Artes e Espetáculos Cinema

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
O Exorcista, na versão do diretor
Shaggy, o maior sucesso do reggae desde Bob Marley
Forró do Falamansa estoura em vendas
Caio Blat, o anjo que deu certo
A correspondência entre três grandes poetas brasileiros

Colunas
Diogo Mainardi
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Como o diabo gosta

Quase trinta anos depois, O Exorcista
volta, com vômito
verde, cenas adicionais
e tão apavorante quanto antes

Isabela Boscov

Fotos Warner Bros./Stills

Na história não do cinema, mas da platéia, nunca houve um caso como o de O Exorcista. Lançado nos Estados Unidos na última semana de 1973, o filme foi recebido desde o primeiro dia com filas que se estendiam por quarteirões e numerosos relatos de crises nervosas durante a projeção. Em várias cidades americanas em que era exibido, padres e psiquiatras registravam movimento acima do normal em suas igrejas e consultórios, na maioria de pessoas que se acreditavam possuídas – como a protagonista Regan (interpretada pela menina Linda Blair), que, tomada pelo demônio, proferia obscenidades, lançava jatos de vômito sobre um sacerdote e se masturbava com um crucifixo. Foi um fenômeno de tais proporções que revistas como Time e Newsweek dedicaram reportagens extensas a ele. No Brasil, em 1974, o fenômeno se repetiu, embora parte do público reagisse com risadas e apupos. Naquela época, contudo, violência, sensacionalismo e vômito verde não eram artigos tão corriqueiros no cinema quanto agora, o que explica em parte essa reação extrema ao filme do diretor William Friedkin. Mas quem, hoje, seria capaz de se assustar com ele? Pois bem. Assista a O Exorcista – Versão do Diretor (The Exorcist – Director's Cut, Estados Unidos, 1973/2000), que estréia nesta sexta-feira no país, e tente escapar incólume. Com quase trinta anos de idade, a fita ainda tem poucos rivais em sua capacidade de subjugar a platéia. Não pelo choque, como se alardeava antes, mas pelo medo puro e simples – ainda mais acentuado pelas mudanças feitas para esta reedição por insistência do escritor William Peter Blatty, autor do livro e do roteiro (pelo qual ganhou o Oscar).


Produções de quinta categoria e problemas com drogas foram o destino da promissora Linda Blair após O Exorcista

Interpretando um personagem difícil com a prodigiosa segurança de sempre, Max von Sydow foi um dos únicos a sair ilesos do sucesso do filme

Os onze minutos adicionais do novo O Exorcista reforçam o teor religioso da história e incluem uma cena pavorosa, que havia sido descartada da montagem original: aquela em que a menina Regan desce uma escada de quatro e de costas, como uma aranha. Por um momento, a sensação que se tem é de um mundo virado do avesso. Outras cenas ganharam retoques, como a perambulação da mãe de Regan pela casa sem notar que as paredes e as superfícies dos objetos refletem sutilmente a silhueta do demônio. Também o desfecho foi modificado, para que não restem dúvidas sobre a vitória divina.



Ellen Burstyn tentou o estilo sexy, mas se firmou como atriz respeitada. Ganhou o Oscar em 1975 e concorre novamente neste ano

O Exorcista foi, de certa forma, vítima de seu próprio sucesso. Muito de sua fama veio de cenas que, pela novidade, arrepiavam as platéias dos anos 70 – como as seqüências que mostram o rosto de Linda Blair (então com 14 anos) monstruosamente deformado pela possessão, ou em que sua cabeça perpetra giros de 360 graus. Com efeitos especiais que hoje parecem rudimentares e apelativos, essas cenas, de fato, já passaram do prazo de validade. Mas elas são poucas e se concentram no terço final da fita. Quase todo O Exorcista é costurado de um tecido muito mais duradouro: a sugestão. Desde o primeiro minuto, o espectador tem a sensação de que uma irrupção do mal é iminente. É essa expectativa, somada ao despreparo dos personagens para lidar com algo tão poderoso, que torna o filme aterrador.

Reza brava – Admirador do cinéma-vérité, ou cinema-verdade, o diretor William Friedkin aplicou a O Exorcista uma linguagem quase documental que lembra muito a de seu trabalho anterior, Operação França (ganhador do Oscar de 1972). O efeito é angustiante, especialmente para o público moderno, que se habituou a ver histórias de terror filmadas como se fossem peças publicitárias. Esse tom é estabelecido já no espetacular prólogo, em que o padre Merrin (o magnífico ator sueco Max von Sydow) acha uma representação primitiva de um demônio durante uma escavação arqueológica no Iraque. Trata-se, na verdade, do tipo de reencontro que seria copiado à exaustão em obras do gênero: Merrin e o mal já se conhecem de perto. Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos, a pré-adolescente Regan, até então uma garota alegre e tranqüila, começa a manifestar sintomas estranhos. Diz profanidades, mostra-se ora agressiva, ora retraída, reclama que sua cama chacoalha durante a noite. Perplexa, sua mãe (Ellen Burstyn) a conduz por um verdadeiro périplo clínico. Os sintomas só se agravam, e os médicos desistem. Regan é caso para um exorcista, sugerem, nem que seja pelo valor simbólico do ritual. O primeiro convocado é o padre Karras (papel do premiado dramaturgo Jason Miller), um jesuíta que atravessa uma crise de fé – da qual será tirado pela serenidade do padre Merrin, que o auxilia na tarefa, e por seu próprio encontro com o demônio. Pode parecer paradoxal, mas, ao menos do ponto de vista do dogma, a lógica é irretocável: admitir que o mal existe e deve ser combatido significa também reconhecer o poder maior de Deus.

Parte da mística de O Exorcista está no fato de que o autor, William Peter Blatty, afirma ter se baseado nos diários de um padre encarregado de um dificílimo caso de exorcismo em 1949, e diz que pouco acrescentou ao relato original. Mas a habilidade do diretor William Friedkin e a competência do elenco garantem que o nível de tensão permaneça alto também entre os céticos. Ao final, o filme se revela ainda melhor do que se supunha à época. Teve efeitos nocivos, sim, mas eles são bem diversos do que imaginavam seus detratores: se O Exorcista tem uma culpa, é a de ter associado irremediavelmente choque a entretenimento. E esse é um espírito que reza brava nenhuma consegue expulsar de Hollywood.

 

Copyright 2001
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições Especiais | Especiais on-line | Estação Veja
Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco

CDs DVDs Vídeos
Saraiva.com.br
Submarino
Americanas
Livros
Saraiva.com.br
Submarino
Espiral
Ingressos
Fun by Net
o que é o canal