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Roberto Pompeu de Toledo

O Senado de 1860
e o de 2001

Se naquele tempo o país não estava
preparado para abolir a escravidão,
hoje não está
para abolir a corrupção

Que saudade de 1860! Claro, nem o leitor, nem o autor destas linhas, nem atual habitante algum do planeta viveu o ano de 1860, salvo o improvável caso de algum desgarrado de que a morte se descuidou. Mas a leitura de uma velha e conhecida crônica de Machado de Assis, O Velho Senado, em que o autor evoca o tempo em que, jovem repórter, esteve incumbido da cobertura das sessões do Senado do Império, dá saudade de 1860. "Nenhum tumulto nas sessões. A atenção era grande e constante", escreve Machado. "Os senadores compareciam regularmente ao trabalho. Era raro não haver sessão por falta de quórum." Eles pareciam pertencer a uma família – uma família "que se dispersava durante a estação calmosa, para ir às águas e outras diversões, e que se reunia depois, em prazo certo, anos e anos". Havia dissensões, "mas é próprio das famílias numerosas brigarem, fazerem as pazes e tornarem a brigar".

Qual o panorama do Senado hoje? Acusações tenebrosas. Ladrão para cá, corrupto para lá. Um ambiente que, se tem algo de família, só se for de família de mafiosos. O Senado perdeu a compostura e, de cambulhada, perdeu o rumo. Que acontece num país de opinião pública razoavelmente amadurecida em seguida a um episódio assombroso como a rebelião dos presos em São Paulo? Não se fala de outra coisa. Pois, se de fato muito se falou nisso – nas esquinas, na imprensa, nas casas –, o Senado foi exceção. Ali, e observe-se que se trata de uma casa do Parlamento, a caixa de ressonância por excelência dos regimes democráticos, o assunto era outro. Era, ainda e sempre, a briga dos senadores Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho. Antonio Carlos Magalhães fez um discurso todo dedicado a invectivar o adversário. Em resposta o líder do PMDB, Renan Calheiros, desfiou denúncias contra Antonio Carlos Magalhães. Não é para ter saudade do Senado de 1860?

A resposta, com perdão pela guinada de 180 graus, é: "não". Por trás da aparente civilidade daqueles tempos, escondia-se, e mal, a fatuidade. Brincava-se de parlamentarismo à inglesa num país de escravos. O Senado era como um salão de madame. Conta Machado que o senador José de Araújo Ribeiro mantinha um dicionário sobre o tapete, junto ao pé de sua cadeira. Sempre que ouvia, de um orador, um vocábulo que lhe parecia "de incerta origem ou duvidosa aceitação", recolhia o volume do chão, para conferir. Vigiava-se o idioma numa nação de senzalas, capitães-do-mato e golpes de açoite.

O regime era cínico como cafetão metido a fiscal dos costumes, o que nos traz de volta a 2001. O país mudou muito. Não é mais o fazendão de 140 anos atrás. Mas há traços que evidenciam continuidades perversas. O cinismo no Senado é um deles. Se é estranho que o senador Antonio Carlos se tenha erigido em paladino da moralidade, igualmente estranho, ou mais, é que a maioria do Senado tenha elegido Jader Barbalho, com todas as denúncias que lhe pesam sobre as costas, para dirigir a instituição. A maioria do Senado! Onde estava, e onde está, para citar um nome, o impoluto senador Pedro Simon dos memoráveis discursos em defesa da honestidade?

Isso quanto a uma parte do cinismo. Outra parte é o próprio fato de a atual batalha senatorial reclamar o enfoque de combate à corrupção. Um desavisado aprovaria. O Senado, imaginaria, engaja-se na tarefa de erradicar a sujeira em seus próprios quadros. Ocorre, e disso sabe até o velhinho que a morte esqueceu, aquele desgarrado sobrevivente de 1860, que, então como agora, o que está em jogo, de verdade, é o poder sobre nacos do Estado. O macróbio lembraria de Joaquim Nabuco, mais arguto do que Machado de Assis, em matéria política: "O fim dos partidos, entre nós, é explorar o governo, por outra, o tesouro público". A definição serve à perfeição à índole profunda de PMDB e PFL, os litigantes do momento.

O senador Barbalho, ao fim dos debates da semana passada, disse que daria provimento aos pedidos de investigação, de uma e de outra parte. Foi o ápice do cinismo. Pode-se estar muito enganado, mas o tiroteio de denúncias em que se envolve o Senado tem tudo para dar em nada, e isso por um motivo que nos remete outra vez a 1860. Naquele tempo, e é por isso que se evocou tanto o velho Senado, o país não estava preparado para abolir a escravidão. Ela se baseava num consenso amplo da classe dirigente. Hoje o país não está preparado para abolir a corrupção. Ela também se ampara num consenso amplo, que inclui não só políticos, mas muito mais gente. A conclusão parece chocante? A escravidão também já era, em 1860. Mas ia-se levando. Numa boa, para recorrer a uma linguagem que arrepiaria o tal senador do dicionário.

P.S. – Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) etc.: o crime tenta se dar aparência política, organizando-se em partidos, ao mesmo tempo que a política, assentada em denúncias de corrupção, se criminaliza. Ambos vergam, um em direção ao outro, como plantas que ensaiam se abraçar, fundindo-se em uma única e mesma entidade.

 

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