O risco
Colômbia
O presidente do país conta como
é viver
com
guarda-roupa à prova
de bala e
ainda enfrentar críticas de ser afável
com a guerrilha
Raul
Juste Lores, de Bogotá
Cesar Carrion/Ancol

|
"Meu
filho quis saber por que eu usava tanto colete protetor.
Disse que era porque eu nunca sabia com certeza se voltaria
para casa" |
O
presidente colombiano Andrés Pastrana Arango, de
46 anos, chegou ao poder em 1998 com uma ambiciosa missão:
pacificar a Colômbia, líder mundial nas estatísticas
de assassinatos e seqüestros, devorada pelo narcotráfico,
por guerrilhas de esquerda e militares de direita. Apesar
de conseguir convencer as Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia (Farc) a dialogar com o governo, Pastrana
é criticado por fazer concessões aos guerrilheiros
sem receber nenhuma oferta de cessar-fogo do outro lado.
A maior delas foi a criação de uma zona desmilitarizada
do tamanho da Suíça, entregue ao controle
das Farc. Mesmo com o apoio americano ao governo no combate
ao narcotráfico, pouco mudou na rotina da violência
em 2000, foram mais de 3.000
seqüestros, além de atentados contra ferrovias
e oleodutos. Alinhado com o Partido Conservador, apresentador
de um telejornal nos anos 80, ex-prefeito de Bogotá
e filho de ex-presidente, ele recebeu VEJA na Casa de Nariño,
o palácio presidencial, em Bogotá.
Veja
O senhor sentiu medo ao ir à zona controlada
pelas Farc?
Pastrana
Não. Fui num fim de semana antes e sem segurança,
para ver de perto a região. Visitei escolas, centros
de saúde, percorri várias estradas, conversando
com a população. Já conseguimos gerar
um mecanismo de confiança.
Veja Há uma alta taxa de mortalidade
de políticos colombianos. Assassinatos de prefeitos,
deputados, de candidatos a qualquer cargo. O senhor não
teme por sua vida ou pela de sua família?
Pastrana
Lógico. Fazer política aqui é completamente
diferente de outros países. Em 1988 fui seqüestrado
pelos narcotraficantes, conheci por experiência própria
a violência. Quando eu era filho de presidente, no
início dos anos 70, o país era totalmente
diferente. Eu andava com um guarda-costas. Meu filho Santiago,
de 18 anos, anda com vinte seguranças. Só
para comparar o risco. Quando fui seqüestrado, meu
pai fazia parte de um grupo, que se reunia uma vez por ano,
de europeus e latino-americanos. Participavam o brasileiro
José Sarney, o mexicano Miguel de la Madrid, o francês
Giscard D'Estaing e o canadense Pierre Trudeau. Trudeau
perguntou a meu pai, depois que fui liberado, se eu iria
voltar a fazer minha campanha para prefeito de Bogotá,
o que fiz imediatamente. Temor, temor, eu não tenho,
mas são necessários cuidados, o perigo sempre
está por perto. Com isso, chegamos a situações
que uma pessoa de fora mal conseguiria imaginar.
Veja O senhor poderia dar um exemplo?
Pastrana
Um dia eu estava vestindo um colete à prova de bala
e meu filho Santiago perguntou: "Pai, o que o senhor está
vestindo?". Tive de explicar-lhe que colocava aquela peça
porque nunca sabia se voltaria para casa no fim do dia.
Em outra ocasião, meu filho, que participava de uma
atividade no colégio, pediu para levar um colete
antibalas para mostrar a seus coleguinhas. Tenho cinco coletes,
casaco, paletós antibalas, tudo que você imaginar.
Aqui sempre vai haver esse perigo. Estamos em um país
em que o perigo continua latente, infelizmente, para quem
faz política. Sempre disse que, como candidato à
Presidência, nunca deixei de ir a uma cidade ou a
um povoado por possíveis ameaças que existissem.
Visitei todo o país, tomando as precauções
necessárias.
Veja O senhor esteve em Davos, na Suíça,
participando de um fórum que simboliza a globalização.
Depois, embrenhou-se na selva para discutir com os líderes
de uma guerrilha marxista, ao melhor estilo anos 60. Dá
para adaptar o discurso?
Pastrana
É muito importante esse diálogo. A globalização
trouxe diversos benefícios e alguns aspectos negativos.
Para compreendê-los, é preciso entrar em contato
com as mudanças que estão acontecendo no mundo.
Numa mesa de negociação temos de usar a mesma
linguagem. E, às vezes, a linguagem é muito
diferente porque a guerrilha vive há quarenta anos
na selva. Seus integrantes não perceberam que o mundo
agora é diferente.
Veja O que essa mudança de ares pode
representar?
Pastrana
É bom que a guerrilha vá à Europa,
inclusive para conhecer melhor a esquerda européia.
Uma vez eles foram convidados para um jantar pelo Partido
Comunista sueco. Os membros da comissão das Farc
saíram de lá dizendo: "Esses comunistas são
neoliberais". Estavam aterrorizados, foi um choque de realidade.
Falaram com prefeitos, viram o que é um Estado de
bem-estar social.
Veja Se o Plano Colômbia, desenvolvido
com os Estados Unidos, for completamente bem-sucedido, poderia
haver uma migração do cultivo de coca para
os vizinhos, como o Brasil?
Pastrana
Se os chefões brasileiros do tráfico já
estão aqui... O que faz o traficante Fernandinho
Beira-Mar aqui? Promove cultivos ilícitos. O problema
é de todos. Se os Estados Unidos não controlarem
o consumo, pode ser que a produção mude seu
endereço para qualquer vizinho. Temos de trabalhar
muito mais unidos. Se temos informação do
Brasil, podemos atuar. A coca está onde o Estado
não tem muita presença. Na fronteira com o
Equador, na selva peruana, pode ser na Amazônia brasileira.
Precisamos de políticas binacionais.
Veja Fernandinho Beira-Mar é caso isolado?
Ou o senhor tem informações de que há
redes de brasileiros com negócios aqui?
Pastrana
Olha, no início nem sabíamos quem era Fernandinho.
Depois nos demos conta de que era muito importante... Se
ele está aqui, pode haver mais pontes, claro.
Veja O que o senhor espera do Brasil em relação
ao Plano Colômbia?
Pastrana
O presidente Fernando Henrique Cardoso sempre esteve próximo,
com respeito, sem intervenção. No dia em que
dormi na zona rural com a guerrilha, Cardoso me ligou: "Estava
preocupado, cuide-se, como foi, conte-me". Foi emocionante
ver sua preocupação. O Brasil entende o Plano
Colômbia, temos de trabalhar de mãos dadas.
Estreitar as relações, trocar informações,
aproximar o trabalho dos militares. E criar mais mecanismos
para cuidar de nossas fronteiras.
Veja O senhor já passou metade de seu
mandato e até agora a guerrilha não fez nenhum
gesto para diminuir a violência. Fracassou o processo
de paz?
Pastrana
Vivemos
já quarenta anos de conflito interno na Colômbia.
Apesar das críticas, acho que avançamos muito.
Depois de décadas, as Farc decidiram negociar. Minha
maior aspiração é assinar a paz, avançar,
conseguir que seja um processo irreversível. Há
um elemento muito importante nos últimos meses, que
é a criação da Frente Comum pela Paz
e contra a Violência, que reúne todas as forças
políticas e traz uma mensagem segundo a qual a paz
é política de Estado. Não é
minha, nem de meu governo, é de todos os colombianos.
Seja quem for o próximo presidente, o processo de
paz não pode ser estancado. Temos de começar
a gerar acordos, senão o processo vai ficar mais
difícil.
Veja Se não houver acordo, o Exército
colombiano tem como reaver a zona desmilitarizada, controlada
pelas Farc?
Pastrana
Sim. Hoje temos um Exército totalmente diferente.
Um Exército para a paz, mas preparado para a guerra,
se necessária. Se fracassarmos, teremos de regressar
ao que já vivemos nos últimos quarenta anos.
Perguntam-me qual é o plano B do governo. E eu respondo
que já estamos aplicando o plano B, que é
o processo de paz. O plano A seria a confrontação,
é a guerra, que já tivemos. O Exército
hoje é totalmente diferente daquele que tínhamos.
É muito mais forte. Passamos de 18.000
soldados profissionais. Ao final de meu governo, serão
55.000, uma força com
maior capacidade e mobilidade. O Exército está
preparado para defender a vida, a ordem e os bens dos colombianos
Veja
O governo não fez muitas concessões,
como a zona desmilitarizada, sem que as Farc dessem nada
em troca?
Pastrana
A
zona de distensão não é uma concessão.
É um meio, um mecanismo para criar um processo de
negociação. O fundamento dela é que
as partes envolvidas possam dialogar. Criamos um lugar onde
as Farc, o governo, os meios de comunicação
e a comunidade internacional podem relacionar-se. Para a
Colômbia, é uma área pequena, para o
Brasil, menor ainda, mas para a mídia internacional,
para a União Européia, é do tamanho
da Suíça, ou o dobro de El Salvador. Nessa
área, não vivem mais de 100.000
pessoas. O fato é que quisemos gerar um espaço
em que pudéssemos conversar.
Veja Ela é reversível, portanto?
Pastrana
Às vezes, há a percepção, dentro
e fora da Colômbia, de que a zona de distensão
é uma incisão do território colombiano.
Essa zona foi estabelecida por decreto e, pelos acordos
que fizemos, se eles tomam a decisão de interromper
o processo, nos avisam 48 horas antes, e vice-versa. Em
qualquer momento eu posso acabar com a zona de distensão.
Se houver elementos que digam que a zona não é
sustentável, o presidente tem a faculdade constitucional
de acabar com ela.
Veja Até quando os colombianos continuarão
suportando 3.000 seqüestros
por ano e as maiores taxas de homicídios do mundo?
Pastrana
Não quero com isso defender as Farc, mas elas são
responsáveis por 30% dos seqüestros...
Veja A guerrilha terceirizou os seqüestros,
recomprando os reféns dos delinqüentes comuns...
Pastrana
Também
há isso. O que fizemos foi implementar programas
completamente diferentes de segurança. Mas há
problemas de segurança pública que não
têm nada a ver com a guerrilha. Temos de ir avançando
em diferentes temas. Em acordos humanitários, em
respeito ao direito internacional. Se você compara
o processo de paz na Colômbia com o de outros lugares,
nós avançamos muito. O mundo exige muito mais
da Colômbia que de outros processos. Em El Salvador
demoraram um ano para definir a metodologia da mesa de negociação.
Na Guerra do Vietnã, as negociações
em Paris levaram mais de um ano só para definir como
seria a geometria da mesa, retangular, redonda, quadrada,
no ano em que mais americanos morreram na guerra. Na Colômbia,
com as Farc, em duas reuniões decidimos como seria
o processo. No último encontro que tivemos com a
guerrilha, ficou claro que vamos poder avançar rapidamente
nos acordos humanitários e no respeito ao direito
internacional.
Veja O senhor encontrou-se com um chefe guerrilheiro,
Marulanda. Não acha que isso significa legitimar
um comandante de guerrilha como se fosse um chefe de Estado?
Pastrana
Se
você passar em revista os últimos processos
eleitorais na Colômbia, vai verificar que a sociedade
civil promoveu o que foi chamado "mandato pela paz". Significava
que quem fosse eleito presidente em 1998 teria de buscar
a paz. O problema econômico era secundário.
Todos nós aceitamos isso em conjunto. Para me julgar
como presidente, teria de se perguntar: "O que fez o senhor
pela paz?" É o mandato que me entregaram. Disse que
o primeiro ato de meu governo seria me reunir com a guerrilha.
Foi o que fiz em julho de 1998, assim que assumi. É
um problema de quarenta anos e eu quis lhes falar pessoalmente.
Veja De quem é a maior responsabilidade
pelo tráfico de cocaína: da Colômbia,
como produtora, ou dos Estados Unidos, os maiores consumidores?
Pastrana
Enquanto os Estados Unidos consumirem, alguém lhes
fornecerá a droga. Temos de trabalhar em uma política
integrada. É o que falo quando me refiro ao Plano
Colômbia. Em vez de ficarmos com o dedo acusador,
por que não juntamos forças? Podemos trabalhar
em conjunto em várias frentes, para que não
entrem armas aqui através da Venezuela, para que
não cheguem insumos pelo Brasil. Veja só,
o Fernandinho Beira-Mar está por aqui. Na quarta-feira,
capturamos sua mulher aqui em Bogotá. Os países
têm interesses entrelaçados no combate ao tráfico.
Veja O senhor é a favor da legalização
das drogas, para simplificar a comercialização,
cair o preço e o peso do negócio?
Pastrana
Hoje temos um elemento importante, que é o que aconteceu
na Holanda. Temos de combater a droga, afinal é um
problema mundial, é o segundo negócio do mundo.
A droga pode ser um negócio de 500 bilhões
de dólares, mas esse dinheiro não fica na
Colômbia, isso está claro. Esse dinheiro vai
para outros países. Eu sempre insisti que, sem a
planta de coca, não há cocaína. Mas
também vale lembrar que, sem os insumos químicos,
também é impossível fabricar a droga.
Éter, acetona, substâncias usadas na elaboração
da coca, vêm da Europa. Se os países europeus
controlassem o contrabando desses insumos, não teríamos
a droga. Meu governo gasta pouco mais de 1 bilhão
de dólares por ano para combater o narcotráfico.
E somos um país pobre. Esse dinheiro poderia ser
gasto em mais escolas, mais hospitais. Gastamos aqui para
proteger os jovens em Nova York, os jovens no Primeiro Mundo.