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O Chile quer mudar de assunto

Farta da polêmica sobre Pinochet, a maioria
dos chilenos está mais preocupada com o
desempenho
da economia

Raul Juste Lores, de Santiago

 
Valdemir Cunha
Antonio Milena

A prosperidade encheu Santiago de arranha-céus e shopping centers: sonhos de ser a Cingapura latina

Diferentemente do que pode parecer pelas notícias que a imprensa publica sobre o Chile, a maioria dos chilenos está farta de ouvir falar em ditadura, tortura, desaparecidos e, sobretudo, do general Augusto Pinochet. Mais de dois anos após o ex-ditador ter sido detido em Londres por crimes contra os direitos humanos, o assunto está desgastado e a interminável controvérsia sobre o passado está cada vez mais restrita a minorias nos dois extremos do espectro político. Nos últimos dois meses, há quase uma novidade por dia nos julgamentos dos abusos cometidos pela ditadura, entre 1973 e 1990. Bastante debilitado aos 85 anos, Pinochet está em prisão domiciliar desde o final de janeiro. Vários militares da ativa (entre eles o comandante interino da Força Aérea, general Hernán Gabrielli) estão sendo denunciados por participação direta em torturas e outros crimes. O tamanho do interesse público, contudo, pode ser medido pelas manifestações recentes em Santiago de partidários e adversários de Pinochet, que não reúnem nem 100 pessoas. Há dois anos, juntavam facilmente 2.000.

Uma pesquisa do Centro de Estudos Públicos (CEP) mostra que seis em cada dez chilenos acham que Pinochet não será julgado, por razões de saúde, e quase metade quer que o processo seja encerrado "o mais rápido possível". As maiores preocupações dos entrevistados são o desemprego, a pobreza, a violência, a saúde e os salários. Os temas da justiça e dos direitos humanos foram relegados, respectivamente, ao 11º e ao 13º lugar. Nas eleições para prefeito da capital, no ano passado, sete em cada dez eleitores votaram sem levar em conta partido ou ideologia do candidato. Mais da metade dos chilenos se definem como independentes ou sem posição política. Os restantes estão divididos em partes iguais entre esquerda ou centro-esquerda (23%) e direita ou centro-direita (23%). Exilado durante a ditadura, o ministro do Interior, José Miguel Insulza, também quer esquecer os anos de chumbo. "Não pretendo denunciar quem assinou o decreto de minha expulsão", diz. "Não ajuda ao país que cada vítima de alguma injustiça em 1973 recorra aos tribunais. Acusações indeterminadas e em massa não contribuem para a paz social."

Os extremistas estão cada vez mais isolados. O Partido Comunista não elegeu um só deputado. O prefeito de Santiago, Joaquín Lavín, líder da direita derrotado em segundo turno pelo socialista Ricardo Lagos na disputa pela Presidência da República, conseguiu a projeção que tem ao tomar distância da extrema direita e declarar que o destino do ex-ditador está nas mão da Justiça. "Pinochet está cada vez mais restrito à família, poucos são os que o defendem publicamente. Os extremistas viraram minoria", diz o respeitado analista político chileno Libardo Buitrago. Um bom motivo para deixar a guerra fria para trás é o bolso. Depois de se tornar um modelo na região, com crescimento anual superior a 7% durante toda a década passada, o Chile já não exibe o mesmo fôlego. Os investimentos externos, que chegaram a 9,77 bilhões de dólares em 1999, despencaram para 3,73 bilhões, uma queda de 61%. O desemprego, que estava em 6% em meados da década passada, passa dos 9%.

A Concertación, aliança de centro-esquerda no poder desde a queda de Pinochet, não consegue consenso para privatizar as empresas que ainda estão nas mãos do Estado, como os Correios, a petroleira Enap, as ferrovias e a gigante do cobre Codelco. Perto de 60% dos chilenos definem a situação econômica do país como ruim ou muito ruim. É um exagero, visto que o PIB cresceu mais de 5% em 2000 e deve repetir a performance neste ano. O sentimento de desesperança vem sobretudo da constatação de que o Chile está longe de ter se transformado no tigre asiático que imaginava estar incorporando cerca de dez anos atrás. O PIB chileno é de 71 bilhões de dólares, um décimo da economia brasileira. A renda per capita, de 4.700 dólares, equivale a dois terços da argentina e é apenas um pouco maior que a do Brasil. "O Chile passou os anos 90 celebrando as reformas dos anos 80. Mas não deu o salto do Terceiro para o Primeiro Mundo. Ninguém pensa em fazer microchips ou investigação genética no Chile", descreve o economista-chefe para mercados emergentes do ABN Amro Bank, Arturo Porzecanski.

Apesar do sonho frustrado de ser um tigre econômico, os sinais da prosperidade são bem visíveis no país. A explosão imobiliária de Santiago, que devido aos terremotos quase não tinha edifícios altos, deu-lhe dezenas de reluzentes arranha-céus, com alta tecnologia para evitar os efeitos dos tremores de terra. A cidade de 5 milhões de habitantes é um canteiro de obras. Estacionamentos subterrâneos estão sendo construídos sob várias avenidas. O aeroporto está passando por reformas que vão triplicar seu tamanho. De 1990 a 2000, mais de 2 milhões de chilenos deixaram a linha da pobreza, o que representa ascensão social de 15% da população. Nesses dez anos o analfabetismo caiu de 6,3% para 4,5% e a mortalidade infantil foi reduzida a menos de um terço do que era em 1980 (hoje, dez por 1.000 nascidos vivos, contra 33 há vinte anos). Ainda existem 1.500 favelas no país, chamadas de acampamentos, onde moram 870.000 pessoas com renda familiar média de 35 dólares mensais. Não são tão facilmente visíveis, já que se concentram em regiões fora da capital. Pinochet retirou as favelas que se encontravam no centro de Santiago, entre 1979 e 1984, e as deslocou para a periferia. Uma maquiagem que a classe alta chilena adorou.

O sonho dourado do Chile é atrelar seu destino econômico aos Estados Unidos. Em 1994, foi convidado a ingressar no Nafta, o mercado comum americano. Como o acordo não progrediu, o Chile aproximou-se do Mercosul, tornando-se uma espécie de sócio provisório. No ano passado seus negócios no mercado comum sul-americano chegaram perto de 5 bilhões de dólares. Só o Brasil exportou para o Chile 1,35 bilhão de dólares e comprou 950 milhões de dólares. Em dezembro, foi anunciado um acordo de livre comércio entre os Estados Unidos e o Chile. Os países do Mercosul, sobretudo o Brasil, sentiram-se traídos, e o Chile viu-se ameaçado de ser colocado em quarentena. Desde então, o governo chileno faz de tudo para não voltar a desagradar a seus parceiros no mercado comum do Cone Sul. Ele quer ser parceiro dos Estados Unidos, mas não pode abrir mão dos negócios com as nações vizinhas.

Dá para entender o dilema do Chile. O país é quase uma ilha. Ao sul, o gelo da Antártica. Ao norte, o Deserto de Atacama. A oeste, o Oceano Pacífico. A leste, a Cordilheira dos Andes. Tem apenas três vizinhos, Bolívia, Peru e Argentina, e uma história de conflitos com os três. O mérito de Pinochet foi ter aberto a economia num momento em que na Argentina e no Brasil ditaduras estatizantes destruíam os cofres públicos. Com uma indústria pequena, com muito pouco para proteger, a abertura econômica foi vantajosa para os chilenos. As alíquotas de importação são hoje, em média, de 8% e devem ser reduzidas até 6%. "O Chile é uma boa casa, mas em má vizinhança", esnobou, certa vez, o então ministro da Fazenda Alejandro Foxley. Os empresários chilenos não pensam assim.

Com mercado interno minúsculo (15 milhões de habitantes, menos que a Grande São Paulo) e sem poder competir no Primeiro Mundo, várias empresas chilenas investiram pesado nos países vizinhos. Foram 5 bilhões de dólares na Argentina e 1,5 bilhão no Brasil. São donas de uma grande engarrafadora de Coca-Cola no Rio de Janeiro, têm participação em telefonia no Rio Grande do Sul, distribuidoras de energia elétrica no Rio e em Goiás, gráficas e rede de farmácias no Paraná. Na Argentina, estão presentes nessas mesmas áreas, além de uma grande rede de lojas de departamentos, a Falabella. "O país é muito unido quanto ao modelo de desenvolvimento. Há consenso de que queremos o livre comércio, a abertura econômica e a competição externa. Afinal, metade de nosso PIB vem do comércio exterior", explica o chanceler interino Heraldo Muñoz (leia entrevista).

Em dezembro, o presidente Ricardo Lagos esteve no Vale do Silício, na Califórnia, visitando Bill Gates, Larry Ellison e outros papas da era digital, tentando atrair investimentos ao pequeno e longínquo Chile. "Queremos ser o Vale do Silício da América Latina", declarava o presidente. Seu sonho é ver o Chile transformado em uma grande fonte de serviços e de tecnologia, uma Cingapura latina. Em algumas coisas já se parece com o conservador e repressivo país asiático. A transição, que dura onze anos, ainda não restabeleceu completamente a democracia. Ainda há senadores designados e vitalícios e um Conselho de Segurança Nacional. Apenas 22% dos chilenos acreditam que os militares são realmente subordinados ao poder civil. Para manter os fardados tranqüilos, o Chile gasta com as Forças Armadas 2% do PIB, quase 50% a mais do que o Brasil ou a Argentina. É a sombra de Pinochet.

Fronteiras abertas

"Metade do nosso PIB vem do comércio exterior"
                    

Roberto Jayme

Heraldo Muñoz: ritmo próprio rumo à Alca


O chanceler interino Heraldo Muñoz é um dos braços direitos do presidente Ricardo Lagos e seu principal assessor em assuntos internacionais. Ele só não é nominalmente ministro porque o cargo foi destinado ao Partido Democrata-Cristão, que faz parte da coligação governante. No Chile, todos sabem que é ele quem dá as cartas em política externa. Aos 53 anos, Muñoz é responsável pelas negociações do futuro Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos, anunciado em dezembro. Falando em português perfeito (foi embaixador em Brasília durante quatro anos), ele recebeu VEJA para a seguinte entrevista:

Veja O Chile quer se distanciar de seus vizinhos e integrar-se à América do Norte?
Heraldo Muñoz – Não. Ao contrário, agora há maior interdependência entre o Chile e seus vizinhos. Na última década, o setor privado chileno investiu 10 bilhões de dólares na Argentina, no Brasil, no Peru e na Colômbia. Mas nossa prosperidade está além das fronteiras. Metade do PIB chileno vem do comércio exterior, e não podemos perder oportunidades. Queremos um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, mas não a integração. Integração só com os vizinhos.

VejaO Chile tem pressa em formar a Alca, o mercado comum pilotado pelos Estados Unidos?
Muñoz – Temos muito interesse nesse acordo. Queremos compatibilizar nossa presença na Alca e no Mercosul. Não tem sentido recusar uma oferta concreta dos americanos. Gosto do conceito europeu de que alguns países podem avançar em velocidades diferentes. O Chile pode avançar mais rápido em direção à Alca que outros países do Mercosul, como o Brasil.

VejaHá chilenos que preferem o Mercosul à Alca?
Muñoz – Há setores, como o de manufaturas, que preferem o Mercosul. Isso porque são mais competitivos nesse mercado. Há também quem não goste do Mercosul. O empresário chileno está acostumado a regras claras e transparentes da economia. Muitas vezes não entendem outros mercados, com seus obstáculos e burocracia típicos de economias que estiveram fechadas por longos períodos. A verdade é que importamos muito e exportamos pouco para Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Mas não se pode ter superávit em todos os mercados.

 
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