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Vive la favela

Franceses lotam restaurante brasileiro
para
comer e, principalmente, dançar

Monica Schmidt, de Paris

Antonio Ribeiro
Clima de festa até no quindim: de enfeite, Iemanjá


Volta e meia ouve-se falar de algum brasileiro que está conquistando Paris e, na hora de mostrar serviço, no máximo consegue atrair o saudosismo dos compatriotas que vivem lá. A exceção é um restaurante sem luxo nenhum, que serve comida brasileira afrancesada, toca música em altíssimo volume e, de fato, consegue lotar de franceses todas as noites. É o Favela Chic, um espaço comprido e estreito com mesas comunitárias de madeira tosca e bancos ao longo das paredes, freqüentado por modernos e afins, que já foi tema de reportagens e recomendações no New York Times, Le Monde, Elle e Vanity Fair, entre outros. A comida é correta e a decoração, altamente eclética, mas a maior atração é a música, ensurdecedora, que, por falta de espaço, põe a clientela para dançar em cima dos bancos. "Venho aqui quando estou deprimido. Quero me casar com uma brasileira", berra um francês ensopado de suor, copo de caipirinha na mão. "Dançando aqui em cima, eu me sinto uma rainha", esbalda-se uma loura em tailleur Chanel.


Divulgação
Os sócios Mazzi, Rosane e Gringo (de pé): elogios na imprensa, filas na porta


Fazem parte da decoração uma cama em estilo barroco, velhas cristaleiras, vasos com plumas vermelhas, lustres de cristal faltando metade das lâmpadas, um altar para Iemanjá. Na parede principal, uma grande pintura da Iracema de José de Alencar, no estilo ingênuo das antigas estampas. Nas mesas, secretárias, jovens vindos dos subúrbios e executivos dividem o banco com celebridades como a atriz Chiara Mastroianni, o fotógrafo Mario Testino e o estilista John Galliano. A dona, Rosane Mazzer, paranaense de 34 anos, chegou a Paris no começo da década passada e aproveitou a experiência de organizadora de festinhas brasileiras na cidade para abrir o Favela Chic há seis anos. Apesar do comprovado encanto dos franceses por coisas brasileiras, era um empreendimento arriscado. A comida e a atmosfera festiva que agradam em seu ambiente natural costumam viajar mal – ainda mais num lugar que pretendia ser moderno, não folclórico. Surpreendentemente, pegou. Em maio passado, o Favela mudou-se para um lugar maior, e o faturamento quadruplicou. Rosane faz sociedade com o marido, o DJ Gringo da Parada, Jerôme Pigeon nos documentos, autor de uma salada musical composta de batucada, hip hop, house music, Edith Piaf, Ângela Maria e Atirei o Pau no Gato. "Tento reproduzir a arquitetura caótica das favelas cariocas, feita de pedaços de tudo, mas estranhamente harmoniosa", teoriza.

O terceiro sócio é o chef gaúcho Jorge Mazzi, responsável pelo cardápio que ostenta, ao lado das indefectíveis feijoada e moqueca de peixe, criações como "Atayde é um luxo" (peixe no vapor, purê de batata-doce e espinafre) e "Cinderela vegetariana" (creme de abóbora servido com palmito passado no azeite de oliva). De entrada, um mix de mandioca frita, bolinho de arroz, bolinho de peixe e pão de queijo. De sobremesa, torta de banana e quindim, servido em bandeja enfeitada com uma imagem de Iemanjá. A comida chega em quinze minutos e o ritual do Favela Chic manda que se coma tudo rapidamente (conta média por cabeça: 250 francos, equivalente a 70 reais). Depois, é subir nos bancos e chacoalhar até cansar.

 

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