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Censura louca

Cientista canadense é punida depois
de atestar a
qualidade da carne
brasileira

No mais novo estágio da guerra comercial com o Brasil, o governo canadense revelou uma faceta insuspeitada: a censura. Na semana passada, o Ministério da Saúde do Canadá suspendeu por duas semanas a cientista Margaret Haydon, uma das mais respeitadas do órgão. A ofensa cometida pela cientista, que não receberá salários nesse período, foi afirmar por intermédio da imprensa que, na sua opinião, a carne brasileira não corria risco de estar contaminada com a doença da vaca louca. Para Haydon, conforme declarou logo após o anúncio do boicote, a decisão canadense teve caráter político, e não sanitário. A afirmação da pesquisadora não foi a única entre os canadenses que apontava para os motivos inconfessáveis que estariam por trás do veto à importação da carne brasileira. Para calar as opiniões contrárias à decisão oficial, o governo optou pela punição. Haydon foi acusada de ser "indiferente e desleal aos interesses nacionais".

Não é a primeira vez que órgãos públicos canadenses censuram cientistas. Há alguns anos, a própria Haydon passou por situação semelhante. Alertou o país sobre os riscos, para a saúde da população, de um hormônio que vinha sendo aplicado no gado. Foi proibida de se expressar publicamente. Suas opiniões teriam de passar pelo crivo dos burocratas que cuidam das relações públicas do ministério. O caso foi parar na Justiça, num julgamento quase surrealista, especialmente por ter sido montado num país defensor e propagandista da democracia. Em setembro passado, a Justiça canadense chegou a um veredicto: Margaret Haydon e os demais cientistas que trabalham para o governo foram autorizados a dar opiniões públicas sobre questões consideradas de interesse nacional. Depois dessa vitória, ela se transformou num símbolo da liberdade de expressão no país.

Era de esperar, a esta altura dos acontecimentos, que nenhum organismo público ousaria reprimir a cientista. Atribui-se o veto canadense à contrariedade de Ottawa com o sucesso da fabricante de jatos brasileira Embraer, que tomou mais da metade do mercado da concorrente canadense Bombardier, uma poderosíssima companhia que foi a principal financiadora da campanha do Partido Liberal, por meio do qual se elegeu o primeiro-ministro Jean Chrétien. Um presidente executivo da empresa ocupou o cargo de vice-ministro da Indústria e Comércio. As ligações são até familiares. O filho do primeiro-ministro canadense é casado com a filha do ex-presidente da Bombardier.

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