Agora, é
tudo pelo social
A
dois anos do fim, o governo aposta
todas as fichas na mudança de imagem
Maurício
Lima
Wilson Pedrosa/AE
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Nem
os críticos do governo Fernando Henrique negam que ele foi
o maestro da maior conquista brasileira das últimas décadas:
a estabilidade da moeda, que encerrou o ciclo de superinflação
e caos financeiro no país. Mas até seus simpatizantes
admitem que nem só de equilíbrio monetário
vive o povo de uma nação. Por muito tempo, o governo
Fernando Henrique deixou que prevalecesse a impressão de
que o Planalto padece de insensibilidade social, mesmo que FHC sempre
tenha tentado mostrar o contrário. Já disse que lhe
cobravam pagar numa única parcela uma dívida social
que vinha sendo acumulada há séculos. Já disse,
também, que seu governo é vítima de "falhas
de comunicação", uma forma de insinuar que sua obra
social é robusta, só que ninguém vê.
Agora, quem tem acompanhado a agenda do presidente nas últimas
semanas sentiu uma diferença: os assuntos sociais estão
de volta em ações, não em palavras.
Primeiro,
foi o anúncio da aplicação de 1,7 bilhão
de reais no programa Bolsa-Escola federal, com o qual o governo
pretende beneficiar mais de 5 milhões de famílias.
Depois, veio a notícia de 700 milhões de reais para
as periferias de São Paulo, Rio, Salvador e Recife. Na segunda-feira,
com direito a show da dupla sertaneja Rick e Renner, o presidente
lançou o programa de 1 bilhão de reais para informatizar
escolas. No dia seguinte, recebeu sessenta prefeitos em Brasília
para falar do Projeto Alvorada, um programa de 13 bilhões
de reais para melhorar as péssimas condições
de vida de 2 300 municípios muito pobres.
"A
marca que o governo vai deixar é da transformação
social", entusiasma-se Andrea Matarazzo, responsável pela
área de comunicação do Planalto. Se o governo
irá chegar a tanto, superando o emblema da estabilidade econômica,
é preciso esperar para ver. O certo é que o dinheiro
está mais farto, especialmente por causa da redução
da taxa de juros, que chegou a 45% e hoje está em 15,25%.
Até 1999, o presidente Fernando Henrique teve de lidar com
as críticas de que seu governo gastava menos que os antecessores
na área social. Naquele ano, porém, a maré
virou. O gasto social per capita critério que exibe maior
valor de comparação com o passado chegou a 179
reais, mais do que no governo Collor. Em 2000, saltou para 233 reais,
um recorde desde o governo Sarney. Para este ano, prevê-se
que o gasto chegue a um recorde histórico, 264 reais, conforme
as projeções do Instituto de Estudos Sócio-Econômicos,
uma ONG que acompanha a execução do Orçamento
da União. "É o maior orçamento social da História
do Brasil", comemora Vilmar Faria, assessor do Planalto para assuntos
sociais.
A
previsão otimista para 2001 tem fundamento, caso nenhum terremoto
venha abalar a economia. No fim deste ano termina o acordo com o
Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo qual o governo
se compromete a gerar um superávit primário de quase
30 bilhões de reais. Com o fim desse acordo, já se
ouvem no governo as primeiras vozes defendendo que parte dessa dinheirama
seja destinada para fins sociais. Fala-se em reservar algo em torno
de 5 bilhões de reais, uma cifra que, segundo seus defensores,
ainda deixaria o Brasil com um superávit primário
aceitável para o mercado externo. Para se ter uma idéia
do impacto que 5 bilhões podem ter basta lembrar que se trata
de metade de tudo o que o Brasil está investindo em educação
neste ano. Ou três vezes mais do que a área de saneamento
básico, sob o comando do ministro da Saúde, José
Serra, terá para gastar em 2001.
O
presidente Fernando Henrique nunca escondeu que não quer
passar para a História apenas como o maestro da estabilidade
econômica, embora isso não seja um feito menor. Para
lustrar sua biografia, gostaria de aparecer também como um
dirigente que contribuiu para resgatar a aridez da paisagem social
brasileira. Não tem sido um caminho fácil. Ao chegar
ao Palácio do Planalto em 1995, já a bordo do Plano
Real, o presidente tinha muita clareza do que fazer no campo econômico.
Na área social, porém, era uma nuvem de dúvidas.
Na largada, o governo sepultou o velho assistencialismo da LBA,
que distribuía cestas básicas enquanto acumulava um
fornido cesto de escândalos, mas em alguns momentos dava sinais
de que era capaz de voltar ao assistencialismo à antiga,
pois a colheita social não mostrava os resultados esperados.
Foi nessa época que o governo rebaixou o status hierárquico
do programa Comunidade Solidária.
Agora,
só com o Projeto Alvorada, que reúne quinze programas
para os 2.300 municípios pobres,
há um perfil definido: planeja-se levar a essas cidades luz,
água, bolsa-escola, emprego, saúde em casa e nada
de doações. São medidas que, uma vez implementadas,
tenderão a melhorar todos os indicadores sociais dessas comunidades
da mortalidade infantil ao analfabetismo. Apesar de uma melhora
no foco, os gastos sociais do governo ainda parecem carecer de uma
bússola precisa. No ano passado, por exemplo, o governo bateu
seu recorde de investimentos em saúde, habitação,
assistência social e segurança pública. Ao mesmo
tempo, seus gastos com educação e saneamento foram
menores que no ano anterior. Como não há quem, dentro
ou fora do governo, ache que saneamento básico e educação
são assuntos resolvidos e que já possam dispensar
altos investimentos, é um sinal de que a escolha do destino
de certos gastos sociais ainda se dá na base do improviso.
Costuma-se
associar elevação de gasto social com fim de mandato
de governante e é uma associação correta.
O cientista político David Fleischer, da Universidade de
Brasília, coordenou um trabalho sobre o sobe-e-desce dos
gastos sociais em cinco Estados. Todos turbinaram os investimentos
na área social no último ano. O caso mais emblemático
é o de Mário Covas, em São Paulo. Em 1998,
último ano de seu primeiro mandato, houve um aumento de 30%
nas verbas sociais. Em Mato Grosso e no Rio Grande do Sul, o aumento
foi de 25%. No Rio Grande do Norte, 18%. No Rio de Janeiro, 13%.
É natural que isso aconteça num país que tem
despertado para a necessidade de máquinas financeiramente
ajustadas. Assim, os governadores se envolvem num ajuste fiscal,
como aconteceu com Mário Covas, e só sentem o alívio
no final do mandato. Mas também é um produto da própria
natureza do poder, que nunca quer deixar de ser poder e, na reta
final, aguça sua sensibilidade para o pão e o circo
das massas. Nem sempre resolve. Dos cinco Estados estudados pelo
professor Fleischer, dois não reelegeram os governantes que
foram "sociais" no final do mandato.
Se
os gastos sociais de Fernando Henrique chegarem em 2001 ao que se
prevê hoje, então se poderá fazer o mesmo raciocínio
de que o presidente nunca gastou tanto como no último
ano do mandato, quem sabe para ajudar na eleição de
seu sucessor. Mas isso não foi verdade em 1998, quando Fernando
Henrique concorreu à reeleição. Naquele ano,
o governo investiu mais em educação e assistência
social, mas caíram as aplicações em habitação
e saúde. No cômputo geral, o dinheiro do social em
1998 subiu apenas em relação ao ano anterior, mas
ainda permaneceu abaixo do que se havia investido em 1995 e 1996.
Serve de consolo para quem não gosta de ver verba social
trocada por voto. Ou de desconsolo para quem acha que, num país
rico mas injusto, como diz o presidente, verba social nunca é
desprezível. Nem antes, nem depois, nem durante um período
sucessório.
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