma mecânica complicadíssima.
Tinham acabamento em madeira, bancos de mola, câmbio
com apenas três marchas. Nos anos 60, a indústria
automobilística desembarcou no Brasil. Foi o tempo
do DKW, do Gordini, do Aero-Willys e do Opala. Acontece que
a indústria brasileira foi protegida contra a competição
externa e acomodou-se. Alguns modelos, como a Kombi, da Volkswagen,
chegaram a sobreviver trinta anos no mercado. O Opala de 4
cilindros fabricado no Brasil até 1980 carregava um
motor caquético da década de 40.
A virada tecnológica foi resultante da abertura de
mercado. A arrancada comercial é efeito, principalmente,
dos carros populares, de preço mais acessível.
E a novidade mais sensacional, do ponto de vista do consumidor,
é que esses tais populares, ainda com motor 1.0, deixaram
de ser veículos simplesinhos. Hoje, estão equipados
com a última palavra em equipamentos de segurança
e conforto. São bólidos com motor de 16 válvulas
turbo, direção hidráulica e ar-condicionado.
Todos têm injeção eletrônica e freios
ABS. O carburador e o freio a lona foram para as calendas
gregas. Está certo que, com tudo isso, custam mais
que o popular original, que ainda está em oferta. Mas
a procura por carros de 1.000 cilindradas
com cara de automóvel de luxo está em alta.
Claudio Rossi
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Claudio
Rossi
A estudante Júlia Ribeiro, paulista de 18 anos,
teve uma surpresa de presente de Natal. Ganhou o zero-quilômetro
que queria. Como seu pai tinha estabelecido que Júlia
poderia escolher um automóvel popular, ela pesquisou
o que havia em oferta e optou por um Clio 1.0, da Renault,
com ar-condicionado, banco de couro, som com CD e vidro
elétrico, entre outras coisas: "Chorei de emoção.
Não esperava um carro tão bonitinho. Ele
tem tudo!" |
Nas últimas semanas a constatação dessa
mudança no perfil do carro popular provocou um debate
esquentado em Brasília. O governo estuda a possibilidade
de encerrar o incentivo que dá à produção
dessa categoria de automóvel. A intenção
da Secretaria da Receita Federal é substituir o abatimento
de imposto sobre produtos industrializados que oferece aos
1.0 por uma redução generalizada na taxa, que
unificaria a alíquota de imposto, para todos os tipos
de automóvel, em torno de 16%. O raciocínio
do secretário da Receita, Everardo Maciel, é
o seguinte: "A produção do popular ocupa boa
parte da capacidade da indústria e impede que se façam
carros que poderiam estar sendo exportados". Para as montadoras,
entretanto, a equação não é assim
tão fácil de resolver. Seus estudos apontam
que uma medida como essa aumentaria em cerca de 800 reais
o preço dos modelos com motor 1.0, o que dificultaria
a vida dos consumidores de menor renda, gerando uma queda
de 16% nas vendas. E não haveria esforço de
exportação que desse conta desse prejuízo.
Como perderiam as montadoras e os consumidores, o próprio
secretário Maciel admite: "A solução
do problema não será rápida".
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