O bigodudo
ganhou
Bombardeios
americanos desagradam
aos árabes e ajudam Saddam a vencer
a
guerra da propaganda
As
manifestações públicas de apoio a Saddam Hussein
costumam ser desqualificadas nos Estados Unidos como meras encenações
de uma ditadura. Não era o caso da multidão que encheu
as ruas de Bagdá, na semana passada, movida por sincera indignação
com o bombardeio efetuado por aviões americanos e ingleses
nos arredores da capital iraquiana, na semana anterior. Manifestações
similares em outras partes do mundo árabe comprovaram a crescente
popularidade do ditador iraquiano nos países vizinhos. O
objetivo declarado do ataque aéreo tinha sido destruir meia
dúzia de bases de radar, que ameaçavam os aviões
que patrulhavam as zonas de exclusão. Essas são partes
do território iraquiano nas quais as Forças Armadas
de Saddam não podem operar. Um sucesso do ponto de vista
operacional, a ação foi um desastre diplomático.
Os Estados Unidos preferiram não informar a França
aliada na Guerra do Golfo, em 1991 , e Paris condenou a ação
como "incompreensível". O mesmo fizeram a China, a Rússia
e todos os países árabes, com exceção
do Kuwait, que o Iraque tentou anexar em 1990.
Esse
é o ambiente que espera o secretário de Estado Colin
Powell, que iniciou uma visita aos países do Oriente Médio
no final da semana. A missão de Powell será explicar
aos líderes da região como Bush pretende lidar com
Saddam. A intenção é refinar o embargo para
impedir que o Iraque reconstrua sua capacidade militar e fique longe
de conseguir fabricar armas de destruição em massa.
Os americanos também querem o apoio árabe para forçar
Bagdá a aceitar o retorno dos inspetores de armas da ONU.
É improvável que Saddam aceite, sobretudo agora que,
com a ajuda dos bombardeios, está vencendo a batalha da propaganda.
Até Washington admite que a política de sanções
fracassou. Estas, que deveriam atingir o governo e derrubá-lo
aos poucos, acabaram nocauteando a população. Entrincheirado
no Palácio Presidencial, em Bagdá, Saddam tem um culpado
na ponta da língua para a penúria de seu povo: o embargo
internacional.
Saddam
está no poder há mais de vinte anos. Sobreviveu ao
governo de Bush pai e a dois mandatos de Bill Clinton. Nas últimas
semanas, sua artilharia começou a fustigar os aviões
americanos e ingleses que patrulham os céus do país.
É uma provocação deliberada, para testar a
determinação do novo ocupante da Casa Branca. Novos
ataques aéreos, na quinta-feira passada, podem ser o indício
de que o presidente Bush ainda alimenta a esperança de dobrar
Saddam pela força. Não parece factível. Os
bombardeios não afetam a capacidade militar iraquiana. O
quadro político na região é muito diferente
daquele de 1991. O Iraque está deixando de ser um pária
e já tem relações até com Estados moderados,
como o Egito.
Com
um poderio infinitamente inferior, Saddam sabe jogar com as armas
que tem. O Iraque é um dos maiores produtores de petróleo
do mundo. De lá saem diariamente mais de 3 milhões
de barris responsáveis por 95% das receitas iraquianas.
Seria perfeito ver um bom moço sentado em cima de tanto petróleo,
mas até agora ninguém sabe como fazer para tirar o
velho ditador da cadeira. "As sanções e os ataques
aéreos podem não ser uma boa política, mas
é a única que temos", disse Geoff Hoon, ministro da
Defesa da Inglaterra. Se nem o embargo nem os bombardeios dão
certo, tentar fabricar uma oposição ao regime foi
outra política que não deu resultado nenhum. Americanos
e ingleses descobriram que, se é ruim com Saddam, pode ser
pior sem ele. Ninguém sabe que tipo de regime poderia surgir
no vácuo deixado pelo ditador. Um Estado fundamentalista,
como no Afeganistão, seria uma catástrofe. Um Iraque
fraco, sem comando, poderia ser presa fácil para as garras
dos aiatolás iranianos. Por isso, nos corredores do Departamento
de Estado, já não se fala com tanto entusiasmo em
derrubar Saddam. Os bombardeios, nesse contexto, só atrapalham.
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