Luiz
Felipe de Alencastro
Assombrações
mediterrânicas
"Esgarçados
entre Teerã
e Bagdá,
os
curdos também sofrem
perseguições
na Turquia e
apanham de
todo lado"
O
incidente do East Sea, navio que encalhou na Côte
d'Azur com centenas de refugiados curdos, assumiu um contorno
emblemático para a União Européia neste
começo de século. Na semana retrasada, numa
dessas manhãs ensolaradas que prenunciam uma bela primavera
e um grande verão, os franceses descobriram o espetáculo
dramático de 910 homens, mulheres e crianças,
algumas recém-nascidas, entulhados num xaveco de pavilhão
cambojano. Passaram-se uns dias e toda a complexidade do caso
estampou-se nas páginas dos jornais.
Para começar, surgiu o impasse jurídico. Pegas
de surpresa por este primeiro desembarque maciço
em seu litoral, as autoridades francesas se apressaram em
decretar a praia e o campo vizinhos onde os refugiados se
agruparam "zona de espera". Tal estatuto cria uma área
extraterritorial que permite expulsar rapidamente os estrangeiros,
se o pedido de asilo político for recusado. Ora,
representantes de ONGs e vários juristas questionam
a legalidade da medida, argumentando que os curdos já
se encontram em território francês. Portanto,
devem dispor do direito de estabelecer-se temporariamente
no país para impetrar recursos nas instâncias
judiciárias a fim de obter o asilo político
definitivo.
Em seguida, desenhou-se o teatro das complicações
geopolíticas. Os náufragos do East Sea
vêm de Mosul, cidade do Curdistão iraquiano
que está sendo objeto de uma arabização
forçada, ordenada pelo regime de Saddam Hussein.
O que explica a presença de médicos, advogados
e pequenos empresários curdos entre os refugiados.
Há 25 milhões de curdos, povo não árabe,
de origem indo-ariana, que compõe minorias no Iraque,
no Irã e na Turquia. Esgarçados entre as pressões
de Teerã e de Bagdá desde a guerra Irã-Iraque,
os curdos também sofrem perseguições
na Turquia e apanham de todo lado.
Circunstância que os torna simpáticos a muitos
europeus e os distingue dos clandestinos de outros países,
cuja motivação de pedido de asilo prende-se
a considerações econômicas. Na verdade,
o drama curdo prefigura o imenso problema político
e humano que surgirá na Europa mediterrânica
caso os integristas islâmicos venham a tomar o poder
na Argélia e, eventualmente, no Marrocos e na Tunísia:
haverá um êxodo dos setores liberais francófonos
desses países para a França, ex-potência
colonial na região, e, numa menor escala, para a
Espanha. Dá para perceber as razões que levam
a França a apoiar os regimes pouco democráticos
de Argel, Rabat e Túnis: o avanço islâmico
nos três países da África do norte,
povoados por 65 milhões de habitantes, tem-se afigurado
como uma perspectiva catastrófica para os governos
franceses de direita e de esquerda.
O problema tem incidências diretas na política
interna francesa. Temeroso das repercussões negativas
em setores franceses cujos sentimentos antiimigrantes são
notórios, o líder da maioria socialista no
Parlamento declarou que não era possível "dar
a ilusão e a esperança de uma integração"
dos passageiros do East Sea na França, pois
isso seria "uma formidável incitação
a todos os tráficos". Reação que o
editorialista do jornal Libération considerou
como uma "mesquinharia política".
A situação é paradoxal. De um lado,
os franceses preparam as primeiras eleições
municipais em que poderão votar os estrangeiros dos
outros países da União Européia residentes
na França. Desse modo, está sendo cumprida
mais uma etapa do processo de grande fôlego engajado
há meio século para formar na Europa uma espécie
de confederação de países prósperos
e pacíficos. De outro lado, a miséria e as
perseguições políticas acentuam-se
nos contornos do sul e do leste do Mediterrâneo, fazendo
a União Européia confrontar-se brutalmente
com a miséria dos vizinhos que a rodeiam. O verão
deste ano será complicado no sul da França.
Doravante, o espectro de outros náufragos de outro
navio fantasma como o East Sea ronda as praias sofisticadas
da Côte d'Azur.
Luiz Felipe de Alencastro é historiador
(lfa@workmail.com)