Eles tomaram
o poder
Megarrebelião
de presos em São Paulo
é mais um sinal de alerta emitido por um
sistema falido e perigoso

Kristhian
Kaminski e Larissa Squeff
Patrícia Santos/Folha Imagem

Revista
de presos do Carandiru após o fim da rebelião:
armas, drogas e celulares |
O Brasil
foi apresentado na semana passada a um grupo criminoso cujo poder
intimidador era completamente desconhecido fora dos círculos
da marginalidade. Em sua primeira exibição pública,
o bando de presidiários que se autodenomina PCC (a sigla
para primeiro comando da capital) deu uma apavorante demonstração
de força. No começo da tarde de domingo eles promoveram
o maior motim da história brasileira, talvez sem paralelo
em nenhum outro país. Simultaneamente, 29 presídios
localizados em 19 cidades do Estado de São Paulo se rebelaram.
Conectados por uma rede de telefones celulares, precisaram de apenas
trinta minutos para assumir total controle da situação
a partir do Complexo do Carandiru, na capital. O movimento envolveu
28.000 presidiários. Mais de 10.000
familiares que estavam em visita aos presos foram tomados como reféns.
André Penner

Prisões
superlotadas e imundas: prenúncio de mais tragédias
pela frente |
Tamanha organização e ousadia por parte dos criminosos
desorientaram completamente as autoridades. Nunca se vira uma rebelião
em série. Pela primeira vez uma regra informal de conduta
foi quebrada e parentes foram tomados como reféns. Era uma
das normas do código de ética dos presi se é que isso faz sentido, nunca colocar em risco parentes
dos próprios presos. Os bandidos tinham drogas, armas e meios
eficientes para se comunicarem. Além disso, contavam com
o escudo formado pelos parentes-reféns. Mais de 1.000
eram crianças. Pelos cálculos do governo, nessas circunstâncias
qualquer reação mais enérgica, qualquer falha
como o disparo acidental de uma arma poderia resultar
em uma tragédia sangrenta.
Também
nunca se vira antes um grupo de rebelados assumir o comando sobre
tantos presos, em tantos lugares diferentes e com tamanho poder.
Os policiais chamados para conter a rebelião ficaram do lado
de fora. O foco principal do motim foi controlado somente na manhã
de segunda-feira. Restou às autoridades admitir a perplexidade.
"A dimensão foi acima de todas as expectativas", afirmou
o secretário de Segurança, Marco Vinício Petrelluzzi.
A autoridade mais alta do sistema carcerário paulista, o
secretário de Administração Penitenciária,
Nagashi Furukawa, afirmou que "não imaginava que a reação
poderia ser tão grande". Pelo tamanho da revolta, o número
de dezesseis presidiários assassinados por rivais dentro
das cadeias, um deles decapitado diante de visitantes, até
que parece baixo. Poderia ter sido muito pior, mesmo porque a rebelião
levantou o fantasma de uma fuga em massa de milhares de bandidos.
Num cenário desses, as cidades em torno dos presídios
entrariam em estado de choque.
O
caso chamou mais uma vez a atenção para um dos maiores
problemas do Brasil. Olhando para a explosão da criminalidade
e a falência do sistema carcerário do país,
o que provoca espanto é que episódios desse tipo já
não tenham ocorrido antes. O preso é submetido a uma
lista de privações que deixa os nervos expostos e
os ânimos constantemente exaltados. Existem 230.000
encarcerados em 170.000 vagas nas penitenciárias
brasileiras. Uma outra leva está vivendo em condições
ainda piores nos distritos policiais. Só em São Paulo
são 30.000 presos ocupando 15.000
vagas nos xadrezes das delegacias. Em algumas celas o espaço
é de apenas 30 centímetros quadrados por detento.
Na maior parte dos recintos, o Estado não fornece papel higiênico,
nem sabonete, nem uniformes. O banho é frio e apenas 70%
dos presos têm um colchão. Dentro de um grande presídio
como o Carandiru, o risco de ser assassinado é dez vezes
maior do que nas regiões mais violentas do mundo. Nesse cenário,
é difícil imaginar que alguém se diga surpreso
com o surgimento de grupos criminosos assustadores. Segundo as pessoas
que lidam diariamente com o assunto, o sistema carcerário
vem dando sinais claríssimos de esgotamento. No ano passado,
foram registradas duas rebeliões por mês e uma fuga
por dia nas cadeias paulistas. De vez em quando a pressão
provoca explosões como esta e como a grande rebelião
que resultou no massacre de 111 presos pela PM, no presídio
do Carandiru, em 1992.
Fotos Joel Rocha
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Fotos Joel Rocha
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| Presídio
modelo em Guarapuava, no Paraná: todos os presos trabalham
e não há rebeliões |
A rebelião
da semana passada teve outra característica inédita.
Os presos não estavam pedindo melhorias no sistema carcerário.
Eles protestavam contra a remoção, do Carandiru, de
cinco criminosos tidos como os líderes do PCC, bandidos perigosos
conhecidos pelos apelidos de "Sombra", "Macarrão", "Jonas",
"Feirante" e "Marcola". Pela experiência dos policiais, é
o tipo de gente capaz de quase tudo. Quatro deles estão condenados
à pena máxima prevista na lei brasileira e já
conseguiram escapar pelo menos uma vez da cadeia. O grupo é
apontado como responsável por trinta roubos e dez homicídios.
Exercem seu poder sobre os outros presos controlando a entrada de
facilidades (como drogas e telefones) na cadeia e oferecendo proteção
para as famílias por meio de um esquema tipicamente mafioso.
O que preocupa é que essa lógica de comando segue
um padrão muito estudado pela sociologia: quando a autoridade
do Estado não se manifesta, o vácuo de poder é
ocupado por outras organizações. Nas periferias e
favelas, os traficantes decretam feriados para louvar a morte de
colegas mortos, cobram pedágios, alistam menores para trabalhar
no negócio das drogas, promovem matanças, e mesmo
assim são reverenciados pela população como
grandes benfeitores. Não existe cena mais perturbadora. Para
a força policial, para quem realmente deveria proteger e
dar segurança, os morros do Rio de Janeiro e a periferia
de São Paulo são território inimigo, como se
existisse uma guerra. O que se está vendo nos presídios
paulistas é a mesma coisa. Não se pensava que os marginais
fossem capazes de afrontar dessa maneira o poder do Estado dentro
de quatro paredes, onde teoricamente o governo deveria manter controle
absoluto.
O
desafio de trazer a paz é enorme. Para enfrentá-lo
não existem fórmulas mágicas. Um primeiro obstáculo
é que atacar o problema da falta de vagas requer muito mais
dinheiro do que o governo tem para gastar. Somente para zerar o
déficit são necessários 600 milhões
de reais. Acabar com a crise demanda dobrar o volume de gastos anuais
com o sistema. Maior atenção das autoridades ajudaria.
No ano passado, estavam previstos investimentos federais da ordem
de 140 milhões de reais para a construção de
novos presídios. Só 100 milhões foram liberados.
Depois da rebelião da semana passada, o governo subitamente
mostrou-se apressado em soltar o resto da verba. A segunda grande
dificuldade apontada pelos estudiosos é que o sistema carcerário
atingiu um nível tal de corrupção que ampliá-lo
do jeito que está seria como alimentar um monstro. Na operação
pente-fino que se fez no Carandiru após o motim, foram capturados
trinta celulares, seis revólveres, 375 estiletes e nada menos
que 200 papelotes de cocaína. No presídio de Marília,
foram encontrados dois pés de maconha com 30 centímetros.
O fluxo de artigos proibidos para dentro da cadeia é incessante.
Um dia depois da varredura feita em seguida à rebelião,
presos do Carandiru se exibiam nas janelas falando ao celular, um
artigo proibido no xadrez. Mundo afora, presídios-cidades
como o Carandiru estão sendo demolidos para ceder lugar a
presídios menores e mais fáceis de controlar e administrar.
Contudo, esse aparato ilegal só entra na cadeia com a conivência
de funcionários, que ganham dinheiro para fechar os olhos.
De certa forma, eles compartilham o inferno dos presos. Em muitos
corredores da Detenção se trabalha no escuro, sob
pressão constante. Uma pesquisa mostrou que mais de 20% dos
guardas são alcoólatras.
Quem
está do lado de fora é diretamente atingido por essa
situação. Aparelhados, os bandidos controlam muito
facilmente seus negócios de dentro da cadeia. Dispensam a
intermediação de comparsas e advogados. A penitenciária
cumpre um papel inverso. Deveria proteger a sociedade isolando marginais
perigosos e preparando-os para retornar ao convívio dos cidadãos
de comportamento correto. Na realidade, o presídio transformou-se,
no Brasil, em algo como uma central criminosa. O animador é
que muitas medidas eficientes para enfrentar essa situação
caótica não dependem de investimentos ou alterações
profundas na forma de administrar a máquina funcional. Entre
os estudiosos do assunto, está se formando um consenso em
torno da idéia de que o governo paulista errou ao acreditar
que fazendo concessões aos bandos criminosos controlaria
mais facilmente as tensões. Com base nessa premissa, foi
permitida a visita da mulher a seu marido preso, o uso de drogas
é disseminado e a vigilância sobre os presos é
frouxa. Nos presídios que funcionam sem sobressaltos, o Estado
se empenha em cumprir duas regras: o monitoramento constante e severo
das atividades dos presos e o rigor absoluto no cumprimento das
normas internas de conduta. "O partilhamento do poder com os encarcerados
que foi adotado em São Paulo representou um tiro no pé",
avalia o coronel reformado da PM José Vicente da Silva Filho,
especialista em temas ligados à criminalidade e à
segurança.
O
Rio de Janeiro deu bons exemplos de como lidar com os poderosos
grupos que se formaram dentro dos presídios. Os chefões
dos grupos organizados foram transferidos rapidamente e sem concessões
antes que pudessem articular-se. Por seu turno, os funcionários
receberam treinamento específico para lidar com situações
de tensão e aprenderam a monitorar de perto as atividades
dos presos. Os problemas não acabaram, mas a situação
está relativamente sob controle. Apesar de ter a segunda
maior população carcerária do país,
com traficantes poderosos atrás das grades, o Rio de Janeiro
enfrentou apenas uma rebelião de meia hora no ano passado,
enquanto São Paulo assistiu a mais de vinte.
Também
se sabe que a pressão poderia baixar muito caso o sistema
legal fosse utilizado de maneira mais adequada para enfrentar a
questão. Com exceção dos Estados Unidos, que
tem 80 bilhões de reais para despejar anualmente no sistema
carcerário, todos os países do mundo estão
ampliando o uso das chamadas punições alternativas,
como passar ao condenado obrigações como trabalhar
em escolas ou hospitais. Na Alemanha, 98% dos condenados não
vão para a cadeia cumprem alguma missão social.
O xadrez é reservado só para os bandidos mais perigosos.
Segundo os especialistas, a aplicação mais ampla dessas
penas e a revisão sistemática dos processos desafogariam
enormemente as prisões brasileiras. Um levantamento da Pastoral
Carcerária em São Paulo mostrou que 2.000
dos 7.200 presos do Carandiru estavam
aptos a receber punições alternativas quando foram
condenados à prisão. De acordo com estimativas de
advogados, cerca de 20% dos presos já cumpriram sua pena,
mas continuam detidos porque simplesmente não sabem. O Brasil
não pode dar-se ao luxo de querer tratar da questão
apenas com a construção de novas cadeias. "A sociedade
precisa acordar e encarar o desafio com coragem", diz a socióloga
Julita Lemgruber, especializada em assuntos ligados ao sistema prisional.
Já deveria ter acordado antes. A rebelião paulista
da semana passada talvez funcione agora como o despertador que faltava.
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As
soluções
Não
existe receita infalível, mas os especialistas apontam
medidas que podem amenizar o problema
1.
Liberar recursos No ano passado, o governo deveria
ter aplicado 140 milhões de reais nos presídios
brasileiros. Só 100 milhões foram de fato liberados
2.
Desmantelar cidades-presídios Cadeias superlotadas
como o Carandiru, que tem 7 200 detentos ocupando 3 300 vagas,
são ambientes que estimulam os motins. Devem ser substituídos
por presídios menores, com até 500 presos
3.
Desmontar as organizações criminosas
As autoridades imaginavam que negociando com os líderes
dos bandos controlariam as tensões nos presídios.
A estratégia só reforçou o poder das
facções. A saída é identificá-los
e destruir sua estrutura de poder
4.
Aplicar penas alternativas para crimes leves As
cadeias poderiam ficar livres de 25% de sua população
5.
Rever a situação penal dos presos
Estima-se que 20% dos detidos nos presídios mais populosos
já tenham cumprido a pena e poderiam ser colocados
na rua
6.
Melhorar as condições desumanas do cárcere
Prisões imundas, superlotadas, promíscuas
e violentas são o caldo de cultura perfeito para a
corrupção dos funcionários, a formação
de gangues de presos e a erupção de revoltas
7.
Reformar o sistema legal penal Os procedimentos
judiciais são obsoletos. Em média, o acusado
fica preso quatro anos antes de receber a sentença
8.
Estimular o trabalho dos presos O trabalho afasta
os detentos das organizações criminosas e facilita
sua reinserção social
9.
Apertar a vigilância Funcionários
bem treinados, e devidamente equipados, têm plena condição
de monitorar o que se planeja dentro da cadeia para alertar
as autoridades
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O
celular globalizou a vida do presídio
Marcos Mendes/AE

Detento
usa celular após revista: governo não consegue
evitar entrada do aparelho |
Os chefões do crime sempre mantiveram ligação
constante com o mundo exterior por meio de comparsas e advogados.
A introdução do telefone celular nos presídios
permitiu ações muito mais rápidas e coordenadas,
uma vez que dispensa a presença dos intermediários
na cadeia. As autoridades acreditam que o uso desses aparelhos
foi um dos fatores de sucesso da rebelião deflagrada
em São Paulo. Estima-se que entre os 7 200 detentos
do Carandiru mais de 2 000 tenham acesso a telefones celulares
próprios ou alugados dos colegas. Em cada revista
que se faz nos presídios, em média, são
apreendidos quarenta aparelhos. Segundo as investigações
da polícia e do Ministério Público, são
os próprios agentes penitenciários que abastecem
os presos. Pelos relatos obtidos nas apurações
sobre uso de celulares, descobriu-se que os agentes cobram
uma taxa que chega a 600 reais para permitir sua entrada.
O valor equivale a quase 75% de seu salário médio.
A administração tem poderes para proibir o uso
dos aparelhos, mas não existem leis específicas
sobre o assunto. Nunca se investigam as ligações
feitas a partir dos aparelhos apreendidos. Nos Estados Unidos,
o governo mantém registros até sobre as pessoas
para quem os presos ligam dos telefones públicos instalados
dentro da cadeia. Na França e em Israel, as autoridades
começaram a usar misturadores de sinais para inviabilizar
o uso do aparelho na área das prisões. No Brasil,
continua o vale-tudo.
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Facções
vendem lugar em cela e drogas
Epitácio/Pessoa/AE

Mostrando
os dentes: presos do PCC tomam conta de presídio
no interior de São Paulo |
Os
líderes das facções criminosas que controlam
os presídios adotam uma série de regras para
permitir a entrada de novos membros. A fundamental é
que o bandido tenha sido condenado por crimes graves. Pequenos
assaltantes estão fora. Uma de suas características
mais impressionantes é como eles conseguem estender
seu poder para fora do presídio. Investigações
conduzidas pelo governo mostram que, do lado de fora, esses
grupos comandam grandes operações dedicadas
ao tráfico de drogas, assaltos a banco e libertação
de presos. O preço para soltar um detento da cadeia
pode chegar a 70 000 reais. Os artifícios que tornam
isso possível não são totalmente conhecidos.
Acredita-se que o grupo mantenha a coesão do círculo
criminoso com o uso de ameaças e intimidações.
"Eles conquistaram fama e prestígio. Viraram mitos.
Os que não colaboram sabem que podem morrer", diz Renato
Talli, ex-juiz corregedor dos presídios, estudioso
do poder das facções. Atrás das grades,
o grupo mantém seu poder controlando a distribuição
de facilidades. Eles vendem lugares nas celas, alugam telefones
celulares, estabelecem que espaços podem ser freqüentados
pelos presos e comandam a distribuição de drogas
internamente. "Quem não quer se envolver não
consegue nada", afirma o atual juiz corregedor Otavio Augusto
Machado. Muitos presos acabam contraindo dívidas que
os mantêm sob o domínio das gangues. Embora existam
relatos da existência do PCC desde 1993, o governo do
Estado não reconhecia oficialmente sua atuação.
Para muitos, isso explica em parte o desastre ocorrido domingo.
|
Com
reportagem de
Patrícia Queiroz


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