Um espião
no FBI
Americanos
prendem em flagrante agente
graduado que vendia segredos à Rússia
AP/Doug Mills
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| Agentes
do FBI levam as provas da casa de Hanssen: disco de computador
e cartas para Moscou |
Depois
da queda do Muro de Berlim, o escritor inglês John Le Carré,
autor do célebre O Espião que Saiu do Frio,
pensou em abandonar o tema da espionagem. Que sentido teria
argumentou escrever sobre uma atividade condenada à
extinção pelo fim da Guerra Fria? Não poderia
estar mais enganado. Uma década depois do colapso da União
Soviética, o duelo de espionagem entre russos e americanos
continua animadíssimo. Na semana passada, foi preso o americano
Robert Philip Hanssen, 56 anos, agente graduado do FBI, no exato
momento em que depositava numa lata de lixo nos arredores de Washington
um pacote recheado de documentos secretos. Perto dali, foi encontrado
seu pagamento, um pacote com 50.000 dólares
em notas graúdas. Ele é acusado de ter abastecido
Moscou com mais de 6.000 páginas
de documentos ultra-secretos durante quinze anos, serviço
que lhe valeu um pé-de-meia de 1,4 milhão de dólares,
pagos em espécie e com diamantes. A devastação
causada por Hanssen nos órgãos de inteligência
dos Estados Unidos, diz o governo americano, só é
comparável à de outro vira-casaca, Aldrich Hazen Ames,
agente da CIA preso em 1994 e condenado à prisão perpétua.
Fotos Reuters
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| A
foto de Hanssen divulgada pela polícia e os 50 000 dólares achados
no parque: pagamentos em dinheiro e diamantes e identidade mantida
em segredo |
Com
25 anos de carreira, Hanssen trabalhava no coração
das mais secretas operações de contra-espionagem do
FBI. Ao contrário de Ames, que despertou suspeita com uma
gastança que seu salário não justificava, ele
era um sujeito discreto, casado, seis filhos, e vivia sem ostentação
num bairro de classe média alta nos arredores de Washington.
Já se sabe que foi dele a iniciativa de oferecer seus serviços,
em 1985. Fez isso por intermédio de uma carta comum, enviada
pelo correio para a KGB, o serviço secreto soviético.
Espionou primeiro para a União Soviética e, depois
da extinção do império vermelho, para a Rússia.
Jamais revelou seu nome real aos russos. Apresentava-se como Ramon,
nem sequer se identificou como agente do FBI e sempre se recusou
a contatos cara a cara. Comunicava-se apenas por cartas (que acabaram
virando provas contra ele), endereçadas a membros do serviço
de espionagem e diplomatas soviéticos/russos. Moscou sabia
da utilidade e da autenticidade de suas informações.
Uma delas foi a identidade de três agentes da KGB que trabalhavam
como agentes duplos na embaixada soviética em Washington.
Como tinham igualmente sido delatados por Ames, o governo russo
tomou providências. Chamados a Moscou, dois deles foram executados.
Hanssen
só foi descoberto porque o serviço de inteligência
americano pôs a mão num arquivo russo sobre suas atividades.
É curioso que ambos, Ames e Hanssen, tenham sido controlados
pelo mesmo homem, o coronel Viktor Cherkashin, uma lenda da espionagem
na Guerra Fria mas nunca um soube da existência do
outro. Cherkashin, como muitos outros de sua geração,
deixou o serviço depois do colapso da União Soviética
e sumiu numa aposentadoria obscura. Isso não significa que
o sombrio mundo da espionagem tenha caído em descrédito
no Kremlin. O presidente Vladimir Putin é um veterano da
KGB, assim como alguns de seus auxiliares diretos. Apesar do fim
da rivalidade ideológica, Moscou ainda opera um vasto programa
de espionagem nos Estados Unidos. Os assuntos de interesse são
os mesmos do passado, sobretudo tecnologia militar e as intenções
da política americana com relação à
Rússia. Com razão, o Kremlin vê os Estados Unidos
como a única potência capaz de se opor às suas
ambições.
Cada
vez que descobrem um vazamento em seu serviço de inteligência,
os Estados Unidos reagem como se tivessem sofrido uma afronta moral.
É, obviamente, hipocrisia, visto que os americanos espionam
Moscou com o mesmíssimo empenho. É natural que seja
assim. "A Rússia ainda tem a capacidade de destruir os Estados
Unidos em trinta minutos, e isso exige a nossa atenção,
mesmo que as possibilidades em curto prazo sejam mínimas",
diz Loch Johnson, um ex-consultor da Casa Branca para assuntos de
segurança. O que mudou bastante desde o fim da Guerra Fria
foi a motivação dos vira-casacas. O general Dmitri
Poliakov, dedurado por Ames e fuzilado por espionagem em 1988, traiu
seu país porque o queria livre do comunismo. Logo depois
da II Guerra, cientistas americanos simpáticos ao socialismo
ajudaram Moscou a obter a bomba atômica. Hoje, mais de acordo
com os novos tempos, as traições ocorrem sobretudo
por dinheiro.
Os
americanos estimam que serão necessários vários
anos de investigações para saber a extensão
do dano causado por Hanssen. Na semana passada, o processo com a
acusação já tinha mais de 100 páginas.
A casa do agente duplo foi vasculhada, e o FBI apreendeu discos
de computador, dinheiro vivo e todo tipo de tralha que possa ser
usada como prova. O problema é que, como normalmente acontece
em casos de espionagem, a única fonte disponível é
o próprio traidor. É possível que o governo
americano e Hanssen cheguem a um acordo, no qual ele contaria tudo
o que fez e sabe. Em troca da confissão detalhada, poderia
escapar da cadeira elétrica. Foi a confissão detalhada
que livrou Ames da execução. De qualquer forma, um
vira-casaca não pode esperar clemência de seus compatriotas.
Russos e americanos tratam com rigor seus traidores, ainda que Moscou
seja mais propensa a um fuzilamento sumário.
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