O Brasil
domou a Aids
Programa
brasileiro reduz o número
de mortos e de contaminados, vira
referência mundial e abre polêmica
sobre a quebra de patentes de remédios

Ana
Santa Cruz e Juliana Saboia

A
fórmula brasileira contra a Aids nas manchetes
de jornais estrangeiros: muitos elogios pelo controle
da epidemia e críticas por copiar medicamentos
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N. Rodrigues/1º Plano

Contaminado
em 1993, Bernardo Guiné mudou-se de Belo Horizonte
para Brasília para obter remédios de graça.
Hoje leva uma vida normal |
Pelas previsões que o Banco Mundial fazia oito anos
atrás, haveria um inferno de moldes africanos na Casa
da Aids, como é chamado o ambulatório especial
mantido pelo Hospital das Clínicas de São Paulo
no bairro da Bela Vista. Se nada tivesse sido feito, o Brasil
teria 1,2 milhão de pessoas infectadas pelo HIV, sem
chance de salvação nem de tratamento. A Aids
cresceu no ritmo de 35% ao ano na década de 80, com
um total de até 31 novos casos por dia. Chegou-se a
estimar que cidades como Santos, uma das mais atingidas pela
epidemia, não teriam hospitais suficientes para tratar
todos os seus doentes. Bem, o Banco Mundial errou feio em
suas estimativas. Não por falta de competência
de seus cenaristas, mas porque o Brasil deu um tranco violento
na Aids. O cenário que se vê na Casa da Aids
é hoje um pequeno retrato das vitórias que o
sistema de saúde brasileiro impôs à epidemia
que assustou o mundo. Os 38 leitos disponíveis para
aidéticos estão vazios. O atendimento é
feito sem atropelos no ambulatório. Quatro dezenas
de profissionais, entre infectologistas, dentistas, oftalmologistas
e assistentes sociais, fazem 2.000 consultas por mês,
na quase modorrenta média de 2,5 atendimentos por dia
para cada um. Há apenas 4.000 pacientes no cadastro.
Em todas as outras 630 unidades de atendimento de doentes
de Aids no país o quadro é bastante parecido
com o da Casa da Aids.
Pelas
contas do Ministério da Saúde, o total de contaminados
está abaixo da metade do que foi previsto pelo Banco
Mundial. Boa parte dos 100.000 pacientes que se submetem ao
tratamento com o coquetel anti-Aids nos hospitais brasileiros
vive e trabalha em relativa normalidade. O número de
internações por doenças oportunistas,
as que atacam porque o sistema imunológico está
enfraquecido, caiu 80% nos últimos quatro anos. E,
o mais importante, as mortes decorrentes da Aids diminuíram
50%. "O avanço da doença está contido",
diz Paulo Teixeira, coordenador do programa de combate à
Aids do Ministério da Saúde.
Eduardo Queiroga/Ag. Lumiar

A
pernambucana Miriam Gomes é uma das 600 voluntárias
que ensinam os doentes a tomar os remédios, lidar
com os efeitos colaterais e vencer o medo |
Com exceção dos países ricos, cujas taxas
de mortalidade e contaminação estão um
pouco abaixo das brasileiras, a Aids segue matando muito mundo
afora. Ela é a principal causa de morte de adultos
em vários países africanos. Na Rússia,
o número de soropositivos dobrou em apenas um ano.
No Sudeste da Ásia, houve 470.000 mortes de vítimas
da Aids no ano 2000. Há países do Caribe em
que 13% das mulheres grávidas estão infectadas
com o HIV.
Nesse quadro, o Brasil destoa tanto de seus tradicionais companheiros
de estatísticas que passou a ser um exemplo citado
pela imprensa internacional e modelo recomendado pela Organização
das Nações Unidas (ONU). Na semana passada,
o secretário-geral Kofi Annan atribuiu parte da vitória
brasileira à decisão de fabricar aqui remédios
usados no combate ao vírus, mesmo sem a licença
dos laboratórios que os desenvolveram. A outra parte
se deve à persistência. Apesar das pressões
conservadoras contra as campanhas de esclarecimento entre
grupos de risco, a despeito dos altos custos envolvidos nos
tratamentos e independentemente de tabus sexuais e de aspectos
criminais relacionados ao consumo de droga
o Brasil domou a Aids. Como toda derrota na área social,
as vitórias também são resultado de um
acúmulo de decisões. No caso da Aids, as diversas
administrações brasileiras adotaram estratégias
corretas para cada fase histórica da doença
(veja quadro).
Claudio Rossi

A
paulistana Marilene Ferreira e a filha Waira têm
Aids. O único traço do HIV é a tosse
da menina |
Todos
os outros países gravemente atingidos pela epidemia tiveram
programas parecidos, mas só os do Primeiro Mundo o fizeram
com a mesma continuidade e buscando cobrir todos os grupos de
risco. Milhões e milhões de camisinhas já
foram distribuídas no país. O consumo anual está
na casa de 320 milhões de unidades. Seringas descartáveis
são facilmente obtidas por viciados. Dezenas de campanhas
foram feitas na TV, em portas de igrejas e nas boates de homossexuais.
Pesquisa realizada em dezessete países pela Unaids
o braço da ONU no combate à doença
constatou que o jovem brasileiro se tornou o mais bem informado
do mundo sobre o vírus.
A mais vital das batalhas foi conseguir distribuir gratuitamente
os medicamentos e fazer com que os pacientes os tomassem nas
doses corretas. No caso da Aids isso é um desafio crucial.
Para fabricar os compostos químicos, adotou-se a fórmula
Robin Hood, copiando as receitas dos laboratórios ricos
para repassar remédios aos pacientes pobres. Desde
1996 se começou a distribuir o coquetel anti-Aids,
o conjunto de medicamentos que, combinados, atacam o vírus
rápida e violentamente. Oito dos doze remédios
usados nos coquetéis são fabricados no país,
com matérias-primas procedentes principalmente da Índia
e da China, países que ignoram a regra internacional
sobre patentes. O Brasil entrou na pirataria, mas com bandeira
branca com uma cruz vermelha. Ou seja, por motivos humanitários.
Aliás, uma das razões que, internacionalmente,
se aceitam como válidas para copiar remédios
protegidos por patentes.
As outras drogas são compradas de laboratórios
estrangeiros. Em dois casos, o do Efavirenz e o do Nelfinavir,
o governo brasileiro faz pressão para baixar os preços.
Esses dois remédios consumiram 36% dos 612 milhões
de reais que o país gastou no ano passado com a compra
de medicamentos contra a Aids. O ministro da Saúde,
José Serra, ameaça desrespeitar frontalmente
a propriedade de patentes e fabricar aqui todos os remédios
usados no combate à Aids. Fora das questões
comerciais e políticas, o Brasil ganhou muito com o
pioneirismo na hora de experimentar os tratamentos com um
coquetel de drogas. "Logo se percebeu que é mais adequado
esperar os primeiros sintomas do enfraquecimento imunológico
em vez de atacar o HIV assim que ele é descoberto no
organismo", recorda Artur Kalichman, coordenador do Programa
de Combate à Aids do Estado de São Paulo. Dependendo
do paciente, a Aids pode levar anos para se manifestar. A
nova postura evita que o doente passe todo esse tempo na tormenta
dos efeitos colaterais. Ao mesmo tempo, poupa ao Estado o
custo de fornecer medicamentos caros a pessoas sem sintomas
da doença.
Há duas semanas o governo dos Estados Unidos divulgou
sua nova regulamentação para o tratamento de
Aids. Ninguém da comunidade médica internacional
se surpreendeu com o fato de que ela segue exatamente a diretriz
que o Brasil vinha aplicando. Médicos do Primeiro Mundo
temiam que pacientes de países pobres, desinformados,
tivessem mais dificuldade para tomar vários medicamentos
alternadamente, em horários rígidos. Daí
decorreria certa propensão a abandonar os tratamentos
pela metade, contribuindo para o surgimento de variedades
de vírus mais resistentes às drogas.
A experiência brasileira derrubou esse mito. Cerca de
600 organizações não-governamentais dão
apoio aos soropositivos em tratamento e os ajudam a seguir
à risca a medicação. Se tivesse de pagar
pelos medicamentos, cada doente estaria gastando cerca de
18.000 reais por ano. Isso é quase três vezes
a renda per capita brasileira. "Outros países deveriam
ser encorajados a dar respostas tão rápidas
à epidemia", elogia Ben Plumley, diretor de relações
internacionais da Unaids. Para desespero dos laboratórios,
o governo brasileiro assinou convênios de cooperação
com Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São
Tomé e Príncipe. A ajuda inclui transferência
de tecnologia para a fabricação de medicamentos,
treinamento no controle de qualidade das matérias-primas
e orientação para a administração
correta do tratamento. A África precisa desesperadamente
dessa ajuda. Pobreza, ignorância e corrupção
combinaram-se para fazer do continente o pólo mais
virulento da epidemia. Mais de dois terços dos 36 milhões
de doentes do planeta vivem na África. Esse era o risco
que o Banco Mundial via no futuro do Brasil há oito
anos.
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A
batalha das patentes
Oscar Cabral

Far-Manguinhos:
cópias em seis meses |
O sucesso do Brasil no tratamento da Aids com cópias
de medicamentos e ameaça de quebra de patentes
é um caso típico da exceção
que confirma uma regra. A patente é o mecanismo
que assegura a volta do investimento feito pelos laboratórios
em novas drogas. Sem patente não haveria remédios
eficazes nas prateleiras das farmácias e nos
hospitais. Com a exclusividade na venda do produto que
descobriram, as empresas farmacêuticas conseguem
arrecadar recursos para pagar pelo processo de inovação
científica e pela criação de medicamentos.
Um processo que, diga-se, é cada vez mais veloz
e dispendioso. A Associação dos Fabricantes
de Medicamentos dos Estados Unidos calcula que 1 em
cada 5 dólares do faturamento dos laboratórios
vai para pesquisa. Uma nova droga contra a Aids custa
entre 400 milhões e 1 bilhão de dólares
para ser desenvolvida. "De cada 8 000 novas moléculas
pesquisadas, apenas uma vira remédio", diz Marcos
Levy, diretor do laboratório Merck Sharp &
Dohme. A empresa é fabricante do Efavirenz, que,
junto com o Nelfinavir, da Roche, é um medicamento
ameaçado de quebra de patente pelo governo brasileiro.
Para produzi-lo, a Merck gastou cerca de 500 milhões
de dólares durante seis anos de pesquisa. Copiar
a idéia original da Roche saiu muito mais barato.
O Far-Manguinhos, laboratório público
ligado à Fundação Oswaldo Cruz,
calcula que em setembro já terá sua cópia
da droga. O aparato para copiar o remédio da
Merck custou apenas 500 000 reais.
A eficácia do programa brasileiro está
na decisão de oferecer o melhor tratamento a
qualquer doente, pelo menor preço, tratando a
epidemia como um caso de calamidade pública.
Mas o próprio governo já reconheceu que
as patentes são parte crucial na evolução
dos medicamentos e do combate a moléstias complexas.
Tanto que o Brasil foi um dos primeiros países
a adotar legislação sobre o tema nos moldes
previstos pela Organização Mundial do
Comércio, há seis anos. A lei brasileira
permite a cópia de qualquer remédio lançado
antes de 1997 e prevê o respeito à propriedade
intelectual a partir dessa data. Países como
a Índia e a Argentina só se adequarão
aos critérios da OMC em 2005, o que os libera
para produzir cópias sem restrições.
Sob o risco de ter a patente desrespeitada, grandes
laboratórios resolveram firmar convênios
para baixar preços em países pobres. Negociam
separadamente com cada governo e jamais divulgam os
valores acertados. Tanto a Roche quanto a Merck têm
negociado preços mais camaradas no Brasil. "Garanto
que o Brasil já paga bem menos que outras nações
em desenvolvimento", dispara Mark Grayson, diretor da
entidade americana que congrega os fabricantes de remédios.
"O que o governo brasileiro quer mais? Tratamento igual
ao de Botswana?" Parece que sim. "Os laboratórios
já ganham mais do que o suficiente no mercado
consumidor de seus países", afirma o ministro
José Serra. A Organização Mundial
de Saúde também prega redução
maior nos preços para os países pobres.
Mas ressalta que a medida deve ser acompanhada de uma
rigorosa fiscalização de medicamentos
nos países mais ricos. O objetivo é impedir
que os remédios baratos destinados a salvar vidas
nos países pobres sejam desviados e acabem no
mercado negro da Europa e dos Estados Unidos.
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Com
reportagem de
Bia Barbosa e sucursais
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