Em foco

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira

Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Gustavo Franco

O general Ludd e
seus imitadores

"É patética e descabida a iniciativa do francês José Bové,
acompanhado de militantes do MST, de destruir uma
plantação experimental de soja transgênica"



Ilustração Ale Setti

Existem registros de pelo menos três personagens que, durante os séculos XIII e XIV, podem ter sido a matriz para Robin Hood, que aparece em seu formato atual apenas em poemas narrativos, bem mais tarde, no final do século XV. Nessa ocasião, a Floresta de Sherwood estava se convertendo em pastagem, e Robin havia se tornado uma espécie de herói folk a representar a integridade da natureza e a santidade da tradição, ambas ameaçadas pelo progresso. A literatura (Sir Walter Scott em Ivanhoé, por exemplo) e depois o cinema (Errol Flynn, Kevin Costner) tratam Robin com extrema simpatia, o que definitivamente não ocorre com outro herói folk da mesma região, porém de alguns séculos adiante: o general Ned Ludd. Pouca gente sabe o que fez esse general, que batalhas travou e contra quem.

A partir de 1811, diversos episódios de depredação e baderna, tendo sempre como alvos máquinas e fábricas, se multiplicaram em espantosa proporção na Inglaterra. A autoria dos atentados era difícil de asseverar; eram comunidades inteiras envolvidas no que parecia um movimento "orgânico" e espontâneo. Os eventos eram sempre precedidos ou seguidos de manifestos e ameaças assinados por um personagem imaginário, Ned Ludd, um pseudônimo adotado por vários líderes do movimento, depois promovido a general.

Em 1813, estimava-se que cerca de 2.400 teares a vapor estivessem operando no país; em 1830, o número deve ter atingido 100.000. Era a "revolução industrial", um processo que o historiador David Landes descreveria em seu clássico estudo (Prometeu Desacorrentado) como o início de um doravante indissolúvel casamento entre a ciência e a produção fadado a mudar o mundo.

Foi o próprio Marx quem chamou a atenção, em 1848, para o fato de que o progresso material da humanidade nos últimos 100 anos tinha sido maior que em toda a experiência humana anterior. Quem olhasse a sua volta, todavia, enxergaria uma nova e assustadora realidade: fábricas que pareciam masmorras, poluição, trabalho infantil, jornadas desumanas, desemprego tecnológico, todo o combustível necessário para alimentar os piores pavores sobre o futuro daquela "nova economia" que ali se constituía.

Naquele momento, o homem parecia sentir-se especialmente desconfortável com os avanços da ciência, como bem demonstrava o ludismo. Os simpatizantes eram muitos. Lord Byron lhes dedicou um poema, e Mary Shelley, cujo marido andou organizando donativos para o movimento, levaria às últimas conseqüências os pavores com os rumos da ciência, no que podemos hoje tomar como uma angustiada metáfora dos dilemas envolvidos na biotecnologia: Frankenstein ou o Prometeu Moderno (de 1818).

O fato é que a popularidade do general Ludd dependia muito de condições econômicas ocasionalmente desfavoráveis advindas, em particular, da guerra com a França e do bloqueio continental. Não eram contradições fundamentais do sistema, como supunham Marx e diversos outros inimigos do capitalismo. Encerrado o conflito, explode o crescimento inglês na segunda metade da década de 1810, e o general Ludd desaparece quase sem deixar vestígio.

Nos dias de hoje, a humanidade encara com muito mais naturalidade os avanços da ciência, mesmo os que ocorrem no terreno em que Mary Shelley tanto se assustou. Por isso mesmo é patética e descabida a iniciativa deste senhor francês José Bové, herói de recente congresso em Porto Alegre, acompanhado de militantes do Movimento dos Sem-Terra, de destruir uma plantação experimental de soja transgênica. Seria uma indulgência imerecida buscar o "pedigree" dessa iniciativa, ou de ataques às lanchonetes do McDonald's, no já esquecido general Ludd. Bové está mais para uma inversão de beijoqueiro de esquerda, ou a serviço do protecionismo agrícola europeu, destinado às páginas próprias ao grotesco. Infelizmente, Bové não conseguiu macular nossa reputação de impunidade diante de baderneiros, pois não foi obrigado, junto com seus cúmplices do MST, a ressarcir os prejuízos que causou. Pelo menos uma das lições que aprendemos desde os luditas é que a propriedade privada não é um roubo, e, se foi danificada de má-fé, as perdas devem ser reparadas pelo seu autor.


Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)

 

Copyright 2001
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições especiais | Especiais on-line | Estação Veja
Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco