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DISCOS

You Had It Coming, Jeff Beck (Sony Music) – Ex-companheiro de banda de Eric Clapton e Jimmy Page, Jeff Beck ganhou notoriedade por extrapolar os limites da sua guitarra. Nos anos 60, ele praticamente criou o rock pesado com o álbum Truth (1968). Nas décadas seguintes, flertou com o jazz e o funk. A ousadia pode não ter rendido cifras milionárias, mas deu a Beck um lugar de destaque como um dos "gigantes da guitarra". You Had It Coming prova que o músico, de 56 anos, não se acomodou. Agora, aposta na música eletrônica. Ele dá mostras de virtuosismo ao introduzir fartos solos de guitarra entre os bips que caracterizam o gênero. Para os tradicionalistas, Jeff Beck ainda reserva um blues arrepiante (Rollin' and Tumblin') e uma balada influenciada pela música indiana (Nadia).

Meat Puppets II e Up on the Sun, Meat Puppets (Trama) – O grupo Meat Puppets batizou seu estilo de country punk. Nada mais é do que música caipira americana turbinada por influências que vão do trio de blues ZZ Top aos endemoniados roqueiros do Black Sabbath. A mistura pode parecer indigesta, mas as canções da banda inspiraram gente de respeito do rock, como Kurt Cobain e os integrantes do R.E.M. Meat Puppets II e Up on the Sun são os destaques de um pacote de oito CDs do trio que está sendo lançado no Brasil. O primeiro é mais pesado e traz as canções Plateau, Oh, Me e Lake of Fire, que o Nirvana gravou em seu disco acústico de 1994. Em Up on the Sun, as guitarras dividem espaço com baladas country, melodias psicodélicas e até mesmo funk.

 

LIVRO

Roa Bastos: jóia da literatura paraguaia

Contravida, de Augusto Roa Bastos (tradução de Josely Vianna Baptista; Ediouro; 208 páginas; 19,90 reais) – Dentre os grandes escritores da América Latina, o paraguaio Roa Bastos é um dos menos conhecidos no Brasil. Pior para o Brasil. Bastos sempre cultuou o passado mítico de seu país, compondo uma obra que já foi comparada à de Guimarães Rosa (de quem foi amigo), Juan Rulfo e Gabriel García Márquez. Contravida, de 1994, não foge à regra. O protagonista, um preso político, é o único a sobreviver de uma fuga da cadeia. Tido como morto, ele volta à terra natal e rememora passagens de sua vida numa pequena aldeia, onde ainda é forte a presença da cultura guarani. Escrito num ritmo ágil, o livro tem uma atmosfera onírica e alta voltagem poética.

 

TELEVISÃO

Columbia Pictures
Lawrence da Arábia: clássicos que ganharam o Oscar na telinha


Grandes Clássicos do Oscar
(1º a 31 de março, às 22h, no Telecine Classic) – Em março, a pretexto de ser o mês do Oscar, pipocam na TV filmes antigos premiados com a estatueta. Este festival não foge à regra, mas tem a vantagem de apresentar títulos inéditos e outros pouco reprisados, numa seleção de qualidade. O pacote de 31 fitas começa com um drama do cinema mudo – A Última Ordem (1928), protagonizado pelo ganhador do primeiro Oscar de ator, o suíço Emil Jannings. Há ainda atrações como O Indomado (1963, sexta), com Paul Newman, e o épico Lawrence da Arábia (1962, dia 31).


Divulgação
João do Rio: dândi


João do Rio
(quinta e sexta às 22h30 no GNT) – João do Rio – pseudônimo do jornalista Paulo Barreto (1881-1921) – foi uma figura controversa da vida carioca no início do século XX. Homossexual, ele causava espécie com seu estilo de dândi espalhafatoso. Escreveu crônicas precursoras das colunas sociais de hoje, fez tradução e ficção e integrou a Academia Brasileira de Letras. Este programa em duas partes, narrado por Paulo José e Antonio Abujamra, é uma chance rara de conhecer o personagem. As imagens de época e os depoimentos compensam. A certa altura, por exemplo, a crítica teatral Barbara Heliodora entra em cena para compará-lo ao escritor Oscar Wilde, cuja homossexualidade escandalizou a Inglaterra – e de quem João do Rio traduziu várias obras.

 

LITERATURA BRASILEIRA

O Cânone Imperial
Flávio R. Kothe
Editora UNB,
608 páginas;
48 reais

Na crítica literária, a palavra "cânone" identifica um conjunto de textos consagrados. São as tais "grandes obras", das quais ouvimos falar na escola. Para alguns teóricos radicais, no entanto, a idéia de cânone é insidiosa. Listas de livros fundamentais, dizem eles, são ideológicas. Impostas pelos donos do poder, servem de instrumentos de dominação – e blá, blá, blá. Flávio R. Kothe, autor de O Cânone Imperial, é um representante dessa escola, que nos Estados Unidos deu origem ao pensamento politicamente correto. Segundo volume de uma trilogia, seu livro enfoca a produção de escritores românticos, realistas e naturalistas do país, bem como os trabalhos críticos a respeito deles. Do ponto de vista estético, segundo Kothe, a literatura brasileira seria no máximo medíocre. Do ponto de vista político, os autores seriam covardes ou acólitos de uma das sociedades "mais espoliadoras, antiiluministas e autoritárias do planeta", na sua descrição nada ideológica. Já os críticos seriam culpados por jamais expor esses podres, perpetuando a farsa.

Para Flávio Kothe, a obsessão com o problema da "brasilidade" envenenou o pensamento literário no país. A função de nosso cânone, diz ele, é traçar os contornos da identidade nacional. Assim, os construtores do cânone silenciaram as vozes dissonantes de índios, negros e imigrantes. Mais: por causa da fixação no problema da identidade, medir o valor artístico das obras nunca foi uma preocupação real. Se fosse, seria forçoso reconhecer que até o "gênio" Machado de Assis é um autor menor. Único antídoto, segundo Kothe: pôr abaixo o cânone nacional e expor o leitor a uma dieta de grandes obras estrangeiras, para fortalecer-lhe o juízo e abrir-lhe os olhos.

Defender a leitura de grandes obras é sempre um conselho excelente. O que Kothe não explica é por que a produção literária estrangeira resistiria melhor a seu tipo de leitura do que as obras brasileiras. A julgar pelos demolidores de cânones de outros países, a literatura consagrada de qualquer tipo é uma praga a ser esmagada. O ramerrão da denúncia ideológica feita por Kothe às vezes beira o ressentimento e a paranóia. Mais grave ainda é a generalidade de seu argumento. Atribuir a constituição do cânone brasileiro apenas à sede de poder de grupos intelectuais é uma tola caricatura. Além disso, nunca a melhor crítica brasileira – exemplificada, digamos, por Antonio Candido – deixou de reconhecer limitações graves, tanto estéticas quanto políticas, nos clássicos. Kothe se nega a ver isso: não quer dialogar com ninguém. Essa postura prejudica as passagens ricas de seu livro, quando a contestação de verdades estabelecidas é provocativa e não tola.

Carlos Graieb

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Livraria Curitiba, Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano.

 

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