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Crise na Turquia derruba mercados e cria
o temor de um novo terremoto financeiro
nos países emergentes

 
AP/Hikmet Saatci
Stanley Fischer, do FMI, escorrega em Ancara: silêncio sobre a crise

Tudo começou na segunda-feira da semana passada, com um bate-boca rasteiro entre o presidente da Turquia, Ahmet Necdet Sezer, e o primeiro-ministro Bulent Ecevit, com xingamentos, dedo em riste e até cópias da Constituição do país jogadas para o alto, diante de incrédulos generais e assessores que participavam de uma reunião do Conselho de Segurança Nacional, em Ancara. Dois dias depois, enquanto a economia turca naufragava em meio à maior fuga de capitais da História do país, algumas bolsas situadas muito longe da Turquia, como a de Moscou e a de Buenos Aires, desabavam sob a ameaça de uma nova crise financeira de alcance imprevisível. Parecia difícil acreditar que uma gritaria entre potentados turcos ameaçasse reviver o ataque especulativo em cadeia que, a partir do final de 1997, derrubou mercados na Ásia, na Rússia e no Brasil. Mas foi exatamente esse o temor que circulou com o baque da Turquia. A crise teve como pano de fundo os prognósticos sombrios sobre o desempenho da economia dos Estados Unidos. E isso contribuiu para tornar as coisas mais ameaçadoras em alguns países emergentes que vivem temendo a hora do encontro com a verdade fiscal. "Crises como essa na Turquia sempre causam repercussão, mas os fatores que derrubaram os mercados em 1997 não são os mesmos agora", disse a VEJA o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. "Os países criaram mecanismos para evitar ondas especulativas dos fundos de risco."

No fim da semana, o governo turco recorreu a um deles e desistiu de defender a lira, a moeda nacional, passando a adotar o câmbio flutuante. Foi a última de uma série de medidas para aplacar o estrago causado pelo barraco armado no palácio presidencial. Na reunião de segunda-feira, o presidente Sezer exigiu do premiê Ecevit mais empenho no combate à corrupção e agilidade em cumprir as metas estipuladas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em dezembro, quando foi anunciado um empréstimo de 11 bilhões de dólares ao país. A reação de Ecevit foi a senha para que os investidores vislumbrassem uma crise e começassem a trocar freneticamente a lira pelo dólar. À tarde, 5 bilhões de dólares, quase 20% das reservas do país, simplesmente evaporaram.

O governo elevou então a taxa de juros overnight, que era de 30% ao ano, para estratosféricos 3.000%, numa tentativa desesperada de defender a lira. A calmaria durou um dia, tempo suficiente para que Stanley Fischer, vice-diretor gerente do FMI que participava de uma reunião em Ancara, deixasse o país de fininho, sem comentar a crise. Na quarta-feira, quando o governo deveria honrar 6 bilhões de dólares em débitos atrasados, a Bolsa de Istambul desabou, com queda de 18,1%. Para conter uma nova sangria de dólares, o governo elevou a taxa de juros overnight para 6.200% ao ano, um índice sem paralelo na economia mundial. Em seguida, jogou de vez a toalha e anunciou a flutuação do câmbio. Em quatro dias, a lira perdeu 28% do valor. Agora, o governo turco deverá esperar a poeira baixar para rever todas as metas acertadas com o FMI, entre elas o impulso às privatizações e o combate à inflação (30% ao ano, altíssima para os padrões europeus). O empréstimo do FMI tinha sido, proporcionalmente, um dos maiores já feitos a um país, comparável ao pacote de 40 bilhões de dólares acertado em dezembro para salvar a Argentina, considerada então a bola da vez. Além de ser um mercado emergente, a Turquia ocupa papel estratégico no cenário geopolítico europeu. Situado na fronteira entre o Ocidente e o Oriente, o país abriga bases militares da Otan, conta com maioria muçulmana entre seus 66 milhões de habitantes, enfrenta problemas internos com a minoria curda e, externamente, mantém uma rivalidade histórica com a vizinha Grécia. A Europa teme deixar esse barril de pólvora em seu quintal à mercê das instabilidades dos mercados emergentes. E o sonho turco de sanear a economia para integrar o país ao mercado europeu deve ser adiado mais uma vez.

 

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