Eflúvios
da fase gasosa
Serra
esmaga Tasso nas disputas
congressuais e
ACM quer reativar
o caso Eduardo Jorge
Patricia Santos/Folha Imagem
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| Serra,
o "genérico", e Tasso, o "errado": provocações na gaiola tucana |
O ministro
José Serra e o governador Tasso Jereissati têm pouca
coisa em comum, a não ser o mesmo hobby: falar mal um do
outro. A turma de Serra costuma dizer de maneira irônica que
Tasso é um tucano diferente, pois não muda de opinião
a todo instante. Mantém-se sempre do mesmo lado: o lado errado.
Já os aliados de Tasso dizem que Serra só fala de
genéricos, os remédios, mas concentra-se no específico:
chegar ao Palácio do Planalto. A rivalidade entre os dois
nunca teve muita importância fora da gaiola tucana. Tudo mudou
quando as circunstâncias políticas os colocaram na
condição de favoritos do PSDB à sucessão
de Fernando Henrique Cardoso.
Na
primeira batalha entre os dois, terminada há duas semanas,
Serra levou a melhor. Enquanto Tasso dialogava com o senador Antonio
Carlos Magalhães em busca de uma solução alternativa
que evitasse a eleição de Jader Barbalho à
presidência do Senado, Serra se mexeu para garantir o apoio
do PSDB ao senador do Pará. Barbalho venceu e Serra marcou
1 a 0 sobre Tasso. Na hora de escolher o líder do PSDB no
Senado, Tasso aceitava qualquer nome, menos o de Sérgio Machado,
um ex-aliado da política cearense que se tornou inimigo pessoal
do governador. Os tucanos ligados a Serra emplacaram Machado. "Ficaria
menos ofendido se entregassem o cargo a um bode", confidenciou Tasso
a um amigo. Finalmente, no processo de eleição do
líder do PSDB na Câmara, Tasso se envolveu pessoalmente
para afastar da disputa Jutahy Magalhães Júnior, da
família arqui-rival de ACM. Serra se movimentou de novo nos
bastidores e Jutahy foi o escolhido.
De
longe, é difícil compreender como Serra pode contabilizar
pontos na luta contra Tasso se nenhum dos dois ganhou ou perdeu
alguma coisa propriamente. Como o ministro da Saúde fica
mais próximo do Palácio do Planalto apoiando Barbalho,
Machado e Jutahy? No jogo da sucessão, os presidenciáveis
submetem-se a uma disputa que contém duas fases. Uma delas
é sólida e acontece diante dos olhos do eleitor nos
debates políticos, na disputa das pesquisas de intenção
de voto e no horário gratuito da TV. A essa fase sólida,
no entanto, só chega quem ultrapassar a fase gasosa, que
envolve apenas os políticos. Para ser o candidato oficial
de um partido grande, o postulante precisa vencer uma convenção,
em que os delegados dão a palavra final. E quem são
os delegados? Militantes, presidentes de diretórios, deputados
estaduais, deputados federais, senadores. Nessa fase gasosa, tem
maior chance de ser escolhido quem tiver mais poder nessa máquina.
Portanto, Serra não se movimentou apenas pelo prazer pessoal
de irritar Tasso, embora isso possa funcionar como um estímulo
adicional.
Na
segunda-feira da semana passada, Tasso se reuniu com FHC durante
seis horas, no Palácio da Alvorada, e disse o que está
sentindo. "O PSDB precisa abandonar a prática em que poucos
decidem por muitos e parar de discutir cargos em detrimento de programas",
reclamou. No encontro, Tasso informou ao presidente que não
vai entrar na política da cotovelada. "Se o debate continuar
nesse nível, para mim acabou", disse ele a FHC.
Dida Sampaio/AE
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| ACM
orienta a investigação dos procuradores: "Isso pode chegar ao
presidente" |
O presidente bem que tentou evitar que a sucessão começasse
tão cedo. Mas, quando as discussões desse tipo invadem
o noticiário, não há o que possa contê-las.
Para piorar, a lógica do debate nesse instante é feito
a biruta dos aeroportos. Ela muda conforme o vento. Num primeiro
momento, o PFL chegou a declarar que teria candidato próprio.
Depois, afirmou que marcharia unido com o nome escolhido pelos tucanos.
Na semana passada, após a divulgação da mais
recente rodada de pesquisas de intenção de voto realizada
pelo Instituto Sensus, o partido voltou a discutir a candidatura
própria. De acordo com os números, se a eleição
fosse hoje e ACM saísse candidato, ele teria quase o dobro
dos votos de José Serra. Numa simulação em
que aparece Tasso, ACM tem o triplo dos votos do governador.
Aliados
de FHC acreditam que tal desempenho nas pesquisas tem servido de
estímulo aos ataques que ACM vem desferindo contra o governo.
Na semana passada, ACM resolveu visitar três procuradores,
Eliana Torelly, Luiz Francisco de Souza e Guilherme Schelb, para
uma conversa a portas fechadas. Referindo-se ao ex-secretário-geral
da Presidência da República, Eduardo Jorge Caldas Pereira,
que recebeu 114 ligações do ex-juiz Nicolau dos Santos
Neto no auge da roubalheira do TRT de São Paulo, ACM sugeriu
aos procuradores: "Se vocês examinarem os sigilos bancário
e telefônico de Eduardo Jorge entre 1994 e 1998, com certeza
vão encontrar as coisas erradas. E isso pode chegar ao presidente".
ACM
já disse que Fernando Henrique é "tolerante com a
corrupção", mas jamais havia insinuado que FHC pudesse
ter conhecimento de alguma coisa desabonadora em relação
a Eduardo Jorge Caldas Pereira. No dia seguinte, ACM retomou os
ataques ao governo, num discurso feito da tribuna do Senado. Para
espetar novamente o presidente, iniciou dizendo que não falaria
de Eduardo Jorge e do Dossiê Cayman, aquela documentação
falsa ligada a uma suposta conta milionária dos tucanos no
exterior. Concentrou a artilharia nos ministros do PMDB e em Jader
Barbalho. Fez acusações que o Ministério Público
poderia, com facilidade, comprovar serem verdadeiras ou falsas.
Uma delas tratava de depósitos efetuados na conta particular
de Jader na época em que ele governava o Pará, referentes
a juros obtidos pela aplicação de dinheiro público.
A denúncia vem com nome do banco e da agência, além
de vários outros detalhes que permitem a investigação.
Em nome do PMDB, Renan Calheiros revidou aos ataques e relacionou
atos administrativos da gestão pefelista na Bahia que deveriam
ser investigados. É constrangedor saber que tão destacadas
lideranças detenham informações a respeito
de irregularidades, mas só as utilizem segundo suas conveniências
pessoais e calem quando não lhes interessa falar do
assunto. Por outro lado, a refrega entre PFL e PMDB, envolvendo
senadores, deputados e ministros, pode ter um aspecto salutar, proposto
pelo senador José Eduardo Dutra, do PT de Sergipe. Terminada
a confusão, ele subiu à tribuna para pedir que o Parlamento
investigasse tudo que foi denunciado por ambos os lados. Talvez
começasse aí uma das mais amplas faxinas já
vistas em Brasília.
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