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Buuuu,
bau bau, quiquiriqui
Ilustração Pepe Casals
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Vinte e seis brasileiros jogam no campeonato italiano de futebol.
Uns famosos, como Ronaldo, Edmundo, Emerson. Outros menos,
como Marco Aurélio, Matuzalém, Eriberto. Dos
26, há seis brancos e vinte negros. Alguns desses negros
seriam considerados pardos ou mulatos no Brasil, mas os italianos
não vêem a menor diferença entre, por
exemplo, Cafu e Roque Júnior, embora o primeiro seja
muito menos escuro que o segundo. Os italianos acham que só
existem brancos e negros. Quem não é branco
é negro. Talvez seja melhor assim. A intelectualidade
brasileira, no último século, criou uma espécie
de dogma da miscigenação. O maior resultado
desse dogma foi esconder nosso próprio racismo.
Os torcedores italianos sempre cobrem os jogadores brasileiros
de vaias e insultos. Nosso futebol anda meio em baixa: dos
26 que jogam na Itália, apenas oito são titulares
em seus times. Mas as vaias não têm nada a
ver com o desempenho esportivo, e sim com a cor da pele.
Na maioria dos estádios italianos é assim:
quando um negro toca na bola, é vaiado, seja ele
brasileiro, africano, francês ou holandês. Os
torcedores mais racistas pertencem aos times do Lazio e
do Verona. No mês passado, o presidente do Verona
pensou em contratar um jogador de Camarões, mas desistiu
porque a torcida jamais aceitaria a presença de um
negro no time, ainda que fosse para salvá-lo do rebaixamento.
Quanto aos torcedores do Lazio, vivem debochando do time
de seus maiores rivais, o Roma, que tem quatro negros brasileiros:
Aldair, Emerson, Cafu e Marcos Assunção. Algum
tempo atrás, os torcedores do Lazio expuseram uma
faixa em que o antigo lema Roma caput mundi (Roma,
capital do mundo) foi transformado em Roma caput Burundi
(Roma, capital de Burundi). O mais engraçado é
que parte do dinheiro usado para sustentar o Lazio vem do
Brasil, já que o dono do time, Sergio Cragnotti,
também é dono da Bombril.
No começo do ano, a Federação Italiana
de Futebol resolveu tomar uma atitude contra o racismo nos
estádios. De agora em diante, toda vez que os torcedores
vaiarem um jogador negro seus times poderão perder
o mando de campo nas rodadas sucessivas. Exceto nos casos
em que as vaias dos torcedores extremistas forem sufocadas
pelos aplausos do resto do estádio. Foi o que aconteceu
em Verona dois domingos atrás. Uma parte da torcida
começou a fazer "Buuuuu" sempre que um negro do time
adversário tocava na bola. A outra parte, para evitar
o risco de punições, prontamente camuflou
o "Buuuuu" com fragorosos aplausos. Os italianos vaiam gritando
"Buuuuu" em vez de "Uuuuuu". O latido de um cachorro é
"bau bau". O galo faz "quiquiriqui". O cavalo, "clopete
clopete". A buzina, "pé pé". Apesar de morar
na Itália há catorze anos, não consigo
me acostumar a essas coisas. Já pensei em mudar de
país só por causa disso.
Voltando ao racismo nos estádios, ocorreu-me que
a sugestão da Federação Italiana de
Futebol de cobrir gestos de incivilidade com aplausos pode
ter muitas aplicações no dia-a-dia. Na próxima
vez em que dois ilustres deputados como Jonival Lucas Junior
e José Lourenço estiverem reclamando um quinhão
de dinheiro pelo telefone, seus companheiros de partido
devem aplaudir bem alto, para que ninguém possa ouvir
o conteúdo das gravações.
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