Tabefe
no ritmo
Prefeitura
de Salvador faz campanha
contra música que promove tapa na cara

Leonardo
Coutinho

No
Carnaval de Salvador deste ano, o tema oficial é a
paz. Mas, vendo, ninguém diria: a música que
mais se tocou e mais se dançou na infinidade de festejos
pré-carnavalescos baianos foi Tapa na Cara e,
do par de bailarinos, a coreografia pede justamente isso:
que o rapaz finja que dá um tabefe no rosto da parceira
(que, faceira, balança os longos cabelos). De modismo
de verão virou questão discutida a sério.
Deputados, artistas, a secretária estadual de Segurança,
Kátia Alves, e até o prefeito, Antonio Imbassahy,
indignaram-se com a exaltação do tapa e mobilizaram-se
para que a música parasse de ser tocada em bailes e
festas. O resultado foi o esperado: prontamente, virou hino
do Carnaval baiano. Canção e coreografia são
obra do novíssimo grupo Pagod'art e a inspiração
vem da vida real, divulga o compositor e vocalista Alexsandro
Cerqueira, conhecido como Xela, 19 anos. A gênese de
sua obra, diz, aflorou quando, por mais que não quisesse,
uma ex-namorada tanto insistiu que acabou concordando em lhe
dar uns tapas "com amor", para apimentar as atividades carnais.
O namoro acabou, mas o conjunto, nascido há apenas
dez meses, chegou ao topo das paradas.
Denio Hurtado/AE
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Agliberto Lima/AE
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| Ivete
gosta, mas não vai cantar a pedido de Imbassahy:
debate no Carnaval |
Segundo
a prefeitura de Salvador, Tapa na Cara é um
caso de segurança pública. A Polícia
Militar diz ter em seu poder vídeos de duas festas,
Farol Folia e a lavagem das escadarias da igreja do Senhor
do Bonfim, nos quais fica comprovado que, bastou a coreografia
começar, para os gestos se transformarem em tapas de
verdade, criando tumultos em vários pontos. Segundo
a Prefeitura, 80% das ocorrências policiais de agressão
registradas nas duas festas estão relacionadas à
execução da música. Imbassahy qualificou
Tapa na Cara de "deprimente" e "chocante" e pediu seu
banimento do Carnaval. Xela, naturalmente, invoca a liberdade
de bofetão, quer dizer, expressão: "O Brasil
é um país livre e cada um tem o direito de cantar
o que quiser".
No
meio artístico, a polêmica dividiu a elite do
axé. Daniela Mercury e Ricardo Chaves formam na linha
de frente contra o tapa. Ivete Sangalo gostou, cantou ("Não
tem nada de machismo, nem de agressão") e disse que
ia incluir a música no repertório de seu bloco,
mas mudou de idéia. "Ela resolveu atender ao pedido
do prefeito", explica sua produção. O grupo
As Meninas também ia gravar, mas saiu pela tangente:
seu carro-chefe passou a ser um tabefe mais light, Tapinha,
egresso do funk carioca, em que popozudas se dão um
tapa em sua área preferencial. Já o grupo É
o Tchan! não vê problema nenhum em pôr
o tapa na rua. "Já tocamos na avenida e não
houve violência alguma. Vamos repetir no Carnaval",
anuncia o empresário Cal Adan. Tapa na Cara
também deve esquentar o repertório do cantor
Beto Jamaica e da puxadora de trios Cátia Guimma
além, claro, do Pagod'art de Xela. Vai ser preciso
muito amor para contrabalançar.
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