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Papai é o dono da bola

Filho de Kadafi é misto de cartola e jogador.
Na Líbia, ele pode tudo

Aos poucos, o ditador líbio Muamar Kadafi vai descobrindo que nem todo o dinheiro do mundo é capaz de transformar seu filho, Al-Saadi Kadafi, 26 anos, num bom jogador. O problema é que Al-Saadi não é um filho qualquer. Entre os sete filhos do coronel, ele é o preferido e mais cotado para suceder a ele. Fanático por futebol desde garoto, Al-Saadi sempre foi obcecado pelo sonho de levar a seleção de seu país à Copa do Mundo. O peso do nome bastou para colocá-lo na presidência do Al-Ahli, principal clube do país, e serviu para que herdasse o cargo de presidente da federação local. Com o futebol desastroso praticado por lá e com a bênção do pai, foi moleza apropriar-se da braçadeira de capitão da seleção e tornar-se a maior vedete do futebol da Líbia. Para fazer de seu país uma potência futebolística, Al-Saadi gastou mundos e fundos para se cercar de nomes como Maradona, o ex-velocista Ben Johnson e o confuso treinador argentino Carlos Bilardo. Com uma turma dessas, nada podia dar certo. Maradona aceitou ser consultor de Al-Saadi pela bagatela de 5 milhões de dólares, mas deixou o cargo para ser internado em Cuba. Ben Johnson faturou 400.000 dólares por três meses de contrato como preparador físico de uma seleção comandada por Bilardo, campeão do mundo em 1986. Mas Bilardo não agüentou ser comandado fora de campo por alguém que deveria ser seu subordinado dentro das quatro linhas e, em menos de cinco meses, pediu o boné.

Para reinventar o futebol na Líbia – o país ficou de fora das principais competições dos anos 90 por causa de um embargo internacional –, Al-Saadi meteu a mão no Erário. No entanto, mais difícil que montar uma boa equipe foi convencer o pai a torrar seus petrodólares no futebol. É que a pior manifestação contra seu regime – e também a última de que se tem notícia – aconteceu há cinco anos, dentro de um estádio de futebol, quando o Al-Ahli, time de Al-Saadi, marcou um gol irregular, validado pelo árbitro. A torcida adversária decidiu protestar, xingando o velho coronel. Seus filhos, que assistiam ao jogo da tribuna, indignados com a manifestação, começaram a disparar contra a multidão, deixando um saldo oficial de oito mortos e 39 feridos.

Desde então, Kadafi tem arrepios quando o assunto é futebol. Ou tinha, até o filho demovê-lo. Dentro de campo, Al-Saadi herdou o autoritarismo do pai. Individualista, ele se isola na frente e reclama compulsivamente dos companheiros. Na temporada passada do Al-Ahli, clube em que joga, era comum ver o nigeriano Gabriel Okolosi, o único que mostrava intimidade com a bola, levantar a cabeça e passar a bola sempre para Al-Saadi. Mas os outros jogadores não reclamam. Cada um foi presenteado com um Mercedes novinho. O duro é ter de ir aos treinos apertados numa minivan enquanto o capitão do time chega de limusine. O coronel Kadafi não é o único ditador árabe a ter um herdeiro no mundo da bola. O filho do iraquiano Saddam Hussein, Udai, também é cartola. Como dirigente, no entanto, ficou mais famoso por torturar seus jogadores. Em 1997, insatisfeito com a perda da vaga na Copa da França, ele mandou espancar toda a seleção assim que o time desembarcou em Bagdá.

 

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