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Papai Noel azul

Obcecado em apagar marcas do antecessor,
Roriz sepulta bons programas e troca até
roupa do Papai Noel

Márcio Pacelli, de Brasília

O brasileiro está habituado a assistir a um cataclismo na hora da troca de um governante. Se é opositor, o sucessor reorienta a administração inteira num sentido diferente daquele do antecessor. No Rio de Janeiro, a população viu Leonel Brizola assumir o governo em 1983 e apostar tudo em suas escolas integrais, os Cieps. Em 1987, seu sucessor, Moreira Franco, deixou os Cieps à míngua e jogou suas fichas no metrô. Quatro anos depois, Brizola voltou ao governo, renovou suas apostas nos Cieps e, é claro, deixou o metrô à míngua. Mudanças assim são a expressão lapidar do que se costuma chamar de falta de continuidade na administração pública – mas, em muitos casos, elas são baseadas em prioridades diferentes dadas por governantes diferentes. Em Brasília, porém, a população vem assistindo a um circo administrativo. O governador Joaquim Roriz, do PMDB, tem mostrado um empenho obsessivo em destruir tudo que possa lembrar o antecessor, Cristovam Buarque, do PT. E tem passado por constrangimentos notáveis por isso.

Há duas semanas, Roriz foi convidado a comparecer ao palanque de onde o presidente Fernando Henrique Cardoso lançou o programa Bolsa-Escola para todo o país. Lá, ouviram-se discursos de elogios ao programa e aos governantes que o implantaram em suas gestões – e um dos pioneiros foi Cristovam Buarque, o mesmo que acaba de ser condenado pela Justiça por usar propaganda oficial para autopromoção. No palanque, constrangido, Roriz não disse palavra: uma de suas primeiras medidas ao ser eleito foi justamente sepultar o Bolsa-Escola e retomar o velho assistencialismo de guerra. Em vez de remunerar as famílias pobres que mantêm seus filhos na escola, como o Bolsa-Escola, o programa de Roriz tem outro nome – Sucesso no Aprender – e distribui material escolar e cestas de alimentos. Em outro caso, Roriz aplicou uma mudança cosmética. O programa de saúde aos carentes criado por Cristovam tinha o nome de Saúde em Casa. O novo governador achou que tinha de mudar. Rebatizou-o de Saúde da Família.

Alterar o nome de programas não é propriamente uma novidade. Itamar Franco, quando assumiu o Palácio do Planalto, sepultou o Ciac de Collor e criou o seu Caic – isso mesmo, o programa de escolas integrais só trocou de lugar as vogais. Eleito em 1998, o governador de Goiás, Marconi Perillo, rebatizou o programa oficial destinado a atrair empresas para o Estado: o Fomentar virou o Produzir. No Rio Grande do Sul, o petista Olívio Dutra também fez uma faxina na nomenclatura. Substituiu o nome de nada menos que doze programas de seu antecessor, o peemedebista Antônio Britto. Quem faz isso, em geral alega que o programa mudou de substância. Em alguns casos, é verdade. Mas por que mudar um nome que a população conhece e já está familiarizada? Bem...

Em Brasília, a guerra vai mais longe. No dia da posse de Roriz, até a foto de Cristovam Buarque desapareceu da galeria do palácio da cidade, onde estão afixadas as fotos de todos os ex-governadores. Uma deputada do PT chegou a fazer um discurso na Câmara Legislativa pedindo a volta das placas de inauguração nas quais constava o nome do ex-governador – e que estavam sumindo misteriosamente. Pior: a vingança de Roriz entra até no campo das cores. Sempre que pode, o governador tira o vermelho, que lembra o PT, e coloca o azul, cor de sua campanha. Uma de suas providências foi trocar o logotipo do banco oficial de Brasília, o BRB: era vermelho e ficou azul. A justificativa oficial é que o governo quis resgatar a cor original. De fato, antes de Cristovam, o logotipo do banco era azul. Mas uma prova de que Roriz tem um problema óptico com o vermelho apareceu no Natal do ano passado: até o Papai Noel de Brasília era todo azul.

 
Fotos Correio Brasiliense

 

 

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