Gustavo
Franco
O
general Ludd e
seus imitadores
"É
patética e descabida a iniciativa do francês
José Bové,
acompanhado de militantes do MST, de destruir uma
plantação experimental de soja transgênica"
Ilustração Ale Setti
|
Existem
registros de pelo menos três personagens que, durante
os séculos XIII e XIV, podem ter sido a matriz para
Robin Hood, que aparece em seu formato atual apenas em poemas
narrativos, bem mais tarde, no final do século XV.
Nessa ocasião, a Floresta de Sherwood estava se convertendo
em pastagem, e Robin havia se tornado uma espécie
de herói folk a representar a integridade da natureza
e a santidade da tradição, ambas ameaçadas
pelo progresso. A literatura (Sir Walter Scott em Ivanhoé,
por exemplo) e depois o cinema (Errol Flynn, Kevin Costner)
tratam Robin com extrema simpatia, o que definitivamente
não ocorre com outro herói folk da mesma região,
porém de alguns séculos adiante: o general
Ned Ludd. Pouca gente sabe o que fez esse general, que batalhas
travou e contra quem.
A partir de 1811, diversos episódios de depredação
e baderna, tendo sempre como alvos máquinas e fábricas,
se multiplicaram em espantosa proporção na
Inglaterra. A autoria dos atentados era difícil de
asseverar; eram comunidades inteiras envolvidas no que parecia
um movimento "orgânico" e espontâneo. Os eventos
eram sempre precedidos ou seguidos de manifestos e ameaças
assinados por um personagem imaginário, Ned Ludd,
um pseudônimo adotado por vários líderes
do movimento, depois promovido a general.
Em 1813, estimava-se que cerca de 2.400
teares a vapor estivessem operando no país; em 1830,
o número deve ter atingido 100.000.
Era a "revolução industrial", um processo
que o historiador David Landes descreveria em seu clássico
estudo (Prometeu Desacorrentado) como o início
de um doravante indissolúvel casamento entre a ciência
e a produção fadado a mudar o mundo.
Foi o próprio Marx quem chamou a atenção,
em 1848, para o fato de que o progresso material da humanidade
nos últimos 100 anos tinha sido maior que em toda
a experiência humana anterior. Quem olhasse a sua
volta, todavia, enxergaria uma nova e assustadora realidade:
fábricas que pareciam masmorras, poluição,
trabalho infantil, jornadas desumanas, desemprego tecnológico,
todo o combustível necessário para alimentar
os piores pavores sobre o futuro daquela "nova economia"
que ali se constituía.
Naquele momento, o homem parecia sentir-se especialmente
desconfortável com os avanços da ciência,
como bem demonstrava o ludismo. Os simpatizantes eram muitos.
Lord Byron lhes dedicou um poema, e Mary Shelley, cujo marido
andou organizando donativos para o movimento, levaria às
últimas conseqüências os pavores com os
rumos da ciência, no que podemos hoje tomar como uma
angustiada metáfora dos dilemas envolvidos na biotecnologia:
Frankenstein ou o Prometeu Moderno (de 1818).
O fato é que a popularidade do general Ludd dependia
muito de condições econômicas ocasionalmente
desfavoráveis advindas, em particular, da guerra
com a França e do bloqueio continental. Não
eram contradições fundamentais do sistema,
como supunham Marx e diversos outros inimigos do capitalismo.
Encerrado o conflito, explode o crescimento inglês
na segunda metade da década de 1810, e o general
Ludd desaparece quase sem deixar vestígio.
Nos dias de hoje, a humanidade encara com muito mais naturalidade
os avanços da ciência, mesmo os que ocorrem
no terreno em que Mary Shelley tanto se assustou. Por isso
mesmo é patética e descabida a iniciativa
deste senhor francês José Bové, herói
de recente congresso em Porto Alegre, acompanhado de militantes
do Movimento dos Sem-Terra, de destruir uma plantação
experimental de soja transgênica. Seria uma indulgência
imerecida buscar o "pedigree" dessa iniciativa, ou de ataques
às lanchonetes do McDonald's, no já esquecido
general Ludd. Bové está mais para uma inversão
de beijoqueiro de esquerda, ou a serviço do protecionismo
agrícola europeu, destinado às páginas
próprias ao grotesco. Infelizmente, Bové não
conseguiu macular nossa reputação de impunidade
diante de baderneiros, pois não foi obrigado, junto
com seus cúmplices do MST, a ressarcir os prejuízos
que causou. Pelo menos uma das lições que
aprendemos desde os luditas é que a propriedade privada
não é um roubo, e, se foi danificada de má-fé,
as perdas devem ser reparadas pelo seu autor.
Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente
do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)