Como
o diabo gosta
Quase
trinta anos depois, O Exorcista
volta, com vômito verde,
cenas adicionais
e tão apavorante quanto antes

Isabela
Boscov
Fotos Warner Bros./Stills
 |
Na
história não do cinema, mas da platéia,
nunca houve um caso como o de O Exorcista. Lançado
nos Estados Unidos na última semana de 1973, o filme
foi recebido desde o primeiro dia com filas que se estendiam
por quarteirões e numerosos relatos de crises nervosas
durante a projeção. Em várias cidades
americanas em que era exibido, padres e psiquiatras registravam
movimento acima do normal em suas igrejas e consultórios,
na maioria de pessoas que se acreditavam possuídas
como a protagonista Regan (interpretada pela menina
Linda Blair), que, tomada pelo demônio, proferia obscenidades,
lançava jatos de vômito sobre um sacerdote e
se masturbava com um crucifixo. Foi um fenômeno de tais
proporções que revistas como Time e Newsweek
dedicaram reportagens extensas a ele. No Brasil, em 1974,
o fenômeno se repetiu, embora parte do público
reagisse com risadas e apupos. Naquela época, contudo,
violência, sensacionalismo e vômito verde não
eram artigos tão corriqueiros no cinema quanto agora,
o que explica em parte essa reação extrema ao
filme do diretor William Friedkin. Mas quem, hoje, seria capaz
de se assustar com ele? Pois bem. Assista a O Exorcista
Versão do Diretor (The
Exorcist Director's Cut, Estados Unidos, 1973/2000),
que estréia nesta sexta-feira no país, e tente
escapar incólume. Com quase trinta anos de idade, a
fita ainda tem poucos rivais em sua capacidade de subjugar
a platéia. Não pelo choque, como se alardeava
antes, mas pelo medo puro e simples ainda mais acentuado
pelas mudanças feitas para esta reedição
por insistência do escritor William Peter Blatty, autor
do livro e do roteiro (pelo qual ganhou o Oscar).

Produções
de quinta categoria e problemas com drogas foram o destino
da promissora Linda Blair após O Exorcista |

Interpretando
um personagem difícil com a prodigiosa segurança
de sempre, Max von Sydow foi um dos únicos a sair
ilesos do sucesso do filme |
Os
onze minutos adicionais do novo O Exorcista reforçam
o teor religioso da história e incluem uma cena pavorosa,
que havia sido descartada da montagem original: aquela em
que a menina Regan desce uma escada de quatro e de costas,
como uma aranha. Por um momento, a sensação
que se tem é de um mundo virado do avesso. Outras cenas
ganharam retoques, como a perambulação da mãe
de Regan pela casa sem notar que as paredes e as superfícies
dos objetos refletem sutilmente a silhueta do demônio.
Também o desfecho foi modificado, para que não
restem dúvidas sobre a vitória divina.

Ellen
Burstyn tentou o estilo sexy, mas se firmou como atriz
respeitada. Ganhou o Oscar em 1975 e concorre novamente neste
ano |
O
Exorcista foi, de certa forma, vítima de seu próprio
sucesso. Muito de sua fama veio de cenas que, pela novidade,
arrepiavam as platéias dos anos 70 como as seqüências
que mostram o rosto de Linda Blair (então com 14 anos)
monstruosamente deformado pela possessão, ou em que
sua cabeça perpetra giros de 360 graus. Com efeitos
especiais que hoje parecem rudimentares e apelativos, essas
cenas, de fato, já passaram do prazo de validade. Mas
elas são poucas e se concentram no terço final
da fita. Quase todo O Exorcista é costurado
de um tecido muito mais duradouro: a sugestão. Desde
o primeiro minuto, o espectador tem a sensação
de que uma irrupção do mal é iminente.
É essa expectativa, somada ao despreparo dos personagens
para lidar com algo tão poderoso, que torna o filme
aterrador.
Reza brava Admirador do cinéma-vérité,
ou cinema-verdade, o diretor William Friedkin aplicou a O
Exorcista uma linguagem quase documental que lembra muito
a de seu trabalho anterior, Operação França
(ganhador do Oscar de 1972). O efeito é angustiante,
especialmente para o público moderno, que se habituou
a ver histórias de terror filmadas como se fossem peças
publicitárias. Esse tom é estabelecido já
no espetacular prólogo, em que o padre Merrin (o magnífico
ator sueco Max von Sydow) acha uma representação
primitiva de um demônio durante uma escavação
arqueológica no Iraque. Trata-se, na verdade, do tipo
de reencontro que seria copiado à exaustão em
obras do gênero: Merrin e o mal já se conhecem
de perto. Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos, a pré-adolescente
Regan, até então uma garota alegre e tranqüila,
começa a manifestar sintomas estranhos. Diz profanidades,
mostra-se ora agressiva, ora retraída, reclama que
sua cama chacoalha durante a noite. Perplexa, sua mãe
(Ellen Burstyn) a conduz por um verdadeiro périplo
clínico. Os sintomas só se agravam, e os médicos
desistem. Regan é caso para um exorcista, sugerem,
nem que seja pelo valor simbólico do ritual. O primeiro
convocado é o padre Karras (papel do premiado dramaturgo
Jason Miller), um jesuíta que atravessa uma crise de
fé da qual será tirado pela serenidade
do padre Merrin, que o auxilia na tarefa, e por seu próprio
encontro com o demônio. Pode parecer paradoxal, mas,
ao menos do ponto de vista do dogma, a lógica é
irretocável: admitir que o mal existe e deve ser combatido
significa também reconhecer o poder maior de Deus.
Parte
da mística de O Exorcista está no fato
de que o autor, William Peter Blatty, afirma ter se baseado
nos diários de um padre encarregado de um dificílimo
caso de exorcismo em 1949, e diz que pouco acrescentou ao
relato original. Mas a habilidade do diretor William Friedkin
e a competência do elenco garantem que o nível
de tensão permaneça alto também entre
os céticos. Ao final, o filme se revela ainda melhor
do que se supunha à época. Teve efeitos nocivos,
sim, mas eles são bem diversos do que imaginavam seus
detratores: se O Exorcista tem uma culpa, é
a de ter associado irremediavelmente choque a entretenimento.
E esse é um espírito que reza brava nenhuma
consegue expulsar de Hollywood.
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