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História de detetive

Num caso raro, ex-dirigente da Funcef
é denunciado depois
de uma investigação
da Kroll

Ana d'Angelo, de Brasília

 
Giovani Pereira
A fazenda de Almeida em Minas: um belo casarão que o Leão desconhece

O matemático José Fernando de Almeida, 49 anos, está construindo uma biografia única. Ele já presidiu a Caixa Econômica Federal e o fundo de pensão dos funcionários do banco, a Funcef, cujo patrimônio chega perto dos 7 bilhões de reais. Agora, Almeida ganhou um item raro em seu currículo. Por iniciativa de seus sucessores no comando da Funcef, ele foi sigilosamente investigado pela Kroll Associates, empresa multinacional que se tornou conhecida no Brasil depois de vasculhar as contas de Paulo César Farias, o PC, no exterior. A diretoria do fundo queria saber como se comportara o patrimônio pessoal dos diretores da entidade entre 1996 e 1998, fase em que a Funcef amargou prejuízos da ordem de 400 milhões de reais. O relatório da Kroll, a que VEJA teve acesso, mostra que os prejuízos, nesse período, foram uma exclusividade do fundo de pensão – pois o pacote de bens pessoais de Almeida só fez crescer.

Até 1994, quando assumiu a presidência da Caixa, o patrimônio de Almeida se resumia a um apartamento financiado pela própria Caixa e dois pequenos terrenos em áreas rurais de Minas Gerais. Tudo somado não chegava a 400.000 reais – resultado de seus 22 anos de trabalho como bancário. De 1995 em diante, após presidir a Caixa e o fundo de pensão, seu patrimônio começou a dar saltos espetaculares, ainda que o maior salário que recebeu tenha sido de 20.000 reais mensais, durante apenas dois anos. Hoje, Almeida é dono de uma cobertura de mais de 1 milhão de reais num dos bairros mais nobres de Belo Horizonte, dois automóveis importados, uma empresa de alimentação, uma agropecuária, outra que presta serviços de telefonia, um posto de gasolina e um xodó: uma fazenda em Minas Gerais, a 250 quilômetros de Belo Horizonte, com 1.000 hectares, 2.000 cabeças de gado e uma bela casa de dois andares, três suítes, piscina e um jardim encantador. "É só uma casa de três quartos", desdenha ele. Atualmente seu patrimônio chega perto de 5 milhões de reais.

Almeida, que não logrou fazer uma gestão lucrativa na Funcef, descobriu uma receita de sucesso pessoal. Ele diz que guardou tudo o que recebeu de extra na vida: nunca gastou um centavo de 13º salário ou de bônus salarial e poupou todas as ajudas de custo que obteve nas vezes em que foi transferido de cidade. E também não se preocupou em manter a Receita Federal informada de sua ascensão. Na última declaração de renda, por exemplo, aparecem os dois carros importados, as terras e a empresa de agropecuária. Não há menção à mais nada nem à fazenda-xodó. O acúmulo rápido de seu patrimônio, apontado no relatório da Kroll, levou o atual presidente da Funcef, Edo de Freitas, a tomar uma providência inédita: despachou toda a papelada para a apreciação do Ministério Público, quando o normal, nessas circunstâncias, é comunicar a Secretaria de Previdência Complementar, a SPC, órgão encarregado de fiscalizar a gestão dos fundos de pensão do país.

Outro que pode estar enrolado com o Ministério Público é o ex-diretor da Funcef Sérgio Nunes da Silva. Um investigador da Kroll Associates, passando-se por um investidor interessado em comprar um imóvel da Funcef, gravou a conversa que teve com Nunes da Silva – e a transcrição do diálogo está no relatório. Na reunião, durante jantar numa churrascaria de Brasília, Nunes da Silva garante que poderia facilitar a aprovação do negócio pela diretoria e cobra uma comissão pelo serviço – que, nos termos em que conversavam, seria algo em torno de 400.000 reais. Questionado por seu interlocutor sobre como o pagamento da comissão poderia ser feito, Nunes da Silva chega a mencionar uma conta no exterior em nome de um doleiro brasileiro. Um trecho da conversa:

O investigador – E como que a gente faz para te dar isso (refere-se à comissão)?

Nunes da Silva – Não, depois nós conversamos, ou deposita lá fora...

O relatório da Kroll chama a atenção pela forma democrática com que distribui as suspeitas. Nunes da Silva, por exemplo, não foi alçado à direção da Funcef por indicações de bastidores. Chegou lá por escolha, em eleição, dos funcionários da Caixa. Nunes da Silva, por sua militância em nome da categoria, tinha ligações com a CUT, a central sindical vinculada ao PT. Tomou sua cadeira na Funcef como uma espécie de representante sindical. E, pelo que descobriu a Kroll, fazia coisas que nenhum funcionário era capaz de suspeitar. Na conversa gravada, o próprio Nunes da Silva comenta que seu então colega de diretoria, José Carvelo Xavier, teria nada menos que 80 milhões de reais guardados no exterior... Como se vê, o Ministério Público terá muito material para trabalhar.

 
Sergio Amaral
Almeida: gestão de prejuízos na Funcef


As perdas

Nos últimos anos, apenas oito fundos de pensão perderam 1,3 bilhão de reais em negócios malfeitos, segundo identificou a auditoria da Secretaria de Previdência Complementar (em milhões)

Previ 500

Funcef 400

Petros 140

Valia 120

Postalis 56

Economus 30

Telos 16

Eletroceee 12


Com reportagem de Neide Oliveira, de Belo Horizonte

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