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Tranças abusadas

O reggae está cada vez mais próximo do rap,
como mostra o cantor jamaicano Shaggy

Sérgio Martins

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Ouça It Wasn't Me

Ex-combatente da Guerra do Golfo, o rapper jamaicano Shaggy está bombardeando a parada de sucessos dos Estados Unidos. Hot Shot, seu último lançamento, lidera há três semanas a venda de discos naquele país e deixou pesos-pesados como os Beatles e a popozuda Jennifer Lopez comendo poeira. O álbum, que chega nesta semana às lojas brasileiras, contabiliza 5 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. A explosão de Hot Shot aproxima o rapper do altar onde os adoradores do reggae idolatram o mais ilustre dos jamaicanos, o cantor Bob Marley. Mas com uma diferença: enquanto Marley marcou presença pelas músicas pacifistas, pontuadas por protestos contra o preconceito, Shaggy é a incorreção política em pessoa.

O novo astro reflete os rumos tortuosos que o reggae tomou nas últimas duas décadas. Nos anos 70, o gênero era dominado por cantores de tranças quilométricas, que atribuíam poderes mágicos à maconha e criam que o exótico imperador da Etiópia, Hailé Selassié, morto em 1975, era a reencarnação de Jesus Cristo. As cabeleiras continuam iguais, mas a nova safra prefere queimar o fumacê em homenagem ao estilo dos rappers americanos. Primeiro, em termos musicais, já que suas composições usam recursos eletrônicos e não apenas as tradicionais bases rítmicas com baixo e bateria. Segundo, e principalmente, no que se refere à ostentação de riquezas, ao culto à violência e ao machismo. Em 1993, por exemplo, dois astros jamaicanos foram banidos das rádios americanas porque suas letras pregavam o extermínio de homossexuais.

Shaggy é mais fanfarrão, menos agressivo, mas está longe de ser santo. Nascido Orville Richard Burrell, ele emigrou para os Estados Unidos nos anos 80. Entrou para o corpo de fuzileiros navais por motivos pouco nobres. "Eu achava que a farda atrairia a mulherada", confessa. O rapper deu baixa logo após a Guerra do Golfo e já emplacou diversos sucessos. Mas nenhum deles se compara a Hot Shot. O disco tem reggae de primeira categoria e letras cafajestes de quinta. Em It Wasn't Me, ensina a driblar acusações de infidelidade: negar tudo, sempre. Pior ainda é Not Fair, cujo tema é a prática de sexo oral, com detalhes de dar inveja aos compositores de funk carioca. Alheio ao nível rasteiro das letras, o público brasileiro já se rendeu a It Wasn't Me. A música tem feito sucesso nas rádios do Rio de Janeiro. Animada, a Universal, gravadora que detém o passe de Shaggy, anuncia que trará em breve o rapper libidinoso ao país. Ele vai se sentir em casa.

 

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